28 October 2007

primavera


Ela chegou há pouco mais de um mes, e está no auge de sua beleza, trazendo estiagem, seguida de chuvas violentas. E calorzinho que faz lembrar que daqui a pouco estarei me derretendo nos 40 e poucos graus do verão carioca. Mas por enquanto, não quero pensar em coisa ruim. Por onde passo, as flores estão pipocando, explodindo.

Estas que estão na foto são os bouganvilles que plantei no canteirinho atrás de casa. Deram tão certo -apesar do fato de terem sido plantados em canteiro- mas cresceram tanto tanto, que tomaram conta do varal.

Aí tem na verdade quatro cores, apesar de eu ter só plantado três: maravilha, pêssego e coral. Acontece que o coral nasce rosa, então... fico um tempão contemplando, apreciando, e fico orgulhosa: fui eu que plantei. Bom pra quando se está triste, é só ir lá atrás, olhar pra cima e levitar. E cantar...

Primavera. E neste instante me lembro da música do Cassiano com este título, e que virou sucesso na voz de Tim Maia. Gosto muito desta gravação, mas a que mais me arrepia é a do próprio autor, uáu! a sua interpretação é o máximo, não deixe de escutar. A letra é de uma singeleza só, olha só... é uma das músicas mais lindas que conheço. Soul puro.

quando o inverno chegar
eu quero estar junto a ti
pode o outono voltar
eu quero estar junto a ti
porque
é primavera
te amo
é primavera
te amo
meu amor

trago esta rosa
para lhe dar
trago esta rosa
para lhe dar
trago esta rosa
para lhe dar
meu amor...

Sensível do jeito que tô, fico com lágrimas nos olhos...

26 October 2007

um olhar


Este olhar que cê tá vendo aí é da Emilinha, Poderia ser o meu. Nenhuma foto explica melhor o que estou sentindo neste momento. Pode parecer que tem tristeza, tem também, mas não é só. É um olhar profundo. O meu, além de tristeza e profundidade, tá perplexo. Tão perplexa estou, que não consigo estar inteiramente presente nas coisas que tenho que fazer. Tem um pedaço que tá perplexo e parado olhando um ponto fixo distante, e não vendo nada. Penso. De manhã à noite, penso. Mas penso nesta coisa só, neste nó no meu presente, neste vácuo no meu passado. Pensar pra entender, chegar mais perto do que poderia ser uma compreensão. Mas é difícil compreender alguma coisa com tantos sentimentos antagônicos embaralhando tudo. É difícil compreender alguma coisa quando não se entende nada. Cada dia penso o contrário... e enquanto estiverem voando lembranças palavras corações flechas e fígados num rodamoinho violento perfurando meu cérebro, não posso me mexer, além de pra dentro. Nada decidir numa hora destas.

Mas eu entendo sim. Acho que entendo. Não tudo. Haja coragem pra entender! Entender, virar a página e ir em frente... Emilinha, me ensina please!

15 October 2007

... e tantos mais...


... e tantos mais são as Plásticas Sonoras de Walter Smetak. Poderia ficar o ano inteiro falando disto. Mas vamos ficar por aqui, esperando que a exposição venha para o Rio. Aqui vão mais uns instrumentos. A da foto de cima é o Beija-Flor.
FECUNDAÇÃO CÓSMICA


IMPREVISTO


METÁSTESE


MIMENTO


MIRCUR


PÁSSARO MAMÍFERO


QUEBRA-GALHO


VIOLA DA GAMBA


E ainda:
Namorados Abstratos
Reta na Curva
Piston Cretino
Mulher Faladora, movida pelo vento
Chicote
Violão Eólico
Aranha
Constelação
Peixe
Vau
Vir a Ser
Olho Público

E tem mais... mas como eu disse, vamos ficar por aqui. Como disse Smetak, "falar sobre a música é uma besteira; executá-la, uma loucura". Encerro este post com um poema seu, que está no livro A Simbologia dos Instrumentos. Axé e até!

PLÁSTICAS SONORAS
Sinto estes corpos milenares
com mil pregos furados em tábuas
igual aos cristos nos calvários

coladas as costuras e emendas
tapadas com os dedos nove fendas
para segurar as folhas tremendas

e se decompondo em fragmentos
num buquê de flores e legendas
em ritmos lentos aos quatro ventos

13 October 2007

o Pindorama


Toquei neste muito também, quando participei do Laboratório de Criação Espontânea em 76 no Solar do Unhão. Mas só tem graça se tem mais de 20 pessoas. É uma viagem sonora-sensorial inenarrável!

"De 1973, instrumento musical de sopro e percussão, feito de cabaças, tubos de plásticos, bambu, cano de pvc, madeira e metal, com altura de 2,20 m. Instrumento coletivo, contendo no meio o sextante, instrumento dos navegantes, anterior à bússola. A cabaça central, usada com boré (boré- uma família de instrumentos de sopro de Smetak, feitos de tubos de poliéster, com uma cabaça para a saída do som, e um bocal aberto, que dá bramidos, típicos dos índios, para a chamada da guerra), significa uma projeção em 6 direções, ou seja: norte, sul, leste, oeste, nadir e zênite.

Uma corda, em volta horizontal e vertical, dá a possibilidade do contraste sonoro entre uma série de flautas harmônicas, uma série de chocalhos. O seu aspecto exterior monstruoso, de uma ameba em constante divisão e desdobramento, dá a possibilidade de 60 pessoas se ativarem musicalmente" (do livro de Smetak, A Simbologia dos Instrumentos).

08 October 2007

o Bisnadinha


De 1969, plástica sonora feita de arame, madeira, metal, papel e fio de plástico, com 60 cm de altura.

Este é o mais comovente das criaturas. É o próprio João Ninguém de Noel, o Nowhere Man dos Beatles, e podemos, cada um de nós, nos identificar com este serzinho niilista nos momentos down de nossa vida, em que nos achamos um zero. Contundente, horripilante, expressionista, real e profundo.

Do livro de Smetak, a Simbologia dos Instrumentos, um dos textos mais poéticos, na minha opinião. : "Torna-se realmente difícil escrever uma biografia sobre um serzinho que se tornou o Nadinha, já repetidas vezes. Escapa à nossa percepção, entretanto ele está aqui, entre nós, mexendo os pauzinhos. Valor, sem valor e validade, inconsciente como uma molécula de matéria despejada do imenso forno do universo. Nasceu de uma chama de vela que um amigo colocou em suas mãos frias, como última dádiva para o longo caminho da morte. Junto, uma rosa vermelha, enfeitando a morte. Porque o Bis-Nadinha, durante a sua vida que terminou de repente, sempre foi um sujeito alegre e dotado de certa filosofia. Julgava-se sem liderança, convencido de sua absoluta nulidade, e usava com abundância os perfumes da natureza. Fez o dia de noite, e a noite de dia. Era, e ainda é, um Beatle, se é permitido dizer tal coisa quanto à mais abusada dualidade. E se dá bem nesses termos, como assegura repetidas vezes. Não quer outra vida. Eis a forma magnífica da sua existência. Continua fielmente a ser aquilo que não era (!). Eis a sua tragédia. Sente nas costas o fixo-móvel do espírito invulgar coletivo, mas sem poder dar a moldura de uma personalidade constante e amadurecida. Esforça-se para enquadrar-se na vida. para este fim, suportou dezenas de exames e testes, e traz o selo da borboleta na testa, simbolismo do tradicional laço de seda que a mãe coloca nos cabelos das meninas...

Passaporte para nova vaga da vida.

A sua saudade é profunda, encontrando-se num grande vale vertiginoso. o que está em cima agora está embaixo, e vice-versa, como se a inteligência da percepção das coisas fosse nos pés, e a cabeça andando. Os olhos procuram um caminho neste labirinto de xadrez preto e branco. Mas não o acham. Estão olhando de fora para dentro, e enxergam apenas uma folha verde que ocupa o espaço onde normalmente se escondem os miolos.

Quo Vadis? Para onde eu vou, suspira o ponto de interrogação que sai como fumaça do cigarro, da sua boca sem boca. Eis aqui o seu fantasma. Estará vivo ou morto? Um vivo-morto, um morto-vivo?

Somos nós ele, ou está sendo ele nós?

Bis-Nadinha, um fantasma; em vida, era um grande farrista, morreu muito cedo e está aqui dependendo de duas coisas: vemos, na frente, uma elipse e, atrás, um quadrado, isto é, ele está fazendo um grande esforço para reconhecer seus erros e quer se enquadrar novamente como pessoa viva... Fica na dependência de sua alma... procurando uma nova personalidade.

Mostra, ainda, sua juventude com uma perfeita dentadura. Botou uma rosa no cabelo e lembra um pouco as criaturas de hoje, os cabeludos.

Tem um som tétrico.

Bis acaba de repetir... repetir o nadinha.

Seu sustentáculo é uma cravelha. Tem um lacinho na cabeça, símbolo do infinito, um oito".

SALVE O NOSSO HERÓI!!!!

06 October 2007

o Coloquio


Adoro este também. Estas duas cabeças esculpidas em barro por Smetak são tão expressivas (além de tudo, um escultor!!!!), e quando a gente toca nas cordas, elas tremem, se mexem, dando vida a este diálogo.

