02 July 2010

perdemos...


Tão bons no primeiro tempo. Tão desequilibrados no segundo. Que tristeza...

01 July 2010

copa do mundo


Copa do Mundo não é só futebol. Porque se fosse, eu não me interessaria tanto. Bem, nem me interesso tanto assim, não sou uma torcedora de fato, mas fico acompanhando de longe os fatos, fofocas, colunas, bate-papos, entrevistas, e tenho assistido a todos os do BR, apesar de esquecer na semana seguinte quem jogou com quem. Acontece que se trata dos melhores times do mundo, e os melhores jogadores em campo. É bonito de se ver. Uma arte. A nossa seleção é valente, Deus é brasileiro, jogo é jogo, sorte é sorte, e ela é responsável por muita coisa que rola naquele campo!!!

Adoro a festa que é a Copa, e você sabe: alegria é contagiante!!! as torcidas apaixonadas são um espetáculo à parte. Cores (e por falar nisto, como combinam bem o verde e o amarelo!!!!), bandeiras, ruas enfeitadas, gente pintada, criatividade, chapéus extravagantes, cumplicidade, sentimento de pertencer a uma “família”. Sofrer, sorrir, chorar, rir, abraçar, xingar e até morrer, porque tem gente que morre, o coração não aguenta tanta emoção...

Ganhar é bom, mas lágrimas do time perdedor são de cortar o coração. Deveria ser assim: se um time está ganhando por 2 ou 3 gols, e o outro estiver no 0, bem que podia deixar o outro fazer pelo menos unzinho, né não? aí a tristeza fica menor... mas jogo não é assim, dizem os meus amigos, então chego à conclusão de que não gosto de jogo...

E as vuvuzelas? falam tão mal delas, mas entre eu e você, acho lindo aquele som de um enxame de abelhas, ainda mais quando não são abelhas e sim vuvuzelas, que não mordem... É um som que me lembra um mantra, um moto-contínuo, uma gaita de fole e é incrível porque quem faz a continuidade do som é toda uma população, é um sopro começando, o outro tomando fôlego, pra começar quando o outro acaba. Isto multiplicado por um milhão, o que resulta nesse som contínuo, ininterrupto. É muito bonito. O som de uma tribo.

Jamais iria assistir ao jogo na praia de Copacabana, ou num bar, ou em qualquer lugar de aglomeração. Seria um castigo. Tenho ficado em casa com Nelson e Milton, vestindo a minha linda camiseta desta copa:


A novidade é entrar no skype com Lili e Suzy que moram nos Estados Unidos. Não dá pra ver a imagem porque somos 3 e às vezes 4 (quando a Maína aparece), e não sei como configurar a imagem para mais de 2, então só temos o áudio. Mas é divertido: elas torcem mais do que eu!!! e descobrimos que lá tem um delay de muitos segundos em relação à transmissão daqui, então não posso me empolgar muito, senão perde a graça pra elas, que reclamam. É engraçado ouvi-las torcendo por uma jogada que já sei como vai acabar...

Amanhã tem BR e Holanda, vamos ver se as cachorras vão assistir ao jogo com a gente na sala. É, porque se BR não “estufar a rede” holandesa, elas vão ficar na varanda como de costume, mas se acontecer um gol e vem aquele foguetório, elas vão ficar histéricas arranhando a porta tresloucadamente, até abrirmos, quando então jogar-se-ão pra dentro sem o menor pudor ou escrúpulo. Esperemos que isto aconteça hehehe...

30 June 2010

carregada no colo


Nada mais louco que um acidente inusitado. Ontem caiu no peito do meu pé um ferro que segura as toalhas no banheiro. Na hora doeu muito, deu vontade jogar o troço pela janela afora, mas a dor era tanta, que não conseguia fazer nada mais que me contorcer em caretas de horror. Entrei no chuveiro, estava com pressa, tinha que sair. Depois passou, saí, voltei, almocei, saí de novo, e no final da tarde, andei do Catete até o Flamengo.

