02 August 2010

o polvo profeta


Não posso deixar de escrever aqui, ainda que rapida e tardiamente, sobre a figura de mais destaque da última Copa: Paul, o polvo profeta, que já entrou na História! O caso é inteiramente SURREAL, muito doido, inexplicável, delicioso, hilário. Casos assim desafiam toda e qualquer lei. E o melhor: é tudo verdade!!!

Pra quem tá chegando agora, Paul é morador de um aquário de Oberhausen, Alemanha e acertou todos os palpites dos jogos em que a equipe alemã participou, inclusive a inesperada vitória da Sérvia, na primeira fase. Depois, as vitórias da Alemanha sobre Austrália, Gana, Inglaterra e Argentina. E deste modo: havia 2 recipientes, cada um com as respetivas bandeiras dos times que iriam jogar. Dentro de cada uma delas puseram um molusco, e Paul escolhia o molusco do recipiente do time vencedor, mas isto ANTES do jogo acontecer!!!

Quase um mes depois, ainda escuto na TV e leio no jornais notícias sobre ele!!! Que vai se aposentar e viver num lindo aquário. Que um site de apostas russo está pagando uma fortuna para tê-lo trabalhando pra eles... Espero que tenha gente da Sociedade Protetora dos Animais acessorando, senão a ganância dos seres humanos à sua volta pode levá-lo à morte... não morre gente por ganância? então! ele tem que providenciar rapidamente um bom empresário, senão vai virar escravo, advinhando direto sem poder dormir, comendo moluscos 24 mil vezes por dia pra acertar a loteria, engordando, pressão alta etc etc etc...

Que simpatia esse bicho. Gamei. Com os olhos sonolentos, parece que tem um narigão, lembra um leão marinho, numa foto lembra até um jacaré com os dentes de fora, sorrindo...

Alguém que não quer acreditar no absurdo da vida, inteiramente desprovido de poesia, disse que Paul ia sempre na caixa da direita, mas é mentira. Basta ver esta foto em que ele escolhe a Alemanha à esquerda e ignora a Inglaterra, na direita.


Fora outros palpites que ele deu sem ser nas quartas de final, e que não cheguei a saber. Só sei que ele teve 100% de acertos. Isto é que é entender de futebol!!!!



Ouvi um boato: estão querendo repaginar a bandeira espanhola, em homenagem a Paul, que apostou na vitória da Fúria. Ficaria assim:

01 August 2010

micos na janela


Micos na janela da minha sala. Cortei umas rodelas de banana para atrai-los, e cá estão. Há muito tempo não têm aparecido aqui na frente, na árvore. São lindos. Adoro esta aproximação com bichos não domesticados. E o entendimento que acontece entre nós e eles...

Como se parecem conosco. As expressões. As atitudes. Me olham olho no olho, e tento passar um sentimento de confiança. Podem vir, que tem uma bananinha aqui. Primeiro ficam na árvore, só estudando a situação. Cabreiríssimos (e com toda a razão, porque nunca se sabe o que esperar destes humanos!), vão se chegando aos poucos. E cada um tem a sua personalidade, é que nem gente. Existe uns bem audazes, que acabam comendo por si e pelos outros, e outros que nem têem coragem de se aproximar, ficam só olhando de longe... morro de pena destes outros, e até me identifico com eles, tímida que sou. Mas como geralmente aparecem em bandos, uns mais valentes acabam dando coragem aos outros, e quando vou ver, tem seis pendurados na janela. Que privilégio essa troca.





02 July 2010

perdemos...


Tão bons no primeiro tempo. Tão desequilibrados no segundo. Que tristeza...

01 July 2010

copa do mundo


Copa do Mundo não é só futebol. Porque se fosse, eu não me interessaria tanto. Bem, nem me interesso tanto assim, não sou uma torcedora de fato, mas fico acompanhando de longe os fatos, fofocas, colunas, bate-papos, entrevistas, e tenho assistido a todos os do BR, apesar de esquecer na semana seguinte quem jogou com quem. Acontece que se trata dos melhores times do mundo, e os melhores jogadores em campo. É bonito de se ver. Uma arte. A nossa seleção é valente, Deus é brasileiro, jogo é jogo, sorte é sorte, e ela é responsável por muita coisa que rola naquele campo!!!

Adoro a festa que é a Copa, e você sabe: alegria é contagiante!!! as torcidas apaixonadas são um espetáculo à parte. Cores (e por falar nisto, como combinam bem o verde e o amarelo!!!!), bandeiras, ruas enfeitadas, gente pintada, criatividade, chapéus extravagantes, cumplicidade, sentimento de pertencer a uma “família”. Sofrer, sorrir, chorar, rir, abraçar, xingar e até morrer, porque tem gente que morre, o coração não aguenta tanta emoção...

Ganhar é bom, mas lágrimas do time perdedor são de cortar o coração. Deveria ser assim: se um time está ganhando por 2 ou 3 gols, e o outro estiver no 0, bem que podia deixar o outro fazer pelo menos unzinho, né não? aí a tristeza fica menor... mas jogo não é assim, dizem os meus amigos, então chego à conclusão de que não gosto de jogo...

E as vuvuzelas? falam tão mal delas, mas entre eu e você, acho lindo aquele som de um enxame de abelhas, ainda mais quando não são abelhas e sim vuvuzelas, que não mordem... É um som que me lembra um mantra, um moto-contínuo, uma gaita de fole e é incrível porque quem faz a continuidade do som é toda uma população, é um sopro começando, o outro tomando fôlego, pra começar quando o outro acaba. Isto multiplicado por um milhão, o que resulta nesse som contínuo, ininterrupto. É muito bonito. O som de uma tribo.