Do livro de Smetak, "A Simbologia dos Instrumentos": "Montado em dois vergalhões de ferro que se cruzam, as duas potestades da dualidade milenária, formando a letra X, simbolismo do tempo. Vemos os dois Brasis: aquele que funciona com a explosão da gasolina, do ouro negro, e aquele outro Brasil, encostado como um fac-símile no seu irmão, reservatório "sui generis"de tudo, conhecido e desconhecido em matéria de comparação. O Distrito Federal, meio século mais tarde, denominará este quadrado de terras encravado no estado de Goiás, vizinho de Mato Grosso e do Amazonas, com outro nome : Federação Divina. E toda a riqueza espiritual que este irmão desconhecido possui será derramada sobre o mundo, que se salvará das ruínas.

O colóquio tem 7 cordas, no meio, uma cruz. No meio do X, coloquei um ponto vermelho e dourado, mostrando o fogo sagrado.

O som dele é muito solto, treme".

30 September 2007

a Arvore


Quando conheci o Smetak no curso que ele deu em 76 no MAM RJ, ele havia trazido váríos instrumentos seus, e fez apenas um aqui no Rio: a Árvore, réplica imensa desta pequena da foto, que ficou em Salvador. Quando acabou o curso, ele me deu o instrumento, que aliás, está perdeu sua cabaça (60 a 70 cm de diâmetro), comida pelas traças, e estou procurando outra pelo Brasil todo, mas até agora, não encontrei ainda deste tamanhão (quem souber, me avise). Adoro este instrumento, Pode-se tocá-lo percutindo, ou friccionando suas cordas, que são de piano. A base do meu é um chanco enorme de um tronco de uma árvore, é tão pesado, que precisa de 6 pessoas pra carregar, mesmo assim é difícil, porque não tem lugar pra segurar direito por causa dos ferros.

Mas vamos ao livro "Simbologia dos Instrumentos", de Smetak: "Na beirinha, esta árvore foi pintada de amarelo, cor da intuição. Verde: cor do mental concreto. Embaixo, o tronco de madeira é verde, com a cavação vermelha.

Este instrumento leva a nossa subordinação pessoal para leis superiores à nossa percepção da razão. Introduz o conceito de Caos, mas num sentido de ordem superior, fazendo a ligação imediata e imprevista, porém benéfica e justa.

Na África, os indígenas têm um sistema de instrumentos naturais para transmitir suas mensagens de uma aldeia para aldeia, no qual é usado um funil. Cavam um buraco dentro da terra, e colocam uma corda que atravessa no ar eeste funil; põem a corda em vibração e, tocando esta corda, o som é levado para grandes distâncias. Trata-se de um código que alguém lê, ouve e transmite, uma espécie de telégrafo.

Ao sentarmos embaixo de uma árvore, podemos ficar inspirados, podemos perceber e sentir coisas muito ricas da natureza, a geometrização da forma da árvore...

(...)Mas, por que me contam isso, perguntará o leitor? Direi: por ser aquilo que chamam de música, muito simples, simples demais, porque quase incompreensível para nós. Vem do reino das fadas e das lendas, que para alguns é a realidade. Tudo tem vida, tudo toma parte como uma gota no grande oceano da Vida-Una. Tudo é respeitado, da folha caída de uma árvore até a pedrinha no riacho; há tantas que não se vê uma solitária, separada das outras. Nada é mais, nada é absolutamente maior ou menor- mas o homem tem a maior possibilidade de todos os seres vivos, ele é o ser regente. Ele até tem o dever de falar com os aparentemente menores, insignificantes, para lhes ensinar, ensinando sempre. A natureza, manifestada ou não, em volta, está angustiosa para saber; ela também quer evoluir, libertar-se, para continuar a sua evolução infinita. Se um instrumento for composto de partículas de todos os reinos da natureza, o homem, consciente de tudo isso, se faz de Guru, mestre e regente. Ele se identifica com todos os seres, digo, com todos esses irmãos menores que se acham quase como perdidos. Ele se une a todos.

E num "raga" incompreensível, ele conta a história de milênios, milésios ou "mil-asianas". Daí vem a magia, porque houve homens conhecedores das forças da natureza para manobrá-las. Ele, o homem, nos cantou a terra, esta terra maravilhosa, a bola dos deuses, viajando há eternidades no éter azul. Ele representou o microcosmo dentro de um "raga"com toda a natureza em volta. O estado de consciência no qual se encontrava, o oriental o chamava de "Avatara" (ave-asas, tara-transpassar). Avatarizando-se nos reinos inferiores, e mais ainda, nos reinos superiores. Chamamos isso de inspiração, mas não sabemos de onde vem, e poucos sabem para onde vai... O instrumento torna-se um grande cetro; e ele era um Rei... e agora um mendigo.

Compreendemos agora a citação do poeta Maiakowski: "Hoje tocarei flauta na minha própria coluna vertebral". Este autor moderno parece a reminiscência de um velho mago tibetano, tocando uma escala musical num fêmur humano, acompanhando o seu próprio corpo defunto para a cova, porque ninguém quis assistí-lo ou também porque não precisava de ninguém. Maiakowski= Maya cova= túmulo da ilusão. Aquele que venceu a mnorte... ou pela segunda veza nascido e flautando sempre..."

21 September 2007

a Ronda


Esta também é uma das minhas preferidas. Ela tem um som maravilhoso, e me lembro de Smetak me dizendo: "se você roda a manivela devagar, e tange as cordas com o arco, aí está o rítmo. Se gira um pouco mais rápido, a melodia. E muuuuito rápido então, é a harmonia". Ou seja, rítmo melodia e harmonia só diferem pela velocidade. Muito doido.

De 1969, a RONDA é um instrumento friccionado e pizzicato, de madeira, metal, cabaça e ferro, de 96 cm de altura.

Do livro de Walter Smetak, A Simbologia dos Instrumentos: "Instrumento cinético que me deu muitas conclusões pela sua materialização. Quando ficou pronto, fiquei sabendo de coisas que antes não sabia. Vemos aqui mais ou menos a forma da ampulheta do tempo. Se isto já está ligado ao tempo, também deve estar ligado ao movimento e ao espaço, pois existe esta fórmula matemática que a ciência associou tantas vezes: movimento-tempo-espaço.

Este instrumento se dedica à duração do som, isto é muito importante. Tem 22 cordas estendidas em volta, às vezes falta uma corda, todas não são regulares, é como uma boca onde faltam dentes.

Duas cabaças encaixadas uma na outra, muito primitivo. Tem duas rodas de madeira, com pregos, onde a corda fica estendida, e duas cravelhas.

É afinada como quiser. Pode ser tocada com arco e pizzicato.

Um carrossel emitindo sons. Sendo que a escala é composta de uma sequência das séries harmônicas, este instrumento traz uma nova experiência.

No giro lento isso dá um ritmo. Tem intervalação. Numa velocidade maior, o instrumento não deixa perceber os intervalos, formando uma linha melódica. Numa velocidade maior ainda, ouiremos só harmonias, porque o giro é tão rápido que ouvimos muitas cordas em uma só vez.

Concluímos, então, que o ritmo, a melodia e a harmonia dependem da velocidade de giro. São tres coisas em uma só, que dependem da velocidade.

É preciso dar tempo ao tempo, diz o adágio popular...

Está na nossa frente a ampulheta, o relógio do tempo, no qual o mesmo se esgota. Areias de desertos, areias sem fim, mares de areias.

Dizem os árabes: Os homens temem o tempo, mas as pirâmides e a esfinge sustentam o tempo...

O que vale neste instrumento é o silêncio que segue o turbilhão de sons, o profundo silêncio no qual a nota, a vibração, se encontra com si própria. A união de todos no Todo.

Existe uma analogia entre este instrumento e o "Imprevisto", embora pertença aos instrumentos de percussão. A diversidade dos sons forma, no seu conjunto de ecos, uma unidade. isto é, em vários instrumentos desta natureza, constitui um ritual de digno e específico poder de criação. Seu simpolismo é evidente. Identificamos, com clareza, o número 8, o eterno vir a ser, na complexidade de seruu mistério. Reconhecemos a forma do violino, ou alguma composição primordial, que poderia ter dado forma ao violino, cujo nome lembra, filologicamente, a Vina.

Vemos, assim, m oito, símbolo do som e do infinito, girando num eixo, como se fosse uma vitgrola, palavra esta deivada de uma outra -vitriol..."

a Maquina do Silencio


Esta me lembra das invenções de Leonardo da Vinci. Plástica sonora de Walter Smetak, instrumento manual, mecânico e elétrico, feito de madeira, metal, cabaça, isopor, fio e fibra, altura: 1,71 m, 1971.

"Máquina do Silêncio: um absurdo, por que não? O silêncio, considerado ausência do som, não é sempre aplicável, referindo-se a situações interiores de estados psíquicos. Movimentos mecânicos ilustram diversos atritos eletronicamente amplificados, como podem ser ouvidos interiormente os elétrons em volta do núcleo: o átomo permanente. Em cima, uma roda friccionando uma faixa de cordas em diversas afinações no meio do cilindro" (do livro A Simbologia dos Instrumentos, de Walter Smetak).

o Sao Jorge Tibetano



Plástica Sonora de Walter Smetak, feita de cabvaça, metal, madeira, disco vinil, franja de tecido, altura: 55 cm, 1969.