Era dia do meu esperado açaí no Tacacá. Sentei e pedi, aí sentada notei que uma dorzinha no local da pancada estava se evoluindo em progressão geométrica. As últimas colheradas já foram aflitivas. Fui numa clínica ortopédica que- sorte! ficava no Largo do Machado. Sorte. Aquela hora já não era hora de nenhuma urgência, dali a pouco iria fechar, e só tinha eu. Fui atendida rapidamente pelo único médico que ainda estava por ali. Tirou-se a chapa. Perguntei ao chapeiro se tinha quebrado. Ele, com um olhar misterioso, falou que o médico iria me dizer. Fiquei apreensiva: por que será que ele não quis falar? vai ver que quebrou. Aiaiaiaiai... Mas nada disso, o médico me liberou, gelo e repouso. Fui capengando pra aula de aquarela.

Chegando, começou uma dor tamanha, apesar do gelo que apliquei, que mal dava pra pintar, mas pintei sei lá como, entre caretas, arrepios de dor e pontadas cada vez mais fortes, mesmo paradinha, quieta. Quinze minutos antes de terminar a aula, eu já estava prontinha pra embarcar pra casa. Táxi, eu pulando que nem saci de jeans, paletó, cachecol e mochila.

Ao chegar na porta de casa, olhei desolada pra escadaria que teria que enfrentar. Como subir? não dava pra enconstar o pé no chão. Nem reconhecia o pé, não parecia meu, gordinho, aqueles dedinhos estufados que não podiam mexer de tão duros, vermelho de inchaço, parecia que iriam explodir. Eu teria que subir de bunda, um degrau atrás do outro. Foi quando os seguranças do restaurante em frente se compadeceram da cena, um saci urbano pulando fora do taxi, e se ofereceram a me levar até o portão, e depois tiraram par ou ímpar (hehe... mentira!), e um deles, um anjo, me carregou nos braços escadaria acima, e perguntou pro Nelson, que estava inteiramente despreparado para tal cena -onde a coloco? e cuidadosamente me recostou no sofá. Chiquééééérrimo!!!!!!

Que cena deslumbrante!!! coisa de cinema!!! eu sendo carreganda no colo escadaria acima... me senti o máximo!!!

E agora estou aqui, um dia já se passou, de molho, de repouso. Compromissos adiados. Andar, nem pensar. O pé já não doi tanto, e o inchaço diminuiu, mas não dá pra encostar o pé no chão ainda.

Como é importante conseguir por os dois pés no chão, sem dor!!! é uma coisa tão simples, mas tão básica!! não prestamos atenção a isto quando estamos bem, só quando somos forçados a parar.

Tenho me virado com a cadeira do computador, que tem rodinhas. Vivendo uma outra experiência, e não estou me saindo mal, pelo contrário. A única coisa é que leva um tempão pra fazer tudo, atravessar o corredor pra ir ao banheiro é uma luta, depois pegar um copo de água na cozinha, outra luta. Dramático. Por isso fiz um QG, peguei uma porção de utilidades e pus num cestinha, telefone inclusive, que vai junto comigo. Mas tá bom. Aproveitar pra ler, escrever no blog, ouvir música, pensar, descansar. Coisas que nunca são priorizadas no meu corre-corre diário.

Só mesmo uma paulada no pé pra eu parar, mas como é bom poder pisar.

15 June 2010

exposição de aquarelas


Hoje que reparei!!! nem registrei aqui a nossa exposição de aquarelas no SESC de Friburgo, pensei que tivesse, mas não!!! fui atropelada por acontecimentos extra-previsíveis que me levaram rodamoinhando até a crua constatação desta falha. Que lacuna, que hiato!!! bem, nunca é tarde, vou mostrar agora um pouquinho do muito que foi.