Jamais iria assistir ao jogo na praia de Copacabana, ou num bar, ou em qualquer lugar de aglomeração. Seria um castigo. Tenho ficado em casa com Nelson e Milton, vestindo a minha linda camiseta desta copa:


A novidade é entrar no skype com Lili e Suzy que moram nos Estados Unidos. Não dá pra ver a imagem porque somos 3 e às vezes 4 (quando a Maína aparece), e não sei como configurar a imagem para mais de 2, então só temos o áudio. Mas é divertido: elas torcem mais do que eu!!! e descobrimos que lá tem um delay de muitos segundos em relação à transmissão daqui, então não posso me empolgar muito, senão perde a graça pra elas, que reclamam. É engraçado ouvi-las torcendo por uma jogada que já sei como vai acabar...

Amanhã tem BR e Holanda, vamos ver se as cachorras vão assistir ao jogo com a gente na sala. É, porque se BR não “estufar a rede” holandesa, elas vão ficar na varanda como de costume, mas se acontecer um gol e vem aquele foguetório, elas vão ficar histéricas arranhando a porta tresloucadamente, até abrirmos, quando então jogar-se-ão pra dentro sem o menor pudor ou escrúpulo. Esperemos que isto aconteça hehehe...

30 June 2010

carregada no colo


Nada mais louco que um acidente inusitado. Ontem caiu no peito do meu pé um ferro que segura as toalhas no banheiro. Na hora doeu muito, deu vontade jogar o troço pela janela afora, mas a dor era tanta, que não conseguia fazer nada mais que me contorcer em caretas de horror. Entrei no chuveiro, estava com pressa, tinha que sair. Depois passou, saí, voltei, almocei, saí de novo, e no final da tarde, andei do Catete até o Flamengo.

Era dia do meu esperado açaí no Tacacá. Sentei e pedi, aí sentada notei que uma dorzinha no local da pancada estava se evoluindo em progressão geométrica. As últimas colheradas já foram aflitivas. Fui numa clínica ortopédica que- sorte! ficava no Largo do Machado. Sorte. Aquela hora já não era hora de nenhuma urgência, dali a pouco iria fechar, e só tinha eu. Fui atendida rapidamente pelo único médico que ainda estava por ali. Tirou-se a chapa. Perguntei ao chapeiro se tinha quebrado. Ele, com um olhar misterioso, falou que o médico iria me dizer. Fiquei apreensiva: por que será que ele não quis falar? vai ver que quebrou. Aiaiaiaiai... Mas nada disso, o médico me liberou, gelo e repouso. Fui capengando pra aula de aquarela.

Chegando, começou uma dor tamanha, apesar do gelo que apliquei, que mal dava pra pintar, mas pintei sei lá como, entre caretas, arrepios de dor e pontadas cada vez mais fortes, mesmo paradinha, quieta. Quinze minutos antes de terminar a aula, eu já estava prontinha pra embarcar pra casa. Táxi, eu pulando que nem saci de jeans, paletó, cachecol e mochila.

Ao chegar na porta de casa, olhei desolada pra escadaria que teria que enfrentar. Como subir? não dava pra enconstar o pé no chão. Nem reconhecia o pé, não parecia meu, gordinho, aqueles dedinhos estufados que não podiam mexer de tão duros, vermelho de inchaço, parecia que iriam explodir. Eu teria que subir de bunda, um degrau atrás do outro. Foi quando os seguranças do restaurante em frente se compadeceram da cena, um saci urbano pulando fora do taxi, e se ofereceram a me levar até o portão, e depois tiraram par ou ímpar (hehe... mentira!), e um deles, um anjo, me carregou nos braços escadaria acima, e perguntou pro Nelson, que estava inteiramente despreparado para tal cena -onde a coloco? e cuidadosamente me recostou no sofá. Chiquééééérrimo!!!!!!

Que cena deslumbrante!!! coisa de cinema!!! eu sendo carreganda no colo escadaria acima... me senti o máximo!!!

E agora estou aqui, um dia já se passou, de molho, de repouso. Compromissos adiados. Andar, nem pensar. O pé já não doi tanto, e o inchaço diminuiu, mas não dá pra encostar o pé no chão ainda.

Como é importante conseguir por os dois pés no chão, sem dor!!! é uma coisa tão simples, mas tão básica!! não prestamos atenção a isto quando estamos bem, só quando somos forçados a parar.

Tenho me virado com a cadeira do computador, que tem rodinhas. Vivendo uma outra experiência, e não estou me saindo mal, pelo contrário. A única coisa é que leva um tempão pra fazer tudo, atravessar o corredor pra ir ao banheiro é uma luta, depois pegar um copo de água na cozinha, outra luta. Dramático. Por isso fiz um QG, peguei uma porção de utilidades e pus num cestinha, telefone inclusive, que vai junto comigo. Mas tá bom. Aproveitar pra ler, escrever no blog, ouvir música, pensar, descansar. Coisas que nunca são priorizadas no meu corre-corre diário.

Só mesmo uma paulada no pé pra eu parar, mas como é bom poder pisar.

15 June 2010

exposição de aquarelas


Hoje que reparei!!! nem registrei aqui a nossa exposição de aquarelas no SESC de Friburgo, pensei que tivesse, mas não!!! fui atropelada por acontecimentos extra-previsíveis que me levaram rodamoinhando até a crua constatação desta falha. Que lacuna, que hiato!!! bem, nunca é tarde, vou mostrar agora um pouquinho do muito que foi.