"Para melhor entendimento pelo público ocidental, foi criado este Ser, mais conhecido pelo nome de São Jorge; em verdade, o Cavaleiro das Idades, venerado no Tibete como "Ak-Dorge"e "Buda Maytréa". Ele tem por função destruir o mal, para triunfar o bem, e fazer desaparecer o "não"categórico, para a glória do sim, destruindo as velhas dualidades"(do livro A Simbologia dos Instrumentos, de Walter Smetak).

o Guerreiro


O GUERREIRO, plástica sonora de Walter Smetak, de cabaça, metaql, madeira, côco, cano de plástico, fio de plástico, altura: 1,15m, 1969.

"É o músico guerreiro, disposto a tocar ou matar. Tem a alegoria da flecha apontando o céu, uma flecha jogada assim no infinito. Aquela flecha podia ser solta se aquilo que está embaixo estivesse igual àquilo que está em cima. Ou seja, o perfeito equilíbrio entre o subjetivo e o objetivo: seria quase o fim da evolução" (do livro A Simbologia dos Instrumentos, de Walter Smetak).

o M-2005


Plástica Sonora de Walter Smetak, o M-2005 é um instrumento musical de corda percutida, feita de cabaça, metal, madeira, isopor e plástico, de altura 2,25 m, 1969.

Do livro "Simbologia dos Instrumentos", de Smetak: "O percussionista é a oposição do regente, sendo o seu inverso; serve-se do bloco de gelo como se este fosse o instrumento de percussão e, ao mesmo tempo, de um prato pendurado no tronco da árvore.

Em contradição com esta atmosfera glacial, fica o leque. Ele sente apenas chegar o calor e sente-se literalmente quente. Abanando-se, ajuda o degelo do bloco, e não percebe mais, distante como ele é, verdadeiros fatos, o sopro do regente de cima, que anima a todos.

A linguagem desta escultura é universal e dever ser entendida nos próximos tempos. Só assim o público entenderá os acontecimentos que virão. O isopor expressa formas congeladas.

O instrumento de frente indica que a flecha está sendo atirada para o abstrato.

Deste instrumento sai um som reproduzindo a sílaba sagrada OM".

o Anjo Soprador


Plástica Sonora de Walter Smetak, o ANJO SOPRADOR é um instrumento musical de sopro, feito de cabaça, metal, madeira e plástico, de 55 cm de altura, 1969 (ver post SMETAK IMPREVISTO de primeiro de setembro).

Adoro suas orelhas estridentes: dois agogôs que são do formato dos símbolos crescendo (<) e decrescendo (>) das partituras, da matemática, uma tremenda sacação da parte do autor. O movimento dos braços é perfeito e sua cara de traços simples, tocando compenetrada, é muito expressiva.

Do livro "Simbologia dos Instrumentos", de Smetak: "O Anjo Soprador tem duas cabaças, uma em cima, crânio e, embaixo da máscara, outra cabaça que é reflexo, como se estivesse refletindo numa lagoa. A flecha que atravessa o crânio é um crescendo.. ou descrescendo, o som vai e vem, como se quisesse mostrar o ser que se vê como reflexo de si próprio".

17 September 2007

o Amem


Plástica Sonora intitulada AMÉM, de Walter Smetak, exposição SMETAK IMPREVISTO (ver post do dia primeiro de setembro). Feito de madeira, metal, cabaça e cordão, altura 74 cms, 1969.
Esta foto é mágica! Este raio de luz conectando-se com o Amém ficou incrível, e foi por acaso (fui eu que tirei a foto). Parece Deus. Deixa eu explicar: quando eu era pequena, a "foto" de Deus era um raio de luz pra mim. Em qualquer livro em que eu via esse raio de luz, na maioria das vezes vindo por entre as nuvens no céu, era a imagem de Deus. Agora Ele aparece aqui. E logo no Amém!!!!

Abro o livro de Smetak "A Simbologia dos Instrumentos": "Amém, isto é, seja feito. No Amém, podemos ouvir o sonido transcendental da palavra sagrada OM, o AUM. A palavra sagrada é uma vibração síntese que fecunda as mentes.

Aqui, no extremo Ocidente, a palavra tem o nome de Amém. Ouvireis e vereis com ouvidos e olhos fechados. Ela aparecerá em letras de outro num fundo de púrpura, e será sempre inesquecível. Aquilo será, daí por diante, a vossa grande felicidade. Porém essa felicidade só pode nascer de um profundo silêncio no qual tudo se faz de nada. Como sabeis, o Nada é o Absoluto. Daí por diante, nascereis pela segunda vez. Vindo do espírito, andareis o caminho da iniciação. A morte se dsvanece. Sabeis que tendes existido, e que sempre existireis. Compreendereis então o significado de Shamballah, ilha imperceptível de Som e Luz, da qual deriva a doutrina secreta do budismo: Olho e Coração, Saber e Amor, fazendo jus ao equilíbrio entre as dualidades".

13 September 2007

os Choris


Foto tirada na exposição SMETAK IMPREVISTO, ver post homônimo do dia primeiro de setembro.

Os Chorís são uma família de instrumentos semelhantes na aparência, mas diferentes no som e na simbologia. Esta foto não ficou boa, tá tudo meio tremido, mas coloquei pra dar uma idéia de como estão bonitos assim na exposição Smetak Imprevisto, penduradinhos na parede e com esta iluminação mística e solene. Na frente dos Chorís está o instrumento Baixo Mono, que consiste em uma "tábua comprida, com uma corda de piano, de registro grave. A tábua repousa sobre dois tubos de isopor, perfazendo a função de caixas acústicas. Produz um som relativamente muito longo. Com vários instrumentos deste sistema, podem ser produzidos efeitos extraordinários". E continuemos no livro de Smetak A Simbologia dos Instrumentos:

"Os Chorís existiram primeiro com a cabaça inferior, havia só uma casca de côco, uma cabaça e um pau de vassoura (O Mundo). Eu assumi, assim, a visão do nosso globo terrestre como se este fosse um ôvo, reproduzido no reino vegetal como cabaça, com uma forma ovóide. Então a primeira percepção que temos é a de que tudo isto está dentro de um campo de vibração. Mais tarde coloquei a cabaça de cima como concha acústica superior.

Quanto ao nome Chorí, nem chora, nem ri. Ele é equilibrado. Tem um som pequeno, mas muito rico de séries harmônicas, que repercutem lá em cima da cabaça. Sai às vezes um soluço maravilhoso. Tem pequenos fenômenos sonoros que outros instrumentos não possuem. É um instrumento colocado dentro de uma concha acústica (mesmo processo que nos teatros gregos), neste caso, um côco dentro de uma cabaça (o peixe entrou no aquário e salvou-se). O côco. vindo do alto, parece repousar no colo da terra, um contando ao outro a sua história.

É bom lembrar aqui o conceito milenar hindu: Fohat e Kundalini, inteligência e força criadora. Ou também outro signo já mencionado: Yin e Yang".

Abaixo tem uma foto tirada do livro, que dá uma idéia melhor dos Chorís. Da esquerda para a direita: Chorí Baixo, Chorí Microtonizado, Chorí Pagode, Chorí Sol e Lua, Chorí viola, Chorí Violino, Chorí Violoncelo, Chorí com Caixa de Ressonância. Feitos em 1968.

E agora, às descrições no livro:

Chorí com Caixa de Ressonância- feita de uma cabaça cortada pela metade, e servindo de concha acústica para a metade de um côco com tampa de pinho. As paredes de fora funcionam para segurar o instrumento nos joelhos.

Chorí Pagode- foi aplicada aqui uma caixa acústica superior, de cabaça. A espiral do som se realizou e se tornou um fator acústico, demonstrando a diferença entre a visão do oriente para o ocidente, a vertical para a horizontal. Possui um registro que permite dois sons diferentes. A diferença entre essas duas sonoridades é feita com um pedacinho de madeira- também chamado de "alma"- que liga e desliga a tampa do fundo, estabelecendo um campo fixo na tampa, embaixo do cavalete. Coloquei uma porção de cabaças, uma em cima da outra, lembrando assim os templos indianos. O Chorí Pagode é afinado em quintas.

Chorí Microtonizado- diferencia-se dos outros chorís pela ausência da cabaça superior, e foi construído sem o registro.