Muuuuito bom. A exposição era nosso, dos alunos da Maria Verônica Martins, e foi a primeira de que participo, ai que emoção!! A abertura foi no dia 30 de abril, já a viagem pra Friburgo, uma gostosura (adoro viajar, nem que seja pra perto)... peguei o ônibus das 4 da tarde no Menezes Cortes e uma chuvinha subindo a serra, muito bom. Friozinho. Lá o Mario me esperava na rodoviária, me deixou no hotel e fomos por os papos em dia, regados a um rodízio de sopas, uma delícia pra aquela temperatura aconchegante. Sair da rotina, que delícia!!

No dia seguinte, encontrei com Verônica e turma e ajudamos a montar.
Verônica, Luciano e eu medindo e montando

De noite foi ótimo, muita gente, suco de abacaxi com hortelã e gengibre, várias pastinhas deliciosas, rever amigos e conhecer outros, num clima pra lá de feliz.

Aqui vão mais fotos. Milton também participou, ele com suas flores e eu com os meus gatos. Parece que em agosto vai ter outra, só que aqui no Rio. Aí mando convite pra todo mundo, e vamos ver se dessa vez os hiatos não me atropelam rsrsrs...
aí os meus trabalhos

com Milton

com Verônica

Verônica e seus alunos Anna, Margarida, euzinha, Milton e Luciano
feliz

09 June 2010

sapinho, pererecas... e rãs


Aparecem do nada na nossa vida, e vão embora sem pestanejar no dia seguinte, silenciosos e sem deixar rastro. Pra onde eles vão? pra onde foi este sapinho que amanheceu neste vaso de plantas? de onde ele veio? não tenho lago, piscina ou poço... sei que os anfíbios foram os primeiros vertebrados a ocupar o solo terrestre, graças ao seu pulmão e às suas patas. Mas eles precisam de água por perto... como viver? como reproduzir? e de novo, como surgiu este bichinho, descansando à sombra de uma planta, num vaso de uma casa em Santa Teresa???

Parece tão tranquilo aí... nem se mexeu quando o flash disparou. Será que me viu? o olho dele nem se mexeu, nem se mexeu, nem piscou, ficou absolutamente imóvel. Uma pequena criatura que não tem medo de gente. Ainda bem que os gatos e as cachorras não o encontraram, mas... como foi que ele chegou até aqui?? deve ter passado por elas, e por outros perigos até alcançar este vaso.

Agora, perigo mesmo estão correndo as pererecas da Floresta Nacional Mario Xavier!!! Trata-se de uma reserva do Ibama que foi cortada pelo Arco Rodoviário em construção, que ligará Itaboraí ao Porto de Itaguaí. O projeto inicial não previa passar por ali, mas sim pelo pedágio da Rio-SP, ali na altura de Seropédica. Mas como não queriam mexer no pedágio, resolveram cortar pela reserva que fica ao lado. Depois que isto foi feito, descobriram as pererecas, as physalaemus soaresi, que não se encontram em nenhum outro lugar no mundo!!! condenando assim as coitadas à extinção... Agora resolveram cercar o Arco e construir 2 passarelas para que as pererecas circulem por baixo, mas isto é uma solução duvidosa pois além de ser bastante custosa, a fumaça e o ruído dos veículos vão poluir a reserva. Não podia era atravessar assim esta floresta, que absurdo!!! não precisa ser doutor pra ver o absurdo que é isto...

Coisa curiosa: nesta floresta não tem peixes, mas quando chove, a região fica cheio de banhados, aí aparecem pequenos peixes. O povo do lugar diz que são os peixes das nuvens, mas é que os ovos deles ficam ali parados, latentes, vivendo em suspense até que chove, quando então viram vida e se tornam peixes...

Voltando aos sapos. Quando eu era pequena, muitas vezes eu passava as férias no sítio da Zeldi em Sacra Família. Lá a gente adorava pegar sapo nas mãos, era gostoso, depois soltava... nem sabíamos que tinha sapo venenoso, sapo que mata, a gente pegava na maior inocência, sem medo, sem nojo, com encantamento. E claro, tivemos sorte, porque nenhum daqueles era igual a aquele que matou o Ruschi...