Muuuuito bom. A exposição era nosso, dos alunos da Maria Verônica Martins, e foi a primeira de que participo, ai que emoção!! A abertura foi no dia 30 de abril, já a viagem pra Friburgo, uma gostosura (adoro viajar, nem que seja pra perto)... peguei o ônibus das 4 da tarde no Menezes Cortes e uma chuvinha subindo a serra, muito bom. Friozinho. Lá o Mario me esperava na rodoviária, me deixou no hotel e fomos por os papos em dia, regados a um rodízio de sopas, uma delícia pra aquela temperatura aconchegante. Sair da rotina, que delícia!!

No dia seguinte, encontrei com Verônica e turma e ajudamos a montar.
Verônica, Luciano e eu medindo e montando

De noite foi ótimo, muita gente, suco de abacaxi com hortelã e gengibre, várias pastinhas deliciosas, rever amigos e conhecer outros, num clima pra lá de feliz.

Aqui vão mais fotos. Milton também participou, ele com suas flores e eu com os meus gatos. Parece que em agosto vai ter outra, só que aqui no Rio. Aí mando convite pra todo mundo, e vamos ver se dessa vez os hiatos não me atropelam rsrsrs...
aí os meus trabalhos

com Milton

com Verônica

Verônica e seus alunos Anna, Margarida, euzinha, Milton e Luciano
feliz

09 June 2010

sapinho, pererecas... e rãs


Aparecem do nada na nossa vida, e vão embora sem pestanejar no dia seguinte, silenciosos e sem deixar rastro. Pra onde eles vão? pra onde foi este sapinho que amanheceu neste vaso de plantas? de onde ele veio? não tenho lago, piscina ou poço... sei que os anfíbios foram os primeiros vertebrados a ocupar o solo terrestre, graças ao seu pulmão e às suas patas. Mas eles precisam de água por perto... como viver? como reproduzir? e de novo, como surgiu este bichinho, descansando à sombra de uma planta, num vaso de uma casa em Santa Teresa???

Parece tão tranquilo aí... nem se mexeu quando o flash disparou. Será que me viu? o olho dele nem se mexeu, nem se mexeu, nem piscou, ficou absolutamente imóvel. Uma pequena criatura que não tem medo de gente. Ainda bem que os gatos e as cachorras não o encontraram, mas... como foi que ele chegou até aqui?? deve ter passado por elas, e por outros perigos até alcançar este vaso.

Agora, perigo mesmo estão correndo as pererecas da Floresta Nacional Mario Xavier!!! Trata-se de uma reserva do Ibama que foi cortada pelo Arco Rodoviário em construção, que ligará Itaboraí ao Porto de Itaguaí. O projeto inicial não previa passar por ali, mas sim pelo pedágio da Rio-SP, ali na altura de Seropédica. Mas como não queriam mexer no pedágio, resolveram cortar pela reserva que fica ao lado. Depois que isto foi feito, descobriram as pererecas, as physalaemus soaresi, que não se encontram em nenhum outro lugar no mundo!!! condenando assim as coitadas à extinção... Agora resolveram cercar o Arco e construir 2 passarelas para que as pererecas circulem por baixo, mas isto é uma solução duvidosa pois além de ser bastante custosa, a fumaça e o ruído dos veículos vão poluir a reserva. Não podia era atravessar assim esta floresta, que absurdo!!! não precisa ser doutor pra ver o absurdo que é isto...

Coisa curiosa: nesta floresta não tem peixes, mas quando chove, a região fica cheio de banhados, aí aparecem pequenos peixes. O povo do lugar diz que são os peixes das nuvens, mas é que os ovos deles ficam ali parados, latentes, vivendo em suspense até que chove, quando então viram vida e se tornam peixes...

Voltando aos sapos. Quando eu era pequena, muitas vezes eu passava as férias no sítio da Zeldi em Sacra Família. Lá a gente adorava pegar sapo nas mãos, era gostoso, depois soltava... nem sabíamos que tinha sapo venenoso, sapo que mata, a gente pegava na maior inocência, sem medo, sem nojo, com encantamento. E claro, tivemos sorte, porque nenhum daqueles era igual a aquele que matou o Ruschi...

-E quanto às rãs?- estão me perguntando. Bem, sabe que não tem coisa melhor pra limpar o sangue do que caldinho de rã, e dar uma revigorada geral ? podemos encontrar, não muito facilmente, os pacotes congelados com aqueles corpinhos sem pele, já prontos para cozinhar. Mas é chocante, porque parecem bailarinas de 20 cms, bailarinas porque as coxas são supertrabalhadas. Tirei uma foto, quem quiser, me pede que mostro. Mas só se pedir...

E pra terminar, outra notícia sapal. Na Grécia teve uma saparia louca, milhares de milhões de sapos invadiram a rodovia de Tessalônica, na cidade de Langadas no norte do país. Tres carros derraparam na tentativa de evitar os sapos, e a rodovia foi fechada por duas horas.

Croac, croac croac....

21 May 2010

ninho


Os pássaros foram os primeiros arquitetos da face da Terra.

No outro dia estava eu andando aqui no quintal, e encontrei esta preciosidade. Fiquei ali parada, apreciando esta construção tão complexa, tão leve, tão perfeita. Não era a primeira vez que ficava cara a cara com um ninho de passarinho, mas cada vez que isto acontece, fico comovida. Como é que aqueles bichinhos conseguem fazer algo assim? sem mãos, só com o bico e aqueles pés aparentemente desajeitados? Já fiquei observando-os trabalhar: saltitantes, com movimentos rápidos e vigorosos, vão tecendo a sua casinha. Sabem exatamente como fazer... vão trazendo capim, gravetos. Que sabedoria, que habilidade.