Chorí Sol e Lua- (Gêmeos, astrologicamente). Instrumento com duas caixas acústicas remetendo-nos à história remota da humanidade dos andróginos e, assim, à cosmogênese e antropogênese, ou seja, à divisão da humanidade em macho e fêmea, divisão dos sexos, Adão e Eva. O instrumento é de caráter estereofônico, riquíssimo em reprodução de harmônicos. As leis inerentes a este instrumento foram usadas na arquitetura das naves de catedrais, resultando-se a grande acústica do barroco. Duas cabaças, uma embaixo e outra em cima, Sol e Lua. Mas diferente da Vina que não conhecia ainda. A segunda cabaça é colocada no lugar da voluta que simboliza, geometrizada, a curva do som. Mas deixou de ter uma função sonora, é apenas ornamental e estética. E isso não é pouco, mas poucos o sabem. Este instrumento assemelha-se muito à Vina e, mais tarde, farei um instrumento para ser tocado a pizzicato, colocado nos joelhos como uma cítara, com bordões, mas o braço oco, e colocando neste mais uma cabaça, para o som circular lá dentro, vindo de baixo e dando a volta para cima, para novamente descer e subir no seu itinerário. Simbolicamente, é o signo da balança. Nesse Chorí procurei levar o som até o cavalete; isto foi mais ou menos conseguido e o som deste instrumento é muito bonito, tem uma continuação quase inaudível. O efeito é de grande suavidade. É a lua indo atrás do sol, sem nunca alcançá-lo... Possui cinco cordas e tem a mesma afinação que a "Viola Pomposa", criada por Bach. Este instrumento é muito flexível e não segura bem a afinação, balança muito. Isso justamente da um certo charme ao som.

Quarteto- é o conjunto dos Chorís Baixo, Violino, Violoncelo e Viola. É também feito com cabaças, devido à sua importância como conchas acústicas. O corpor de ressonância é feito da metade de um côco. Os braços, de cabo de vassoura. O Baixo se distigue dos demais instrumentos por se tocado em cima de uma caixa de isopor. A reprodução dos graves é excelente em relação ao pequeno corpo da caixa. Estes quatro instrumentos são a prova de que com poucos recursos podem ser feitos instrumentos baratos, de fácil manuseio. Se alguém quiser construir futuramente um instrumento com cabaças, que plante as sementes e não as jogue fora, que coloque as sementes na terra. As cordas do Quarteto são de violão, os arcos de bambú, e as crinas, de sisal. A sua afinação é em quartas e quintas.

07 September 2007

a Vina

A VINA DE FRENTE


A VINA DE COSTAS


Esta é a minha preferida, não só por sua beleza extraordinária, mas pelo que ela significa. Sublime, de frente e de costas (aliás, foi feita para ser tocada de costas para o público). Forte, imponente, profunda, impressionante. Feita de cabaças, metal, madeira, mangueira de plástico, cordão de nylon e ferro, no ano de 1969. Altura: 1.45 m, é um instrumento musical friccionado e percutido.

Selecionei uns trechos do livro de Smetak "A Simbologia dos Instrumentos", em que ele fala sobre ela. Tentei pegar mais os que falavam sobre o instrumento propriamente dito, mas foi difícil porque a doutrina (Eubiose), Smetak e os instrumentos são uma coisa só. Aqui estão:

"E renasce das plagas do extremo ocidente, no Brasil, em Salvador, a Vina Itaparicana, este misterioso instrumento milentar, no qual se acham ocultos todos os instrumentos de cordas, inclusive, pelo seu timbre, o cravo. Abre uma nova perspetiva: a escultura sonora.

Esta Vina levou nove meses para ser concluída. Depois de terminada, o autor se viu numa situação estranha: contemplar o passado e, ao mesmo tempo, o futuro da humanidade e da divindade (........) O material utilizado foi cabaças-cabeças. Quanta coisa podemos fazer com cabaças, elas servem para tantas coisas: cuias, pedir esmola, construir instrumentos. O miolo contém sementes. Então a cabaça está oculta na semente, e a inteligência está oculta, escondida, na cabeça. Spes Messis in Semine (a esperança está na semente). Lancemos uma semente e observemos, igual ao alquimista, a sua transformação em ouro mercúrio. Plantemos enfim uma árvore (.....) Temos, nas extremidades de um tubo, o braço, princípio que perdura em todos os instrumentos móveis de cordas que se dividem em duas partes: braço com cabeça (voluta), metido numa caixa de ressonância, macho e fêmea unidos para a realização de uma terceira coisa: o Verbo- o Som. Nas duas extremidades acham-se duas cabaças. Uma menor, embaixo, e uma maior, em cima, abrindo um impulso gótico de baixo para cima, ou seja, dos pés para o crânio da mente universal, e do objetivo para o subjetivo, ou vice-versa, seja então, do absoluto para o concreto (.....)

Esta Vina dever ser tocada de costas para o público, com o intuito, simbolicamente falando, da busca de fora para dentro. Mas com gesto. As antenas estão dirigidas para o fim subjetivo, e não para o objetivo. O recitante assimila o magnetismo dos presentes, para ultrapassar os limites (.....)

A cabaça simboliza a mente universal (....), e a boca é o ouvido ao mesmo tempo. Tem a sua abertura em sentido contrário, em direção ao público. O som vem de duas direções, produzido na terceira cabaça inferior. Uma parte do som circula e sobe pelo tubo e passa pela boca da segunda cabaça, a qual fica encaixada no tubo. Este funciona como ressoador. As ondas passam pela boca da segunda cabaça, o Vishnu. Lá ressoa um metabolismo, sobre pelo crânio, para enfim se espalhar pela abertura da boca da primeira cabaça. (....)

Não há nada morto no universo. Tudo é vida e vibração. Morte é apenas a transfiguração de formas velhas, que não se atualizam mais numa concepção de idéias superiores.

Este saber intelectual causará no leitor um estado de prefelicidade. Refere-se ao futuro. Ele tomará conhecimento dos acontecimentos atuais com naturalidade e sem paixão. Sem fanatismo, sentidno e sabendo que estes acontecimentos são apenas transitórios para os outros, mais decisivos ainda. Ele também é transformador, sublimador, percebe a Metástese universal, a União Total num único estado de consciência em que não há mais diálogo, mas sim monólogo. Uníssono. Chegará o grande dia: Sede Conosco. Não é esta a vida que nós vivemos, é uma outra. Esse processo entra no labor da improvisação.

Assim, esta Vina é um ser vivo. As suas cabeças são cabaças do reino vegetal da natureza. Seu miolo é constituído de sementes. Eis a grande revelação da natureza. A árvore está oculta na semente. Se a semente for má, a árvores também o será. Se a semente for boa... os frutos serão bons. O destino está nas vossas mãos. As artes são o exemplo dos vossos pensamentos, libertarão ou escravizarão (Confúcio).

Uma corda atravessa o interior do tubo, que é o braço do instrumento. Esta corda de aço liga a cabaça superior à inferior, terminando em espiral. A serpente Kundalini em plena função, despertada, impulsionando a glândula pineal. O interior da cabeça-cabaça é dourado, acentuando este mister. Esta corda vibra constantemente, porque é sujeita a todas as ondas sonoras simpáticas das outras cordas. A espiral corresponde interiormente.

O braço, exteriormente, leva mais cordas, digamos, bordões. São os chamados recursos naturais. Estes podem ser afinados "ad libitum"; são os estáticos, 30 notas estáticas, invariáveis, causais e fixas. Variáveis, apenas, são as relações e o ritmo dos acontecimentos; a mudança dos tempos, dos ciclos, das idades; o relógio do tempo, o espaço continuando a marcar o tempo.

De fato, estas cordas representam um conjunto separado, foram e ainda são cordas simpáticas. Mas agora, também bordões, sinos e harpas. São, na face da terra, uma vez os jovens, os eternos adolescentes, e a velhice ao mesmo tempo. Juventude que se anuncia pedindo os seus direitos. Juventude que anuncia uma nova tônica, exclama novas idéias coletivas. Ao seu lado, a velhice, cheia de sabedoria, cingida de uma coroa de espinhos, talvez os anéis de saturno, simbolismo que o Cristo teve de suportar. E mais afastado, Urano, o avô do Universo.

Seguem as três cordas vocais montadas em cima do braço sonoro, mutáveis, dedilhadas. As cordas tocadas pelo arco expressam uma relação do homem para com o instrumento.
E onde se dá a variação das formas e imagens psíquicas (.....)

Duas campaínhas, tocadas com anel de ferro, dentro de um espaço triangular, comunicam-se com o plano astral, junto com uma nota grave, som de gongo chinês; constam nesta antologia, fazendo a ponte de continuação para a escala dos sons inaudíveis ao homem, mas existindo mentalmente; as séries harmônicas eternamente circulantes. Transmigração da idéia, o eterno vir a ser, o servir, a encarnação dos seres e do Verbo pelas religiões.

Justificando a tese de que tudo é vida e vibração, a Vina é dotada de um sistema de vibrafone elétrico, dinamizado por uma resistência e um tubo com bocal, impulsionado pelo sopro, caso as mãos estivessem ocupadas a manejar a resistência. O instrumento é tocado a arco, pizzicato e sopro.

É evidente que o executante deve ser uma pessoa de grande cultura, de saber universal e integral, e de uma inteligência vivente. Só assim ele se identificará com a simbologia da Vina. Esta deve devolver ao homem a improvisação. O instrumento é templário, é um Templo em miniatura, e expressa uma Doutrina. Não traz consigo apenas o método de escalas, arpejos, e exercícios. A improvisação é um reflexo da existência. Esta se expressa no monólogo, na voz do silêncio (........)

A construção da Vina não é totalmente fixa. A tampa da caixa de ressonância encosta sobre feltros em cima da cabaça, permitindo, assim, maior flutuação de vibração e atuação sobre o som, libertando-o. O interior não é mais tão separado do exterior, como nos instrumentos tradicionais, ele respira. O cavalete toma forma humana, ganha dois braços, os quais seguram uma matraca comprida e variável, feita de madeira. Esta matraca, que serve de registro, produz um efeito sobre a gravidade e, em consequência, sobre o som, lembrando o Saci-Pererê que se balança na matraca.