-E quanto às rãs?- estão me perguntando. Bem, sabe que não tem coisa melhor pra limpar o sangue do que caldinho de rã, e dar uma revigorada geral ? podemos encontrar, não muito facilmente, os pacotes congelados com aqueles corpinhos sem pele, já prontos para cozinhar. Mas é chocante, porque parecem bailarinas de 20 cms, bailarinas porque as coxas são supertrabalhadas. Tirei uma foto, quem quiser, me pede que mostro. Mas só se pedir...

E pra terminar, outra notícia sapal. Na Grécia teve uma saparia louca, milhares de milhões de sapos invadiram a rodovia de Tessalônica, na cidade de Langadas no norte do país. Tres carros derraparam na tentativa de evitar os sapos, e a rodovia foi fechada por duas horas.

Croac, croac croac....

21 May 2010

ninho


Os pássaros foram os primeiros arquitetos da face da Terra.

No outro dia estava eu andando aqui no quintal, e encontrei esta preciosidade. Fiquei ali parada, apreciando esta construção tão complexa, tão leve, tão perfeita. Não era a primeira vez que ficava cara a cara com um ninho de passarinho, mas cada vez que isto acontece, fico comovida. Como é que aqueles bichinhos conseguem fazer algo assim? sem mãos, só com o bico e aqueles pés aparentemente desajeitados? Já fiquei observando-os trabalhar: saltitantes, com movimentos rápidos e vigorosos, vão tecendo a sua casinha. Sabem exatamente como fazer... vão trazendo capim, gravetos. Que sabedoria, que habilidade.

Até os dias de hoje, somos inspirados por estas pequenas obras de arte. Lembra-se do palco de abertura e encerramento das Olimpíadas em Pequim de 2008? o Estádio Nacional, o principal estádio do país se chama Ninho de Pássaro (Niao Chao): feito de estruturas expostas de ferro e aço que se entrelaçam, lembra justamente um ninho de passarinho, considerada a jóia da nova arquitetura chinesa. Este é apenas um exemplo, das muitas que existem.

Tecer. Voar. Cantar. Os pássaros têm muito a me ensinar. Olho pro céu, e peço a sua bênção.

11 April 2010

adeus, semínima minha



Semínima estava com hipertireoidismo -entre outras coisas mais banais- tomando remédio humano... há um ano e meio ficamos tentando equilibrar estas taxas, com muito sucesso... mas o medicamento era tóxico, já havia atacado seu fígado uma vez... enfim... tudo meio bambo... volta e meia eu levava pra exame de sangue... emagrecia... recuperava um tiquinho... vomitava... melhorava... e agora de repente esta diarréia escura... esta falta total de apetite... tres dias e noites sem comer...

Uma pluminha ao léu. Uma velinha que se apagou. Um anjinho que recebeu o chamado da deusa egípcia Bastet e foi encontrar-se com ela. Mas não consigo ainda me conformar.

Será que estaria viva ainda se eu não a tivesse levado pra internar? tentei em casa, fiquei dando água de arroz e água de côco na seringa pra hidratar e alimentar, mas seria isto o suficiente? e por quanto tempo? E se ela morresse em casa? daí eu ficaria com culpa de não ter tentado salvá-la, tentado reverter a situação, tentado alguma coisa... tentado pelo menos. Quem sabe, ela poderia ter escapado de mais essa? pularia do barco do Caronte?

Não pulou.

Fomos enterrá-la no quintal. Tudo muito úmido da tempestade assassina de dois dias atrás. A folhagem toda verde vibrante brilhante, a terra molhada. Fresquinha. Cheia de vida. Cores fortes. Pulsante. E ela ali, inerte, que contraste da porra!!! Não tive coragem de olhar. Fiquei abraçada com a caixinha, sentindo seu peso-pluma no meu colo, mas não mais o seu calor. Conversando com ela, enquanto Milton cavava. Depois, ele cortou 2 lindas folhas de costela-de-adão gigantes, uma pra deitar seu corpinho, outra pra cobri-la antes de jogar a terra e colocar as pedras. Nesta hora, olhei pro céu.