Até os dias de hoje, somos inspirados por estas pequenas obras de arte. Lembra-se do palco de abertura e encerramento das Olimpíadas em Pequim de 2008? o Estádio Nacional, o principal estádio do país se chama Ninho de Pássaro (Niao Chao): feito de estruturas expostas de ferro e aço que se entrelaçam, lembra justamente um ninho de passarinho, considerada a jóia da nova arquitetura chinesa. Este é apenas um exemplo, das muitas que existem.

Tecer. Voar. Cantar. Os pássaros têm muito a me ensinar. Olho pro céu, e peço a sua bênção.

11 April 2010

adeus, semínima minha



Semínima estava com hipertireoidismo -entre outras coisas mais banais- tomando remédio humano... há um ano e meio ficamos tentando equilibrar estas taxas, com muito sucesso... mas o medicamento era tóxico, já havia atacado seu fígado uma vez... enfim... tudo meio bambo... volta e meia eu levava pra exame de sangue... emagrecia... recuperava um tiquinho... vomitava... melhorava... e agora de repente esta diarréia escura... esta falta total de apetite... tres dias e noites sem comer...

Uma pluminha ao léu. Uma velinha que se apagou. Um anjinho que recebeu o chamado da deusa egípcia Bastet e foi encontrar-se com ela. Mas não consigo ainda me conformar.

Será que estaria viva ainda se eu não a tivesse levado pra internar? tentei em casa, fiquei dando água de arroz e água de côco na seringa pra hidratar e alimentar, mas seria isto o suficiente? e por quanto tempo? E se ela morresse em casa? daí eu ficaria com culpa de não ter tentado salvá-la, tentado reverter a situação, tentado alguma coisa... tentado pelo menos. Quem sabe, ela poderia ter escapado de mais essa? pularia do barco do Caronte?

Não pulou.

Fomos enterrá-la no quintal. Tudo muito úmido da tempestade assassina de dois dias atrás. A folhagem toda verde vibrante brilhante, a terra molhada. Fresquinha. Cheia de vida. Cores fortes. Pulsante. E ela ali, inerte, que contraste da porra!!! Não tive coragem de olhar. Fiquei abraçada com a caixinha, sentindo seu peso-pluma no meu colo, mas não mais o seu calor. Conversando com ela, enquanto Milton cavava. Depois, ele cortou 2 lindas folhas de costela-de-adão gigantes, uma pra deitar seu corpinho, outra pra cobri-la antes de jogar a terra e colocar as pedras. Nesta hora, olhei pro céu.

Enterramos minha preta ao lado de Ismael e Mia. Enfeitei o seu túmulo com flores do jardim, plantei uma AMOReira e umas maria-sem-vergonhas em volta. Fiquei ali com ela, cantei a sua música (letra em cima da melodia de Frenezi):

eu amo tanto a Semínima
adoro tanto a Semínima
preciso tanto da Semínima
Sema semá minimá
minimá minimá

Adeus, minha preta mais linda, minha gata mais adorada, minha amiga, meu coração.

semínima



Morreu Semínima, minha gata preta, minha nota preta musical, de nariz preto lustroso, nariguda de olho preto que me olhava, e quando me encarava, ia lá pro fundo da minha alma. Morreu a minha amada gata, a que não podia morrer e me deixar deste jeito.

A que me buscava no portão todos os dias, na chuva, no sol, de noite ou de dia. Aí eu pegava-a no colo e ia subindo com ela até a varanda.

A que eu escovava por ser a mais peluda e que no ano passado teve que ter a barriga tosada, tadinha, de tantos dread-locks duros que haviam se formado. Porque no inverno ela adotava um casacão de pelo, com um boá em volta do pescoço, e aquilo tudo caía no verão e ela ficava magrinha.

A que eu deixava entrar e ficar em casa mais que os outros, a que eu dava quitutes especiais.

A que bastava eu chamar uma vez só, e lá vinha ela correndo se sacudindo toda, toda rebolativa, quer onde estivesse. Eu adorava.

A que ficava no meu colo, enquanto eu estava no computador. Meio inquieta, é verdade, porque o que ela queria mesmo era uns tiragostos. Mas ficava lá comigo.

A que era boa-boca, sempre disposta a encarar um “bom prato”. Na ceia noturna que eu dou pros gatos todos lá fora de noite, ela ficava até o final lambendo as minúsculas partículas que sobravam dos outros. Destestava um disperdício...

A que quando pariu, pariu logo seis, e gritando que nem gente. Nenhuma gata minha havia tido esta reação, todas pariam em silêncio. Nem consegui ficar ali. Fiquei muito nervosa, mas foi tudo bem.

A que gostava de dormir num banco alto, ao lado do fogão, deixando a cabeça pender até perder o equilíbrio e cair. Aquilo me dava uma aflição... sei lá... podia quebrar o pescoço...

A que eu pronunciava seu nome, e ela me respondia. Quantas vezes eu quisesse. Semínima -miau, semínima -miau, semínima -miau.

A que eu dava comprimido enfiando o dedo na sua boca, sem o menor medo, porque ela jamais iria me morder.