É possível colocar a cabaça de cima em várias posições, para tomar diversas expressões na plástica sonora. Resulta daí uma estética que se expressa em diversos aspectos e torna-se menos dura, menos estática, adaptando-se a múltiplas finalidades (.....)

E aqui temina a história da Divina Vina, dedicada a um templo. Plástica-Templo sonoro. O Templo Monumento está erguido em Mar Grande, na Ilha de Itaparica, no cume de uma colina, de onde se descortina um panorama de extraordinária beleza natural. Lá se encontra um grande mistério desde os tempos de Cabral: Crivatsa-Laurenta-São Germano. Para lá se dirija o leitor amigo, que saberá e sentirá, então, mais do que pode ser anunciado. Este trabalho apresenta apenas uma das aplicações de uma doutrina, cuja tese, antítese e síntese seriam: o concreto, o abstrato e o absoluto. Os três planos da existência. Ou um nos três. Os três no Um. E muito mais que não pode ser dito aqui..."

o Bicho


A primeira Plástica Sonora de Smetak que vou editar aqui é o Bicho. Não é a mais bonita, nem a que tem o som mais incrível, mas é a que mais me comove por ser a que ele fez logo depois de me conhecer, e dedicou a mim. Isto foi em em abril de 76, quando participei de seu Curso de Criação Espontânea no MAM RJ. No final da primeira aula ele pediu pra eu cantar, fiz umas coisas que ele gostou muito, e logo ali começou a nossa ligação. De noite estreava sua peça A Caverna, e me chamou pra participar. Depois que ele voltou a Salvador, continuamos a nos corresponder fervorosamente, e em julho ele me chamou pra lá me apresentar com ele no Festival de Arte da BA. Quando cheguei, lá estava o Bicho na minha frente.

Este instrumento é eletrônico, tem captadores por todos os lados, que ampliam ruídos mecânicos e atritos. Imprevisível, requer muita virtuosidade do tocador. Tem 2 metros de altura, e várias partes que emitem ruído: a folha de flandres que se mexe parecendo tempestade, a mola que pode ser percutida com uma baqueta com movimentos rápidos ou contínuos como um recoreco eletrônico, as hastes de metal na lateral que se mexem fazendo sons de bambús metálicos irregulares e incontroláveis, uma caixinha de Pastilha Valda, que apertada lembra o som de formigas mastigando, a espiral da vida que roda produzindo também som, pratinhos metálicos, a corrente que forma o "rabo" do bicho que também é sonoro, e pode-se também usar o arco do violino, copo de vidro pra friccionar em várias partes. Enfim, uma verdadeira viagem!!!!!

E por que o nome Bicho? porque Smetak dizia que dentro da minha garganta existia um reino de animais selvagens, mitológicos, fantásticos, híbridos, bêbados, intergalácticos que precisavam ser soltos pra povoar a Terra.

Esta foto tremida dá uma idéia de como estava o meu coração: fremente, palpitante, estremescente.

01 September 2007

SMETAK IMPREVISTO


Por onde mesmo que eu descia do Campo Grande pro Unhão em 76? ni idea... Fui andando por aquelas ruas pra ver se minha memória desse um click e pudesse de repente lembrar. Todas eram familiares, poderia ser nessa, ou naquela... Largo dos Aflitos.... mmmm.... Rua Carlos Gomes... mmmm.... todo suenabame. Este viaduto..... mmmm..... o "saara"da Av. Sete.... mmmm... nesta busca labiríntica acabei chegando lá, por um caminho mais complicado, mais longo, mas cheguei. To descendo a rampa do Unhão (MAM), quando ouço uma voz me chamar, e não era vinda do além, como tudo até então parecia ser: era real, era carne e osso, era a Jasmin, a produtora do evento, que eu só conhecia por email (numa inspirada madrugada ela conseguiu me achar na rede -que maravilha que é a internet- fui encontrada mesmo tendo mudado de nome!) e logo me contactou para falar da exposição, dar depoimento etc etc.... e fomos percorrendo tudo por ali, ainda faltava muita coisa, operários pintando o lado de fora da capela, outros fixando as cabaças e as cordas no tótem SMETAK IMPREVISTO no jardim, placas sendo afixadas... perfumaria, como ela disse... Entramos na casa grande e minha boca abriu para não mais fechar: as Plásticas Sonoras estavam lindíssimas, super-conservadas, aliás mais do que quando eu tocava nelas nos anos 70... Que sensação rever estes instrumentos, era como se eu estivesse reencontrando pedaços de mim que tinham ficado pregados ali neles. Conhecia cada um tão bem... tocado em cada um tanto... lembranças de situações, cheiros, a voz dele, sua mão grande e áspera, a temperatura do ar, a fumaça de seu cigarro-seda com tabaco Trevo apertado, cola, ferrugem, pó de cupim ...

Tudo a ver a exposição ser no Solar do Unhão, que é um conjunto arquitetônico tombado pelo IPHAN, e restaurado pela Lina Bo Bardi em 69. No século XVII era um engenho de açúcar à beira-mar, do mesmo tipo dos engenhos encontrados na zona da mata (casa grande, capela, senzala).



A casa grande abriga hoje o Museu de Arte Moderna da Bahia, e a capela de Nossa Senhora da Conceição faz parte do conjunto. A OBRA -as Plásticas Sonoras de Smetak- está exposta na casa grande (casamento perfeito com aquele interior moderno, escada de madeira em espiral, divisórias curvas, iluminação indireta suave focando cada instrumento)












e na capela está O HOMEM: cabaças-vídeos (senta-se, coloca-se um fone, a cabaça no colo, e assiste-se os vídeos de filmes e depoimentos sobre Smetak)






objetos pessoais, fotos e filmezinhos caseiros projetados, e o mais impressionante de tudo: bem no meio ao fundo, a réplica de O OVO, um estúdio de acústica perfeita que ele projetou (originalmente seria de 22 m de altura, este tinha só 5).

Fiquei muito emocionada, lágrimas nos olhos quando vi aquele Ovo na minha frente: quantas vezes ele tinha me falado deste projeto, sem nenhuma esperança de vê-lo realizado e agora, lá estava o seu sonho materializado na minha frente. Era que nem ver um OVNI!!! Como ele ficaria feliz, se pudesse ter vivido pra ver... Entrei no Ovo com a Jasmin e Milton e cantei. O som saía tão puro, tão amplificado, tão corpulento, e num determinado ponto ouvia-se toda uma gama de harmônicos, como se tivesse mais do que uma voz num uníssino perfeito. Foi uma experiência inesquecível. Depois a TV Bahia me filmou fazendo uma improvisação de noite.

Ficamos lá até de tarde, saí pra comer, me refazer pra inauguração às 19:30.

Quanta gente, acho que havia umas 3 mil pessoas... reencontrei os filhos Uibitú e Honorato, com suas famílias. Uibitú tinha 5 anos, me lembro dele sentado no meu colo. Agora quem sentava era a Amanda, também de 5 anos, a sua filha com a Olga (restauradora dos instrumentos e artista plástica incrível que faz bonecos manipulados de todos os tamanhos esculpidos em madeira). Teve uma apresentação em frente ao Ovo do Uibitú- violino- e seu conjunto de cordas: Smetak, Bach e Vivaldi. Conversei muito com o Honorato, que me pos a par de como estavam as coisas depois destes anos todos, e conheci seus filhos Ícaro -violino-e Érica -flauta. E ficamos todos de nos encontrar durante a semana, o que de fato aconteceu, com muita alegria e carinho.

Quando na alta madrugada voltei ao hotel, não senti insônia. Larguei o corpo exausto na cama, a mente parou de pensar, o coração parou de sentir, o fígado tratou de filtrar a somatização do emocional. Não sonhei, porque sonho era o que eu estava vivendo. Apaguei.

Final do segundo relato. Na próxima, virão elas. As Plásticas Sonoras.

30 August 2007

de onibus para Salvador


Começo aqui o relato da minha viagem pra Salvador para a Super-Exposição de meu querido Walter Smetak, relato este que vai abranger várias postagens.

Não só por causa do caos aéreo que tem se instalado no país, apagões, controladores de vôo, falta de atritos na pista etc etc (quem não tinha medo, passou a ter, e quem ja tinha medo.... viaja de ônibus!!!!), mas também porque a viagem por terra, lenta, prepara nossa mente e o nosso espírito para chegar junto. Precisava me preparar. Havia 29 anos que não ia a Salvador, perdi o contato com as pessoas que conhecia, muitos já não moram mais lá, os que estão na produção do evento conhecia só por email, e os filhos de Smetak eram crianças quando os visitei. 29 anos de hiato. Tudo muda em 29 anos. Mas o mais estranho: o meu Smetakinho não estará mais lá pra me receber...

No passado fui dezenas de vezes. Lembranças maravilhosas. Descobertas. Aventuras. Histórias loucas. Arembepe. Trio elétrico. Acampar no Jardim de Alá e em Piatã. E depois então que conheci Smetak, virou a minha cidade, me fiz soteropolitana, ia pra trabalhar com ele e acabava morando lá por meses e meses. Sem querer voltar. Foi por essas e outras que resolvi ir de ônibus pra Salvador. Pro meu espírito chegar junto.