Enterramos minha preta ao lado de Ismael e Mia. Enfeitei o seu túmulo com flores do jardim, plantei uma AMOReira e umas maria-sem-vergonhas em volta. Fiquei ali com ela, cantei a sua música (letra em cima da melodia de Frenezi):

eu amo tanto a Semínima
adoro tanto a Semínima
preciso tanto da Semínima
Sema semá minimá
minimá minimá

Adeus, minha preta mais linda, minha gata mais adorada, minha amiga, meu coração.

semínima



Morreu Semínima, minha gata preta, minha nota preta musical, de nariz preto lustroso, nariguda de olho preto que me olhava, e quando me encarava, ia lá pro fundo da minha alma. Morreu a minha amada gata, a que não podia morrer e me deixar deste jeito.

A que me buscava no portão todos os dias, na chuva, no sol, de noite ou de dia. Aí eu pegava-a no colo e ia subindo com ela até a varanda.

A que eu escovava por ser a mais peluda e que no ano passado teve que ter a barriga tosada, tadinha, de tantos dread-locks duros que haviam se formado. Porque no inverno ela adotava um casacão de pelo, com um boá em volta do pescoço, e aquilo tudo caía no verão e ela ficava magrinha.

A que eu deixava entrar e ficar em casa mais que os outros, a que eu dava quitutes especiais.

A que bastava eu chamar uma vez só, e lá vinha ela correndo se sacudindo toda, toda rebolativa, quer onde estivesse. Eu adorava.

A que ficava no meu colo, enquanto eu estava no computador. Meio inquieta, é verdade, porque o que ela queria mesmo era uns tiragostos. Mas ficava lá comigo.

A que era boa-boca, sempre disposta a encarar um “bom prato”. Na ceia noturna que eu dou pros gatos todos lá fora de noite, ela ficava até o final lambendo as minúsculas partículas que sobravam dos outros. Destestava um disperdício...

A que quando pariu, pariu logo seis, e gritando que nem gente. Nenhuma gata minha havia tido esta reação, todas pariam em silêncio. Nem consegui ficar ali. Fiquei muito nervosa, mas foi tudo bem.

A que gostava de dormir num banco alto, ao lado do fogão, deixando a cabeça pender até perder o equilíbrio e cair. Aquilo me dava uma aflição... sei lá... podia quebrar o pescoço...

A que eu pronunciava seu nome, e ela me respondia. Quantas vezes eu quisesse. Semínima -miau, semínima -miau, semínima -miau.

A que eu dava comprimido enfiando o dedo na sua boca, sem o menor medo, porque ela jamais iria me morder.

A que nunca brigou com outro gato. Semínima não tinha inimigos. Porque sempre tem umas inimizades num coletivo de gatos. Um rosna pro outro, estranha, dá umas patadas, mesmo os que são da mesma família. Tenho duas gatas, as mais novinhas, irmãs da mesma barrigada. Cresceram juntas a vida toda, uma mora em casa- a Aracy- a outra no quintal- Chiquinha, mas quando as duas se encontram, é um tal de dar patada uma na outra, rosnando... Aracy com Piteca, Fumaça com Aracy, Aracy com Colombina, Ping-Ling com todos... Pois Semínima era uma gata que nunca se indispos com outro, nunca. Mais que isto: tinha uns afetos sinceros, uns amigos do peito: por exemplo com a Colombina. Era um tal de lambe-lambe as duas se lambendo, tia e sobrinha, precisava ver. E também com Ismael, seu melhor amigo, viviam dormindo juntos, encaixadinhos, fazendo companhia um pro outro, até o final da vida dele.

Semínima, meu amorzinho, que saudade sinto de você, minha preta.




24 February 2010

carne assada


Febre sem estar com febre. Cabeça ficando maior e vermelha, maior e mais vermelha, maior e ainda mais vermelha. Desmaio iminente. Incapacidade de pensamento e locomoção. Irritabilidade. Cansaço extremo. Mente confusa. Dificuldade de se expressar. Sensação de que pele começa a não comportar o sangue nas veias, e a cabeça vai explodir. Princípio do fim. Tudo pode acontecer.