A que nunca brigou com outro gato. Semínima não tinha inimigos. Porque sempre tem umas inimizades num coletivo de gatos. Um rosna pro outro, estranha, dá umas patadas, mesmo os que são da mesma família. Tenho duas gatas, as mais novinhas, irmãs da mesma barrigada. Cresceram juntas a vida toda, uma mora em casa- a Aracy- a outra no quintal- Chiquinha, mas quando as duas se encontram, é um tal de dar patada uma na outra, rosnando... Aracy com Piteca, Fumaça com Aracy, Aracy com Colombina, Ping-Ling com todos... Pois Semínima era uma gata que nunca se indispos com outro, nunca. Mais que isto: tinha uns afetos sinceros, uns amigos do peito: por exemplo com a Colombina. Era um tal de lambe-lambe as duas se lambendo, tia e sobrinha, precisava ver. E também com Ismael, seu melhor amigo, viviam dormindo juntos, encaixadinhos, fazendo companhia um pro outro, até o final da vida dele.

Semínima, meu amorzinho, que saudade sinto de você, minha preta.




24 February 2010

carne assada


Febre sem estar com febre. Cabeça ficando maior e vermelha, maior e mais vermelha, maior e ainda mais vermelha. Desmaio iminente. Incapacidade de pensamento e locomoção. Irritabilidade. Cansaço extremo. Mente confusa. Dificuldade de se expressar. Sensação de que pele começa a não comportar o sangue nas veias, e a cabeça vai explodir. Princípio do fim. Tudo pode acontecer.

Calma, tento manter a calma.

Isto é o que está sendo o verão saariano de 2010. Alguém ligou o forno do céu em volume máximo, e virei uma carne assada. Não pego sol, saio de sombrinha (to lançando moda!), filtro solar, e mesmo assim, me pego fazendo os menores percursos, tirando casquinha de ar-condicionado em lojas e bancos, sem condições de viver: encontrar amigos, fazer aulas, pensar, criar, produzir, fazer meus projetos, cozinhar, dar geral... nada que possa fazer meu corpo revolver e minha mente mexer. Ficar parada é a única coisa viável, não consigo fazer, realizar. Preciso estar constantemente molhada, inúmeros banhos, ventiladores e ar. Corpo parado. Olhando pro céu azul numa sombra e suar.

Não me lembro de um calor como este. Até na Tunísia, onde passei 4 meses trabalhando no verão, senti tanto calor assim... tinha sempre uma brisa, uma sombra fresca. Não passei mal lá como agora, sentindo que iria desmaiar... era é muuuuuito bom!!! Aqui, o ar que desce do ventilador é quente, bafo de forno, e só se molhando é que há alívio... brisa? nada, tudo parado, e quando tem, vem quente. Lembra sauna. Uma constante sauna que não passa, são horas e horas a suar. As sombras viraram ítem obrigatório e de primeira importância na escolha de um caminho a percorrer.

E até gente que sempre adorou o calor, reclama. Mas pra não dizer que é tudo só inferno, tem a ducha que me refresca e me massageia. Um orgasmo a céu aberto, uma orgia de gotinhas fartas e fortes que caem num turbilhão de cachoeira nas minhas costas, cabeça tronco membros, me arrepiando de prazer. Tem as cigarras cantantes, tem a roupa que seca em horas: cê lava de manhã, e de tarde tá sequinha... Tem as frutas que são consumidas aos montes, em pedaços, em sucos, e as salaaaaadas que mastigo com volúpia, verdadeiras florestas no meu prato fundo. Desde que estamos pedindo orgânico, ah... é muito bom. E tem outra coisa: o mosquito da dengue não se cria nestas temperaturas tão extremas. Ficamos tranquilos, sem precisar vestir calça, meia, manga comprida. Nossa, em outros verões mais amenos, eu parecia um apicultor, só faltava a telinha na cara!!!

Nada de ligar o forno, eu que gosto de legume assado, essas coisas, melhor mudar de menu. No outro dia fizemos um souflé, tava tudo pronto me lembrei que tinha que ligar o forno. Foi um terror. Nunca mais. Pratos de forno só em maio!!!

Pensei: to doente. Preciso me cuidar. Mas quando olhei pras cachorras e pros gatos aqui de casa, todos imóveis, escornados, verdadeiras estátuas (chego a olhar se estão respirando), sem ânimo nem de receber carinho, aí vi que a coisa é geral. E quer ver eu recobrar os sentidos? é só passar por algum estabelecimento na rua que tenha ar-condicionado, ou entrar num táxi com ar: em poucos segundos volto à vida, o mal-estar acaba, meus pensamentos voltam a existir, consigo conversar com a pessoa do lado, minha cabeça volta a funcionar. É batata!!!

E pela primeira vez os noticiários daqui falam em "sensação térmica": a temperatura registrada é tantos graus, mas o corpo sente muuuito mais. Olha, isso existe mesmo!!! Eu já tinha ouvido e sentido essa "coisa" numa das vezes em que fui visitar minhas irmãs nos EUA no inverno: um dia saí pra passear à pé, tava um sol lindo, um frio gostoso, mas no meio começou um vento gélido, e não consegui mais curtir nada, tentava andar, mas aquele vento ártico me paralisava, e acabei voltando pra casa. Estava bem agasalhada, mas não conseguia evitar de me congelar: entrava pela roupa. Aí no noticiário da TV só se falava disto: sensação térmica. E ontem a nossa aqui empatou com a de Akjoujt, na Mauritânia, na região do deserto do Saara. Na terça de carnaval, foi a segunda maior do mundo, só perdendo para Gana!!!!