Ora, quantas vezes no passado fiz esta mesma viagem... às vezes de carona até... às vezes em carros pequenos e cheios... por que não agora? Bem, minha primeira decepção foi constatar que não há mais ônibus-leito pra lá, mas só semi. Ah, tudo bem! pensei... só 27 horas: a gente embarca de manhã, dorme, e no dia seguinte está lá!!! Engraçado que esqueci de um pequeno detalhe: naquela época eu tinha 25, 30 anos, e agora tenho 60. Preparei toda animada o meu farnel de banana-passa, barrinhas de cereais, castanhas de cajú, frutas (nunca sabemos o que vamos encontrar nas paradas), umas roupas quentes pra noite, e- vamos lá!!! Minha segunda decepção foi chegar na rodoviária e ver que verdadeiras mudanças de muitas famílias estavam sendo enfiadas no bagageiro do ônibus, filas enormes com TVs, armários de roupas e otras cositas más... pesando, etiquetando... Claro que o ônibus saiu com um atraso de hora e meia... Mas a viagem foi agradável, as paisagens rolando soltas na janela. Como o Brasil é lindo, formações rochosas incríveis em cordilheiras, a vegetação -às vezes um pouco desmatado, mas outros lugares lindos (é muuuuuuito chão, gente!!). Até que escureceu. Distrair-se olhando pela janela já não dava. Ler os livros. Palavras cruzadas. Conversar com o Milton, que foi comigo. Várias horas depois, nada disso tinha mais graça. Paramos pra jantar em Governador Valadares.
Depois, só restava dormir. Tomei um frontal pra baixar o giro, e fiquei meio cochilante, mas com as curvas em velocidade que fazia o motorista, me jogando pra cá, me jogando pra lá, dormir mesmo nem pensar... Foi então que no comêço da madrugada um cheiro nauseabundo foi invadindo lentamente o ar que respirávamos. Cada vez mais nauseabundante. As janelas não abriam, havia um semi-ar-condicionado. Estávamos no meio do ônibus, mas o cheiro do banheiro, mesmo com a porta fechada, estava de matar. Nem cheguei a pisar os pés neste "aposento" durante a viagem toda. Deu pra esperar pelas paradas, que eram mais ou menos de 3 em 3 horas, dava pra aguentar... Mas a filosofia da grande maioria não era esta, cheguei a ver gente indo ao banheiro do ônibus com o ônibus parado!!!!! Ai, tava demais. Até que às 6 da manhã, em Vitória da Conquista (Bahia!!!! estamos na Bahia!!!!) entrou um funcionário pra limpar o recinto. De nada adiantou, ficou uma mistura do cheiro nauseabundo com desinfetante...

Ainda paramos pra almoçar em Jequié, sempre um inocente arroz branco, legumes cozidos... Garoava, estava lindo lá fora. Quando já era hora de chegar, o relógio acusando as 27 horas regulamentares para o fim da viagem, vi que ainda faltava muuuuito, nem tínhamos passado ainda por Feira de Santana, que fica a 2 horas de Salvador. Naquela cidade parou-se por um tempo enoooooorme. As mudanças saindo. Procura mala daqui, depois lá atrás, depois de novo lá na frente. Vimos nossas malas na plataforma várias vezes, Milton ia lá pra assegurar que iriam voltar... Bom, a viagem a Salvador de ônibus levou exatamente 30 horas!!!! Mas a alegria na hora de chegar me fez esquecer de fedor, fome, cansaço... Pegamos um táxi até o Centro, passando pelo estádio, as ruas entupidas de camisas brancas, vermelhas e azuis (Bahia) e vermelhas e pretas (Vitória), gente que não acabava mais. Dique de Tororó... que lindos aqueles orixás no meio da água...

Depois de chegar no hotel, tomar um banho gostooooooooooso, queria logo encontrar com o pessoal da produção, ir lá pro Solar do Unhão, mas precisava comer antes. Aonde? os lugares de 29 anos atrás simplesmente não existiam mais, tava tudo mudado, o Corredor da Vitória estava cheeio de prédios altíssimos, hotéis chiques... onde está aquela pousadinha em que me hospedei, e que ficava em frente ao ICBA, que agora se chama Instituto Goethe??? e aquele restaurantezinho barato, aquela minha amiga, baiana do acarajé que ficava em frente ao TCA??? Nada... me senti quase como chegando pela primeira vez... e já era noite, e... ESTAVA FAZENDO FRIO!!!!! será que estou mesmo em Salvador???

Sim sim sim. Campo Grande... quantas vezes andei por aqui, indo e vindo da UFBA, doces recordações... Um cansaço começou a me invadir em forma de torpor, anestesiando qualquer vontade de ver gente, falar, sentir, vibrar... precisava comer e dormir, nada mais. Achei um lugarzinho perto do hotel que servia tapioca (beiju) feito na hora, vários sabores. Foi a melhor tapioca que comi na vida: levava rodelas de tomate, cenourinha ralada e um queijinho minas. Bem quentinho.

Dormir dormir dormir gostoso. Não tem nada melhor na vida!!!!

E aqui o fim do primeiro relato, com a foto do nosso ônibus em forma de sombra no barro do chão, valentemente levando a gente pela estrada afora...

17 August 2007

... e o emocional ataca outra vez



Que semana. Fiquei de cama por 7 dias, aliás hoje, véspera de viagem a Salvador, ainda estou me cuidando, longe de estar serelepe. Há uma semana atrás, uma gripe estranhíssima. Febrão repentino (estava bem, meia hora depois estava tiritando de frio, embaixo de 4 edredons, gorro, meias e luvas de lã!!!!) vindo do magma das entranhas da terra. Chá de alho encima, no dia seguinte melhorei, no seguinte, Gelsemium 30 CH... achei que tinha passado mas não. De repente as febres noturnas começaram, desta vez fraquinhas mas stranhas. E um torpor, dores no fundo dos olhos, nuca e de 3 dias pra cá, uma tosse inexplicável, tosse tosse tosse e não saía nada, e a minha laringe em fogo, tava deixando até de falar. Pulsatilla 30 CH.

Os sentimentos que vêm são os mais macabros possíveis, inclusive deixar de viajar... E a minha cara? parece figurante dos filmes de Zé do Caixão... Esta Noite Levarei a Sua Alma... nem precisaria de maquiagem... chegar assim lá realmente não estava nos meus planos...

E tô sabendo muito bem que é a por....caria do emocional me atacando outra vez.

Por que sou assim? por que é tudo tão intenso? por que me descabelo, me desamparo, me desnorteio, me desando, me desvio, me desatino, me desabotino??????

Mas vou, nada vai me impedir. Tosse, febre, mal estar, desconjura, mangalô três vezes, vade retro. Luto e venço, e o que não mata, fortalece. Tô indo, até!!! Pegar meu ônibus, que nem nos velhos tempos. Volver. Quem eu amava, morreu. Tudo diferente, é como chegar numa cidade desconhecida, mas com a sensação de já ter vivido lá. Coisa de outras vidas, mas nesta mesma que está aqui correndo em minhas veias.

15 August 2007

e no outro, tudo comeca


To indo pra Salvador pra estar presente na inauguração da super-Exposição sobre o Walter Smetak. Finalmente está sendo feito algo pra presevar a arte deste extraordinário artista, que foi um dos gênios mais criativos do nosso tempo. Além de músico de vanguarda, um artista plástico de valor que confeccionava seus belíssimos instrumentos- suas Plásticas Sonoras- e dava vida à eles. Um mago. Um guru. E agora está aí- Smetak para o Mundo!!!!

Nascido na Suíça, adulto foi morar em Porto Alegre, e foi lá que teve um insight de ir pra Salvador. O que encontrou nesta cidade foi toda aquela riqueza, aquela cultura afro borbulhando desenfreada, aquela explosão de cores, natureza e... as cabaças!!!! Cabaças que foram a matéria prima de tantos instrumentos criados por ele. Tinha toda uma filosofia esotérica por trás, nada era assim "da boca pra fora". A primeira vez que ouvi falar dele foi com Caetano e Gil na Tropicália. E quando ele veio fazer um workshop aqui no MAM em 76 e estrear a sua peça A Caverna, nos conhecemos e foi ali que tudo começou. Tivemos uma relação profunda de amizade e trabalho, que durou até a sua morte em 84. Trabalhamos até em Berlim, ficamos lá mais de dois meses. Tão bom.

E agora estou indo pra Salvador, depois de 30 anos. Há uma semana não consigo dormir, cenas do passado me invadem a cabeça sem eu querer, chamar ou pedir. Insistentes, avassaladoras, decididas, poderosas. Expulsá-las me é impossível, só me resta assistí-las em devaneio. Salvador com Smetak foi uma das fases mais felizes da minha vida.

No meu site tem mais informação deste grande artista, com notícias de jornal e mais fotos também.