Calma, tento manter a calma.

Isto é o que está sendo o verão saariano de 2010. Alguém ligou o forno do céu em volume máximo, e virei uma carne assada. Não pego sol, saio de sombrinha (to lançando moda!), filtro solar, e mesmo assim, me pego fazendo os menores percursos, tirando casquinha de ar-condicionado em lojas e bancos, sem condições de viver: encontrar amigos, fazer aulas, pensar, criar, produzir, fazer meus projetos, cozinhar, dar geral... nada que possa fazer meu corpo revolver e minha mente mexer. Ficar parada é a única coisa viável, não consigo fazer, realizar. Preciso estar constantemente molhada, inúmeros banhos, ventiladores e ar. Corpo parado. Olhando pro céu azul numa sombra e suar.

Não me lembro de um calor como este. Até na Tunísia, onde passei 4 meses trabalhando no verão, senti tanto calor assim... tinha sempre uma brisa, uma sombra fresca. Não passei mal lá como agora, sentindo que iria desmaiar... era é muuuuuito bom!!! Aqui, o ar que desce do ventilador é quente, bafo de forno, e só se molhando é que há alívio... brisa? nada, tudo parado, e quando tem, vem quente. Lembra sauna. Uma constante sauna que não passa, são horas e horas a suar. As sombras viraram ítem obrigatório e de primeira importância na escolha de um caminho a percorrer.

E até gente que sempre adorou o calor, reclama. Mas pra não dizer que é tudo só inferno, tem a ducha que me refresca e me massageia. Um orgasmo a céu aberto, uma orgia de gotinhas fartas e fortes que caem num turbilhão de cachoeira nas minhas costas, cabeça tronco membros, me arrepiando de prazer. Tem as cigarras cantantes, tem a roupa que seca em horas: cê lava de manhã, e de tarde tá sequinha... Tem as frutas que são consumidas aos montes, em pedaços, em sucos, e as salaaaaadas que mastigo com volúpia, verdadeiras florestas no meu prato fundo. Desde que estamos pedindo orgânico, ah... é muito bom. E tem outra coisa: o mosquito da dengue não se cria nestas temperaturas tão extremas. Ficamos tranquilos, sem precisar vestir calça, meia, manga comprida. Nossa, em outros verões mais amenos, eu parecia um apicultor, só faltava a telinha na cara!!!

Nada de ligar o forno, eu que gosto de legume assado, essas coisas, melhor mudar de menu. No outro dia fizemos um souflé, tava tudo pronto me lembrei que tinha que ligar o forno. Foi um terror. Nunca mais. Pratos de forno só em maio!!!

Pensei: to doente. Preciso me cuidar. Mas quando olhei pras cachorras e pros gatos aqui de casa, todos imóveis, escornados, verdadeiras estátuas (chego a olhar se estão respirando), sem ânimo nem de receber carinho, aí vi que a coisa é geral. E quer ver eu recobrar os sentidos? é só passar por algum estabelecimento na rua que tenha ar-condicionado, ou entrar num táxi com ar: em poucos segundos volto à vida, o mal-estar acaba, meus pensamentos voltam a existir, consigo conversar com a pessoa do lado, minha cabeça volta a funcionar. É batata!!!

E pela primeira vez os noticiários daqui falam em "sensação térmica": a temperatura registrada é tantos graus, mas o corpo sente muuuito mais. Olha, isso existe mesmo!!! Eu já tinha ouvido e sentido essa "coisa" numa das vezes em que fui visitar minhas irmãs nos EUA no inverno: um dia saí pra passear à pé, tava um sol lindo, um frio gostoso, mas no meio começou um vento gélido, e não consegui mais curtir nada, tentava andar, mas aquele vento ártico me paralisava, e acabei voltando pra casa. Estava bem agasalhada, mas não conseguia evitar de me congelar: entrava pela roupa. Aí no noticiário da TV só se falava disto: sensação térmica. E ontem a nossa aqui empatou com a de Akjoujt, na Mauritânia, na região do deserto do Saara. Na terça de carnaval, foi a segunda maior do mundo, só perdendo para Gana!!!!