Muita coisa to transferindo pra maio. Aniversário, exames, vida social, projetos, qualquer coisa que exija de mim um mínimo de raciocínio, ou um mínimo de atividade física. Dizem que este calor veio pra ficar, todo verão agora vai ser assim. Preciso armar um esquema pros próximos. Curso de férias no exterior. Como adestrar ursos polares. Como fazer bonecos de neve criativos. Aprenda como alimentar pinguins organicamente. Ou então, trabalhar numa estação de esqui.

Não, nem um extremo nem outro... Procurar uma praia no norte (em Natal faz menos calor que aqui!!!). Ou nem tão longe: dizem que em Rio das Ostras, neste carnaval, ficava fresquinho de noite. Será? Ou talvez ir pra montanha: Friburgo? Teresópolis? Bocaina? Mauá? bem, até lá tem um tempinho, enquanto isso a vida rola aqui e agora, e vou me deslizando de suor pelos dias. Mas quando maio chegar...

29 January 2010

milagres


O ano novo entrou violento, arrebentando literalmente: enchentes, deslizamentos e mortes na Ilha Grande, Angra, e o terremoto apocalíptico no Haiti, cenas de pavor do mais terrível filme, só que este não é de ficção e nem vi no cinema, e sim na TV e nos jornais: trata-se da realidade.

De que maneira estas pessoas estão conseguindo viver após a catástrofe? comida e bebida sendo distribuidas com lentidão e desordenadamente, pois são multidões precisando. Filas tornam-se impossíveis de fazer. Comer, dormir, cagar, se tratar em caso de alguma doença... como fazer? E os saques, a violência, o desespero de quem está ali inteiramente entregue e sem nada mais pra perder? grupos inteiramente enlouquecidos matando por um quilo de arroz... a dor da fome é cáustico....

Tudo isto é muito triste. Mas no outro dia li uma notícia assombrosa, intitulada Meninas Superpoderosas, com fotos de 3 mulheres que foram retiradas vivas dos escombros, depois de mais de sete dias sem água ou comida, sem ar praticamente, em posições de desconforto e dor, sem poderem se mexer, e além do mais, e o que é pior, sem saber se iriam conseguir sobreviver, sofrendo a angústia de estarem soterradas e a dúvida se iriam ser salvas ou não. Não sei, a gente se surpreende com a gente mesma, mas se fosse eu... acho que teria me entregado nas primeiras horas... ou minutos...

Estas mulheres são um bebê de 15 dias, uma moça de 26 anos e uma idosa de 69. As fotos de cada uma delas sendo resgatadas são emocionantes, fotos de milagres. Milagres vivos ali, estampados numa página de jornal.

O bebê se chama Elisabeth Joassaint, e na foto ela aparece numa maca, sendo hidratada com soro, de olhos abertos, mão na boca, olhando tranquilamente pra aquele corre-corre em volta, não entendendo nada (com 15 dias a gente não entende nada, só vive o que nos acontece. Imagina então ouvir um estrondo, ser soterrada, e ficar na escuridão, sem mamar, sem sentir a mãe!!!), mas tranquila, sem chorar, sem se debater... talvez ela tenha se desesperado logo que aconteceu o desmoronamento, mas foi cansando até a exaustão... Esse bebê, é claro, não teve consciência do que havia acontecido, e do perigo que estava passando, portanto sua única angústia (e não é pouco), era não estar com a mãe, e o desconforto da fome e sede... Ela parece na foto com mais idade do que o texto diz, eu diria que uns seis meses. Será que o tempo que ela passou soterrada (metade da vida dela!!!) ajudou alguma coisa neste processo de envelhecimento? Diz o texto: “uma equipe de busca estava demolindo sua casa quando a encontrou na mesma cama em que dormia no momento do terremoto. A cama caíra no chão, mas o bebê não se machucou”.

A outra “menina” é Anna Zizi, de 69 anos, que foi retirada das ruínas da catedral de Porto Príncipe. Na foto, ela aparece toda suja de terra, pedaços nos cabelos grisalhos, e a boca (sem dentes) aberta, sendo hidratada pela equipe de salvamento com a água de uma garrafinha de plástico. Diz o texto: “Anna saiu dos destroços cantando... médicos que examinaram Zizi disseram que ela estava desidratada, que havia deslocado o quadril e quebrado uma perna (imagina a dor!!!). Ela contou que após o tremor conversou várias vezes com um padre que também ficou preso. Após alguns dias, não mais teve resposta dele e disse ter passado o resto do tempo rezando e esperando, sozinha. -Só conversei com o meu chefe, Deus, e não precisei mais dos homens-disse ela”.

E finalmente, a última que se chama Lozama Hotteline, de 26 anos. Lindona, com um riso iluminado, sorriso de dentes branquíssimos, também numa maca, segurando uma garrafa de água, saiu dos escombros cantando e rindo.

P.S: entre o dia que escrevi este texto e o que publiquei, retiraram um rapaz, que ficou soterrado sob um bar e se salvou bebendo refrigerante (!!!!!) e ontem, 15 dias depois do terremoto, resgataram mais uma moça. Até sua família se surpreendeu ao saber que estava ainda viva. Chama-se Darlene Etienne, de 17 anos, retirada da Faculdade St. Gerard, em Porto Príncipe. Ela ainda teve forças pra agradecer os bombeiros!!!

09 January 2010

meu calendário


Foto da capa do meu calendário de aquarelas e gatos de 2010.