09 August 2007

tudo acaba um dia


Ioga? musculação? dança de salão? salsa? dança do ventre? pilates? ashtanga? apesar de eu trotar (correr lento) diariamente e praticar taichi há 24 anos, comecei uma aula de ioga. Tô com (im)pressão alta há uns meses. Emocional, puramente emocional, pois meus outros exames são de uma criança sadia. Então achei que ioga iria me relaxar, e baixar a minha (o)pressão. Mas comecei a desconfiar de que tinha algo errado quando chegava em casa depois da aula, e em vez de me sentir relaxada, parecia que eu tinha tomado pó de guaraná, junto com vários cafés expressos... muito stranho... Ué, mas ioga não relaxa? Não era pela dificuldade das posições, pois eu tenho o corpo trabalhado e alongado e sempre fiz esse tipo de coisas, inclusive ioga. Era o que então? Na aula me sentia afogada, a respiração não cabia no peito, e com uma ligação cocaínica inexplicável, inusitada, e definitivamente fora de hora!!! Foi quando o Cláudio, meu querido homeopata, me disse que as asanas invertidas e prender a respiração com o pulmão cheio é ruim pra pressão alta. Que coisa heim... parei no ato!

Tudo acaba um dia. É bom lembrar disso quando a gente tá passando por uma fase braba. Vai passar.

A minha analista me despertou esta semana para o fato de que um belo dia nossa terapia também um dia vai acabar, como tudo acaba na vida. Por mim, continuaria por anos, já incorporei, já me acostumei... há seis anos faço com ela. Mesma pessoa, mesmo prédio, mesmos dias mesmas horas, mesmo percurso passando pelos jardins do Museu da República, me detendo ali a observar as garças e os gansos, os patos com seus patinhos amarelos, um gato preto habitante ilustre deitado nos raios de sol. De vez em quando pessoas levam alimento para os bichos, folhas de couve, alface, migalhas de pão. É uma festa! num instante junta aquele monte de bicho gralhando em volta, ávidos por aqueles petiscos...

Largo do Machado. Catete. Glória. Duas vezes por semana bordejo por estas bandas.

Virou um hábito... virou parte de mim... mão que me aponta um caminho, pé que me faz andar, luz que desponta no fim de um túnel. Mas como tudo acaba um dia, um dia isto também vai acabar. Olha... nunca havia pensado nisso... se pensei, fui tirando logo da cabeça...

Primeiro fiquei me sentindo abandonada, caramba, como vou fazer agora? A gente cria um vínculo, se apega, que diabo... fiquei bem triste... deu um desamparo, um vácuo, um hiato. Mas no dia seguinte senti um frescor de primavera, um recomeçar, uma confiança em mim, e consegui enxergar com alegria um fim. Andar com as próprias pernas. Não que a análise me tenha privado disto, mas é como se eu estivesse esse tempo todo num barco confortável e seguro, e que agora eu quisesse de repente sair daquele barco e nadar nas águas nem sempre confortáveis e nem sempre seguras. Riscos. Imprevistos. Meus braços e pernas aguentarão o tranco? Terei fôlego? Saberei surfar nas ondas gigantes? Conseguirei chegar ao destino? Saberei que direção tomar?

Senti que eu me sairia bem. Claro que isto é hoje... amanhã tudo pode mudar e me talvez me sinta frágil... mas... não é isso que é a vida?

01 August 2007

olha pro ceu meu amor


Não importa que estejamos já em agosto, elas continuam aí frutificando-se, porque são poderosas. Agora mesmo vai ter uma neste fim de semana. Aqui em Santa mesmo, na rua, e é claro, vou lá dar uma passadinha.

Nem todas são boas, mas as que são boas, são inesquecíveis.

Festas Juninas. O que faz com que elas sejam tão especiais pra mim? sei lá, várias coisas. Primeiramente, a música. Como não sentir uma alegria máxima ouvindo a voz de Luiz Gonzaga e o resfolego de sua sanfona até o sol raiar? Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo, olha praquele balão multicor, que lá no céu vai subindo, vem morena pros meus braços, vem cá cintura fina cintura de pilão, tome um gole de quentão, solta foguete, quero vê animação, eu quero ovo de codorna pra comer, o candieiro se apagou, o sanfoneiro cochilou, ontem sonhei que estava em Moscou dançando pagode russo na boate Kossacô, naquele côco não vadeio mais, apagaram o candieiro derramaro gai, ela só quer só pensa em namorá, a fogueira era em mim, mas a fumaça era em você, o sereno tá no fim, só você chora por mim, eu não choro por você. Como não sentir uma enorme alegria a invadir todos os buracos da minha cabeça? como ficar parada? como não explodir rodopiando que nem um dervixe, num encantamento de bandeirinhas de papel? Como? Como?

E Jackson do Pandeiro? um parágrafo especial pra ele!!! Outro que não pode faltar na trilha sonora pra a minha festa junina ideal e inesquecível: a ema geme, o sapo canta na lagoa, e a mulher do Anibal e Sebastiana dançam xaxado na Paraíba no forró do Zé Lagoa, enquanto o jogo continua 1 a 1, Rosalina é um tesouro, mas tava distraída e saiu com a saia rota, no tempo em que eu era só, meu coração batia tum tum tum, peguei logo numa escurinha e mandei passo de côco que foi um chuá, o diabo quando não vem manda o secretário, aquele é o marido da mulher que virou homem... vai jackson!!! canta aí pra sempre dentro dos meus ouvidos!!!

E tem aquelas cantigas tradicionais: Noites de Junho, Quadrilha do Cabo, Quadrilha Brasileira, Só Tocava Isso, Sonhos de Papel, Chegou a Hora da Fogueira, que acendem a fogueira do meu coração!!!

Depois, as comidas. Depois, o clima frio (este ano então, tá qui tá uma beleza!!!!). Depois o figurino. Depois a decoração. Não, não tem festa melhor pra mim, nem Carnaval, nem Natal (que não gosto), nem nada nenhuma.

Recordar é viver e vivendo recordo: inesquecíveis e inigualáveis foram as festas juninas que fiz na Lagoa das Lontras nos anos 80 e começo de 90. No meio do mato. Tínhamos que nos organizar muito bem, porque ficava a duas horas e meia do Rio, longe de tudo, e uma vez lá, não tinha como comprar nada. Caronas, quem ia com quem em que carro, as bebidas quem levava (quems!), as comidas, chegar um ou dois dias antes pra preparar a fogueira, colocar as bandeirinhas, quem ia fazer as iscas pra pescaria que ia ser na piscina, quem iria fazer o quentão. Eu desenhava uns mapas, xerocava e distribuía, porque era complicado chegar... um lugar no meio do nada, sem sinalização, só com esse mapinha e olhe lá! As pessoas que iam eram tão queridas, tão amadas... sabe aquelas pessoas que são indispensáveis pra sua vida, sem elas tu né nada? aqueles amigos do coração, amigos de fato e pra sempre? pois é, eram eles que iam, e traziam seus amigos, que também eram bacanas, e rolava o maior astral.

Suzy... Maína...

Foi engraçado uma vez. Todos sabem que eu (e Cazuza) somos exagerados. Pois é. Então pedi para cada pessoa levar um quilo de aipim, um quilo de batata doce, um quilo de milho verde, além de outras coisas, dependendo da disponibilidade de cada um. Muito bem, lá fomos nós. E chega gente. E chegam quilos. E quilos. E quilos. No fim, a montanha que se formou de aipim, batata e milho já estava a começar a me preocupar. Que destino dar àquilo tudo... absurdo... Acabou que, por causa da fartura, uma turma pôde ficar lá curtido por uma semana a mais depois da festa... comida não ia faltar he he...

E o casamento? fazíamos um verdadeiro teatro improvisado (a turma era talentosa!), com personagens inusitados (pai da noiva e noiva vindos da Lua, padre fabricante de camisinhas etc etc)... e o figurino era de lá mesmo, isto quer dizer que era dos mais surreais. Porque ali era um depósito de coisas inúteis: por toda vida foi costume levar pra lá coisas que não queríamos mais, mas tínhamos pena de jogar fora: móveis, panelas, roupas, lençóis, sapatos, bibelôs, quadros, livros... e lá se formava uma coleção de coisas inusitadas: roupão azul marinho com grandes bolinhas brancas, capa de chuva prateada fosforescente, calças roxas de acrílico, fantasias de bailarina e húngara, botinha Beatles, Topo-Gígios, Mugs... Na verdade, eram estes objetos que instigavam a nossa imaginação, inventando os personagens mais loucos...

Eu cuidava também da música. Uma das coisas que mais gosto na vida, mais do que qualquer coisa que ce possa imaginar, é fazer a trilha musical pruma festa. Modéstia à parte, todos adooooooram as minhas seleções. E naquela época era à base de K7. Perdia (perco) o sono, deixava (deixo) de comer, era (sou) adrenalina pura, só gravando as músicas. É uma coisa que nem Freud explica, essa minha piração. Sou um DJ por natureza, antes de ter essa profissão de DJ, eu já era... Agora, nada melhor do que música ao vivo num forró, mas tem que ter muito Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.

Ah, e também, last but not least... Frevo Mulher. Outonos secos caindo na palma da minha mão, desembocando no primeiro açude do meu amor.

Quando o vento sacode a cabeleira.