Muita coisa to transferindo pra maio. Aniversário, exames, vida social, projetos, qualquer coisa que exija de mim um mínimo de raciocínio, ou um mínimo de atividade física. Dizem que este calor veio pra ficar, todo verão agora vai ser assim. Preciso armar um esquema pros próximos. Curso de férias no exterior. Como adestrar ursos polares. Como fazer bonecos de neve criativos. Aprenda como alimentar pinguins organicamente. Ou então, trabalhar numa estação de esqui.

Não, nem um extremo nem outro... Procurar uma praia no norte (em Natal faz menos calor que aqui!!!). Ou nem tão longe: dizem que em Rio das Ostras, neste carnaval, ficava fresquinho de noite. Será? Ou talvez ir pra montanha: Friburgo? Teresópolis? Bocaina? Mauá? bem, até lá tem um tempinho, enquanto isso a vida rola aqui e agora, e vou me deslizando de suor pelos dias. Mas quando maio chegar...

29 January 2010

milagres


O ano novo entrou violento, arrebentando literalmente: enchentes, deslizamentos e mortes na Ilha Grande, Angra, e o terremoto apocalíptico no Haiti, cenas de pavor do mais terrível filme, só que este não é de ficção e nem vi no cinema, e sim na TV e nos jornais: trata-se da realidade.

De que maneira estas pessoas estão conseguindo viver após a catástrofe? comida e bebida sendo distribuidas com lentidão e desordenadamente, pois são multidões precisando. Filas tornam-se impossíveis de fazer. Comer, dormir, cagar, se tratar em caso de alguma doença... como fazer? E os saques, a violência, o desespero de quem está ali inteiramente entregue e sem nada mais pra perder? grupos inteiramente enlouquecidos matando por um quilo de arroz... a dor da fome é cáustico....

Tudo isto é muito triste. Mas no outro dia li uma notícia assombrosa, intitulada Meninas Superpoderosas, com fotos de 3 mulheres que foram retiradas vivas dos escombros, depois de mais de sete dias sem água ou comida, sem ar praticamente, em posições de desconforto e dor, sem poderem se mexer, e além do mais, e o que é pior, sem saber se iriam conseguir sobreviver, sofrendo a angústia de estarem soterradas e a dúvida se iriam ser salvas ou não. Não sei, a gente se surpreende com a gente mesma, mas se fosse eu... acho que teria me entregado nas primeiras horas... ou minutos...

Estas mulheres são um bebê de 15 dias, uma moça de 26 anos e uma idosa de 69. As fotos de cada uma delas sendo resgatadas são emocionantes, fotos de milagres. Milagres vivos ali, estampados numa página de jornal.

O bebê se chama Elisabeth Joassaint, e na foto ela aparece numa maca, sendo hidratada com soro, de olhos abertos, mão na boca, olhando tranquilamente pra aquele corre-corre em volta, não entendendo nada (com 15 dias a gente não entende nada, só vive o que nos acontece. Imagina então ouvir um estrondo, ser soterrada, e ficar na escuridão, sem mamar, sem sentir a mãe!!!), mas tranquila, sem chorar, sem se debater... talvez ela tenha se desesperado logo que aconteceu o desmoronamento, mas foi cansando até a exaustão... Esse bebê, é claro, não teve consciência do que havia acontecido, e do perigo que estava passando, portanto sua única angústia (e não é pouco), era não estar com a mãe, e o desconforto da fome e sede... Ela parece na foto com mais idade do que o texto diz, eu diria que uns seis meses. Será que o tempo que ela passou soterrada (metade da vida dela!!!) ajudou alguma coisa neste processo de envelhecimento? Diz o texto: “uma equipe de busca estava demolindo sua casa quando a encontrou na mesma cama em que dormia no momento do terremoto. A cama caíra no chão, mas o bebê não se machucou”.