Talvez a melhor coisa que eu tenha feito no ano passado foi o calendário de gatos. E quase que não sai, porque no final ainda faltava pinturas pra completar os 12 meses, e dentre os que estavam prontos, havia uns que não me agradavam, poderiam melhorar, ou eu poderia fazer o bicho de novo, a partir de outra foto melhor etc etc... Enfim, foi um parto.

Tudo começou há muitos anos, quando conheci os calendários grandes temáticos (sapos, gatos, cinema, pinturas de um artista famoso, natureza e por aí vai), que minhas irmãs me mandavam, e que passaram a ser ítem obrigatório nos pacotes de presentes de natal. Você abre e pendura na parede, uma banda tem uma bela imagem, a outra vem com uns quadrados em cada dia, grandes o suficiente para anotar consultas médicas, aniversários etc. Desde então, não mais esqueço os meus compromissos. Um prático e poderoso aliado no corre-corre do dia-a-dia, e pra esta mente um tanto distraída!!!

Imaginei fazer um daqueles algum dia na vida- mas era um desejo como milhares que tenho e que depois esquecidos (entre querer fazer e conseguir realizar... vai muita distância!!!!). Aí comecei a aprender aquarela -por outras razões- e a coisa foi acontecendo aos poucos.

Meu calendário não é de parede: é pequenininho, de mesa, 10X10 cms. Mas fiquei orgulhosíssima, e tão feliz por ter realizado algo, e não ter ficado só no sonho. Sim, porque sonhar é comigo mesma, tenho inúmeros projetos, mas... fazer que é bom...

Na verdade, ninguém estava acreditando que eu fosse concluir, e pra falar a verdade, eu também não. Nem também me lembro quando foi que o que eu estava fazendo na aula virou um futuro calendário. Foi acontecendo, sem eu ter percebido, sem eu ter tido consciência. Só nos últimos meses é que me dei conta, e aí foi uma corrida contra o tempo pra entregar na gráfica. Claro que só ficou pronto no dia 23 de dezembro, mas ficou!!!

Aqui estão as Misses e os Misters dos meses: são gatos meus: uns já se foram, outros estão aprontando por aqui, todos vivendo no meu coração. Atendem pelo nome, e vêm quando eu chamo.

Na aquarela sou aprendiz, ainda falta muita tinta, papel e pincel para que eu realmente domine a técnica (será que ela é dominável???) - por enquanto dificílima pra mim- mas aqui estão os meus bichinhos, desejando a todos um FELIZ 2010, pleno de saúde alegrias e afetos, e um mundo mais justo para todos os seres da Terra.
Fumaça- contracapa e porta-voz

href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh_jv1qOgwReog64X5klsuWXq38gMYAvr6z2sFs5gHrImVpHFG9Qge51YLj0UyyNk0OkxZO7wvIom8b135tgfrA-yoZGUh6rqhfMGcwBZg_52vetyHyzA7tdB18tBrCsOGnNrdD/s1600-h/Mambazo.JPG">Mambazo- Janeiro

Ping-Ling- fereveiro

Semínima- março

Família- abril

Piteca- maio

Colombina- junho

Mia- julho

Ismael- agosto

Coquinho- setembro

Gong-Li- outubro

Aracy- novembro

Chiquinha- dezembro

06 January 2010

viro a página


Com muito menos postagens do que costumo escrever, eis que o ano de 2009 de repente se evaporou. Foi ficando pequeno, pequeno, cada vez menor e sumiu na curva de uma estrada, bem lá na linha do horizonte. Não deu tempo de fazer muita coisa, quase nada. Ainda berrei seu nome, tentei chamá-lo só para me despedir, mas ele nem se virou pra me olhar, correndo correndo correndo, sempre com pressa, como se fosse para tirar o pai da forca.

Já foi tarde!!! quero vê-lo bem longe... E saúdo 2010 em pleno Dia de Reis, virando mais uma página, com foto mandada pela Maína!!!

Nada é o que não foi há uma semana ou um mes atrás, mesmo assim viro a página, pois viver é seguir. O que esperar? não sei. Resoluções? não fiz. Faço uma agora: neste instante ouço umas gotinhas mínimas de chuva que caem muito suaves nas folhas, mal dá pra escutar, se não fosse o silêncio deste instante, passariam despercebidas. O som é tão atraente, me descansa o olhar e nutre o meu sangue. Tudo é calmo. A temperatura está amena, aquele bafo de 45 graus centígrados deu um tempo. Céu de lindo branco-acinzentado, sem sol.

Mas... isto lá é resolução? lendo nas entrelinhas, é: viver o momento presente. Estando agora aqui, que me importa o mês que vem? a semana próxima? tudo ficção. Realidade é que agora as gotas caem quase parando, hoje é primeira quarta-feira do ano, voltei a escrever no blog. Pronto.

Minha cabeça não costuma funcionar assim, mas tem que aprender- e vai!- de agora em diante. Afinal, tudo é treino, tudo é aprendizado, e quero aproveitar com alegria o que tenho, enquanto posso. Pode parecer sem sentido, lendo assim, mas não é não. Pode parecer texto cifrado, talvez seja. Mas tenho certeza de que, com esta atitude, vou conseguir até transformar o que é ruim em bom. Nada está escrito nas estrelas, e embora não se possa controlar a vida, sempre existirão maneiras de passar pelas pedras do caminho sem se machucar tanto.

12 November 2009

não deu tempo...