23 July 2007

centesima


Uma salva de fogos: viva!!! viva!!!! esta é a centésima historinha (publicação, post, crônica... que nome dar?) que edito aqui no blog. Pouco pro tanto que brota na minha cabeça e que luta pra ser catapultado pra fora em forma de palavras, música, dança e/ou desenho... mas muito pra se ler de uma vez só... então vocês que porventura se aventurarem a desbravar estas estepes de sensações e sentimentos, tenham paciência, sejam zen, e me visitem cada vez um pouquinho, mas sempre. Prometo (e espero cumprir) uma assiduidade maior do que tenho conseguido. Não tem desculpa... mas tem acontecido muita coisa pra me desviar da tarefa (que eu mesma me impus) de enfrentar diariamente a tela em branco, e ver brotar algo interessante que eu consiga traduzir em palavras (porque assunto tem de montão, o negócio é conseguir decodificar o pensamento, e também.... sentar e entrar no clima), algo que eu possa divulgar e dividir com o meu leitor querido e amado, e de quem tanto preciso... Na verdade, necessito ter a disciplina que tenho nas minhas caminhadas diárias, mas claro, escrever não é caminhar, ou é também, só que não com as pernas e sim com a imaginação. E no fim das contas, tudo é batalha, tudo é suor a escorrer pela mente, independente do clima meteorológico...

30 June 2007

o piano


Certas coisas me acompanham trôpegas por toda a vida, uma delas é o piano, com seus dentes de marfim a me morder. Temos uma relação complicada, eu e ele. Comecei a estudar com 8 anos, aulas particulares no Colégio Bennett, que naquela época era só de mulheres e ia do maternal até o ginasial (2º grau). Como não tinha piano ainda em casa, estudava as lições lá mesmo, às vezes no recreio, às vezes depois da aula. Ora, eu queria brincar no recreio, a professora era um horror, e eu não gostava nada. Depois fui pra outra professora, Nise Obino, esta sim me fez gostar do instrumento, e por quase 10 anos me dediquei a ele com intensa paixão, resolvida estava a ser concertista. Estudava 8 horas por dia, era um prazer inenarrável, era do que mais eu gostava, mais do que sorvete, mais do que passear com a família nos fins de semana, mais do que festa e namoro. Aos 18 anos porém, de estalo, fechei a tampa e por aaaaanos o piano ficou assim, mudo calado, e fui fazer outras coisas mais sociabilizantes, teatro, entrei pra faculdade de Arquitetura, comecei a cantar, saí da casa de meus pais. E com a música popular voltei a abri-lo, mas nunca mais com a paixão de antes. Toco aqui e ali, compus quase uma centena de músicas com ele, mas falta alguma coisa que não sei bem o que é... sonho? ideal? ocasião? cabeça para o iimproviso (minha formação é acadêmica, tudo lido na partitura)? sei lá... mas não pensa que desisto não, agora mesmo to tendo aulas com o Tomás pra ver se encontro aquela diana pianista que ficou lá pra trás. Foi outra pessoa. Onde estão vocês que me habitavam, seres pianísticos? foram pra o nunca mais? penso nisso e me lembro daquele provérbio: "águas passadas não movem moinho". Devo insistir? ou será que aquela já morreu? quantas vezes já morri e nasceu outra... pode ser mais uma...
Enquanto penso, estes dentes me sorriem, mas já não mordem mais.

16 June 2007

pores-de-sol


Um por-de-sol me faz tão bem. É uma hora em que fico feliz em estar viva, em tão boa saúde, com a minha sensibilidade tão à flor da pele, vendo um espetáculo tão belo. Fico comovida, emocionada, extasiada com cada mudança de cor que vai acontecendo muito aos pouquinhos, cada figura de nuvem que vai se transformando em outras... Esta hora salmão é muito especial pra mim. E onde moro, há uma vista estupenda, um verdadeiro deslumbramento.

Não há um idêntico ao outro, cada tarde é uma experiência única, um fenômeno que não se repete. Estou sempre tirando sua foto, tentando perpetuar o momento, eternizar a minha emoção. Tenho mais de cem sobre o assunto, são belíssimas, mas claro, são só tentativas pra capturar o incapturável, o instante de uma coisa em movimento.

Por coincidência, nasci às 6 da tarde... acho que isto não influencia, ou sei lá, talvez sim... mas a verdade é que é a hora que mais gosto. Até há bem pouco tempo, quando eu era da boemia, era a hora em que eu começava a me transformar também... aos poucos ia baixando um outro ser bem mais louco, meu ser noturno, e eu gostava muito deste outro ser destemido, admirava até mais do que o ser diurno careta que me habitava. Agora, como minhas noites são mais mansas, sinto a hora do por-do-sol como uma oração (agora me lembrei de uma coleção de músicas clássicas "pasteurizadas" que saiu há milênios atrás chamada de "Música à Luz da Oração" e a capa sempre era de um por-de-sol, ce vê como tá tudo lá no fundo do inconsciente...). Não uma oração religiosa, porque não sou religiosa, mas é um momento meu em que parece que fico mais perto de mim. Pode ser em Miami ou Madrid, Rio ou Eatontown, quando estou de cara com um por-de-sol é como se abrisse um parêntesis, e por um instante (ou vários) eu mergulho no meu avêsso. Me preparo pra noite. No fundo, acho que sou meio primitiva, temo a noite, que é a hora do inconsciente, dos sonhos, dos bichos noturnos sairem das tocas, dos sons estranhos, dos mistérios, dos sussurros, dos gritos, dos passos na ponta dos pés, do uivo do lobo, do silêncio sepulcral, do abandono, do indefinido. Todos os gatos são pardos. Não há como controlar nada daqui pra frente, é seja o que os deuses quiserem...

07 June 2007

saguis


Subindo pro quintal pra visitar a sepultura da Mia, veio um bando de saguis pra me consolar. Como sempre, saguis com fome. Não é época de jaca. Raros abacates. Desci de novo, e peguei a última banana que tinha (o consumo de banana aqui em casa é grande!!). Como satisfazer aquele bando só com uma banana? Fez-se então a multiplicação das bananas. Cortei-a em rodelinhas e fui dando. De um a um vieram descendo, gritando agudinho.

Antigamente não existiam saguis por aqui. Quero dizer, há 30 anos atrás... agora eles aparecem quase todo o dia. Quando me mudei pra esta casa, numa das primeiras manhãs acordei com um som altíssimo vindo do quintal, aliás estava até mais perto, parecia no telhado... um esporro louco.. nunca tinha ouvido nada igual... pensei que fosse uma passarada, mas... não eram pássaros comuns, ou então eram centenas... Depois vi que eram eles mesmos, os micos.

Uma visão inesquecível foi numa tarde em que estávamos almoçando e tinha uns oito na árvore em frente, todos amontoadinhos porque estava garoando. Aquele bloco de saguis (detestam o frio). Reparei que havia um que tinha uma mochilinha nas costas. O que era aquilo? um calombo? uma corcunda? um defeito de nascença? que nada... era o filhote agarradinho no pai. Pensei na hora que era na mãe, depois li que é no pai. O chefe de família tem a obrigação de cuidar dos filhotes, que se agarram no seu peito ou nas suas costas, na hora de atravessar os galhos ou correr pelas árvores. Voltam pra mãe na hora de mamar.

O que acho curioso é este rabo caído, sem ser prêensil, como nos outros macacos. Mais curiosidades: raramente andam sozinhos. Adoram brincar de brigar e esconde-esconde. Possuem uns tufos festivos que saem de suas orelhas. Pra mostrar a superioridade, um miquinho mostra sua bundinha pro outro. E.. que saco enorme!!! Sua dieta básica são insetos, frutos e sementes. Aqui tem uma foto antiga de dois se fartando de jacas, depois vieram mais!!!

São estridentes, hiper-estressados, e dizem que muitos morrem de enfarte. Nunca vi nem quero ver. Basta uma cena horrível que assisti: um sagui saiu aqui de cima telhado, e pelo fio de telefone atravessou a rua, e esbarrou, encostou, se apoiou sei lá, no transformador. Só ouvi aquele estrondo e o pobre sendo catapultado. Foi horrível, fiquei chocada, aquele bicho todo vivo alegre leve e fagueiro de repente ali inerte...

Mas pra encerrar, nada de tristeza. Eis a foto mais linda dos saguis aqui do quintal, tirada pelo John, namorado de Maína. Olhe esta expressão. Os olhos. A boca.

Realmente, é um privilégio ter essa convivência com os nossos primos.

01 June 2007

aleluia


Enquanto penso em minha gatinha que se foi, sinto-a por perto me olhando. Não posso vê-la, mas dela guardei muitas lembranças que são como se ela estivessa aqui no meu colo. Olho pro céu, e olhando pro céu vejo aquela árvore lá no fundo da foto. A foto em si não mostra toda a sua (da árvore) plenitude, mas foi tirada de longe pra dar uma idéia de como é enorme. Dá pra ver de quilômetros de distância.. Fui eu que plantei. O nome dela é Aleluia, e está toda florida. Amarela, alegre. Minha gatinha Mia tinha olhos amarelos, e era alegre. Ela se foi, a árvore deu flor, está chuvoso, comi chocolate. A vida continua, e tenho que aproveitá-la enquanto posso, porque um dia vai ser eu...