Fui assistir THIS IS IT, o filme do que seria o último show de Michael Jackson, se não fosse a sua morte inesperada, 18 dias antes do primeiro show. Era pra ser uma série de 50 shows, que se realizariam entre julho de 2009 a março de 2010 no 02 Arena em Londres, com lotação esgotada meses antes: dois milhões de pessoas de todas as partes do mundo se inscreveram para a pré-venda de ingressos, e quando postos à venda, foram-se assim! os ingressos mais rapidamente vendidos da história, o público mais numeroso para um artista numa só cidade. O filme era pra ter sido uma coisa privada, somente para constar de seus arquivos pessoais, sem nenhum plano para divulgação de imagens. Acredito que ele não gostaria que estivéssemos vendo a obra ainda por fazer, seus drafts, mas com a tragédia, é um premio de consolação para nós, seus fãs do mundo inteiro, que jamais vamos vê-lo outra vez. Uma saudosa despedida.

O que é que a gente faz depois de um filme destes? como é que se engata o cotidiano, e segue-se adiante?

Quando o filme acabou, o cinema aplaudiu em peso. Fui a última a sair, assistindo aos créditos e a várias vinhetas-surpresa. Nem sei descrever direito o depois. Me levantei da poltrona literalmente tonta, e vi que todos já tinham ido embora. Queria ver de novo. Saí trôjda, zonza, andando em zig-zag. Trôpega em pleno Largo do Machado, e... o que fazer? pra onde ir? me arrependi de não ter assistido a mais uma sessão logo em seguida. Tava querendo mais. Mas ao invés disto, comprei um sorvete, e vim tomando pelo caminho, neste dia de tanto calor, andando e pensando e sentindo, sentindo e pensando e andando...

Ver o Michael tão vivo ali, tão presente, tão ativo, tão intenso (apesar de dizer que estava querendo se poupar, ele se entrega inteiro, sob aplausos de todos que o estão assistindo) é um choque, porque é a imagem de uma coisa que era pra acontecer, mas não deu tempo. Um filme de uma despedida em que os protagonistas não sabiam se tratar de tal... Muito difícil e muito doloroso acreditar que ele não está mais aqui, que este show não rolou nem vai rolar... nem este, nem outro nunca mais (nunca diga a palavra nunca, mas neste caso, é nunca mesmo!). Difícil pelo absurdo da situação: saber que não temos mais o que vemos ali em plena forma (apesar de não ter feito show há anos), inteiraço (apesar das notícias nefastas de cadeira de rodas, máscaras, remédios, vida conturbada, atitudes grotescas, escândalos de pedofilia jamais comprovados). Fisica e psicologicamente inteiraço, comandando, sabendo exatamente o que quer (“essa nota não!”), dançando com uma precisão de acrobata chines, cantando divinamente, dirigindo os músicos, fazendo os arranjos, corrigindo a coreografia (“esse dançarino deveria sair antes”), dirigindo o show inteiro junto com Ortega. E de uma maneira inteiramente encantadora, doce e gentil. Gentileza para com os colegas e vice-versa, distribuindo sorrisos cativantes, mostrando humildade ao admitir deslizes (sorry!). Coisa rara, em se tratando de estrelas de primeira grandeza, que nem sempre mostram este cuidado. Uma pessoa especial.

Não quero tirar a surpresa de quem ainda não viu. Só digo que é imperdível. Não é preciso nem falar aqui -mas falo- de todo o extraordinário elenco de artistas envolvidos no projeto, desde o diretor Kenny Ortega, que consulta MJ a cada momento, aos dançarinos "invertebrados" e feitos de látex, ao time monumental dos músicos, aos cenários e efeitos especiais high-tech, 3D, MJ no bar assistindo Rita Hayworth cantando, Humphrey Bogart caçando-o de metralhadora, enfim... o maior show de todos os tempos, e como MJ diz: “quero que o show leve as pessoas a lugares onde nunca foram, e impressione como nenhum outro já visto”. Pode crer que era isso que iria acontecer. Menciono ainda tres mulheres simplesmente inacreditáveis: a Mekia Cox, uma negra inteiramente fantástica de uns dois metros de perna, com uma andada e uma cara pra lá de deliciosas, que dança com ele em This Is The Way You Make Me Feel; a Judith Hill (americana de mãe pianista japonesa e pai músico negro de funk), backing-vocal que faz duo com ele em I Just Can’t Stop Loving You e a louca guitarrista inenarrável Orianthi Panagaris- que nome!- (australiana, descendente de gregos), que, alucinada, segue-o no palco em diversos números e toca absurdamente.

É comovente ver como Michael é amado e respeitado pelo elenco (“estamos aqui por ele, e que ele continue nos guiando no caminho”), e vice-versa. Família.

Uma parte é dedicada ao Jackson 5, e MJ cita o nome de cada um deles, dizendo, emocionado, que os ama. A gente assistindo assim, começa a chorar... Uma hora em que me lembrei de Jimi Hendrix (acho que foi uma citação proposital) quando MJ joga o paletó no palco, queima-o (Jimi queimou a guitarra) e ele se ajoelha ao lado do casaco queimando (no ensaio, é só a marcação), e faz aqueles movimentos do Jimi com as mãos imitando labaredas.

O filme é dedicado aos seus tres filhos: Michael Jr (Prince), Paris-Michael e Prince Michael (Blanket). No final, outra cena "forte", de molhar os lenços: uma roda com todos os participantes, Michael agradece a presença, a energia, o trabalho, a união, a dedicação de todos. A gente sente a energia intensa que circula naquele momento, agradece e sai do cinema com lágrimas.

É pra ver várias vezes, com a certeza dolorosa de que perdemos o maior artista de todos os tempos.