A outra “menina” é Anna Zizi, de 69 anos, que foi retirada das ruínas da catedral de Porto Príncipe. Na foto, ela aparece toda suja de terra, pedaços nos cabelos grisalhos, e a boca (sem dentes) aberta, sendo hidratada pela equipe de salvamento com a água de uma garrafinha de plástico. Diz o texto: “Anna saiu dos destroços cantando... médicos que examinaram Zizi disseram que ela estava desidratada, que havia deslocado o quadril e quebrado uma perna (imagina a dor!!!). Ela contou que após o tremor conversou várias vezes com um padre que também ficou preso. Após alguns dias, não mais teve resposta dele e disse ter passado o resto do tempo rezando e esperando, sozinha. -Só conversei com o meu chefe, Deus, e não precisei mais dos homens-disse ela”.

E finalmente, a última que se chama Lozama Hotteline, de 26 anos. Lindona, com um riso iluminado, sorriso de dentes branquíssimos, também numa maca, segurando uma garrafa de água, saiu dos escombros cantando e rindo.

P.S: entre o dia que escrevi este texto e o que publiquei, retiraram um rapaz, que ficou soterrado sob um bar e se salvou bebendo refrigerante (!!!!!) e ontem, 15 dias depois do terremoto, resgataram mais uma moça. Até sua família se surpreendeu ao saber que estava ainda viva. Chama-se Darlene Etienne, de 17 anos, retirada da Faculdade St. Gerard, em Porto Príncipe. Ela ainda teve forças pra agradecer os bombeiros!!!

09 January 2010

meu calendário


Foto da capa do meu calendário de aquarelas e gatos de 2010.

Talvez a melhor coisa que eu tenha feito no ano passado foi o calendário de gatos. E quase que não sai, porque no final ainda faltava pinturas pra completar os 12 meses, e dentre os que estavam prontos, havia uns que não me agradavam, poderiam melhorar, ou eu poderia fazer o bicho de novo, a partir de outra foto melhor etc etc... Enfim, foi um parto.

Tudo começou há muitos anos, quando conheci os calendários grandes temáticos (sapos, gatos, cinema, pinturas de um artista famoso, natureza e por aí vai), que minhas irmãs me mandavam, e que passaram a ser ítem obrigatório nos pacotes de presentes de natal. Você abre e pendura na parede, uma banda tem uma bela imagem, a outra vem com uns quadrados em cada dia, grandes o suficiente para anotar consultas médicas, aniversários etc. Desde então, não mais esqueço os meus compromissos. Um prático e poderoso aliado no corre-corre do dia-a-dia, e pra esta mente um tanto distraída!!!

Imaginei fazer um daqueles algum dia na vida- mas era um desejo como milhares que tenho e que depois esquecidos (entre querer fazer e conseguir realizar... vai muita distância!!!!). Aí comecei a aprender aquarela -por outras razões- e a coisa foi acontecendo aos poucos.

Meu calendário não é de parede: é pequenininho, de mesa, 10X10 cms. Mas fiquei orgulhosíssima, e tão feliz por ter realizado algo, e não ter ficado só no sonho. Sim, porque sonhar é comigo mesma, tenho inúmeros projetos, mas... fazer que é bom...

Na verdade, ninguém estava acreditando que eu fosse concluir, e pra falar a verdade, eu também não. Nem também me lembro quando foi que o que eu estava fazendo na aula virou um futuro calendário. Foi acontecendo, sem eu ter percebido, sem eu ter tido consciência. Só nos últimos meses é que me dei conta, e aí foi uma corrida contra o tempo pra entregar na gráfica. Claro que só ficou pronto no dia 23 de dezembro, mas ficou!!!

Aqui estão as Misses e os Misters dos meses: são gatos meus: uns já se foram, outros estão aprontando por aqui, todos vivendo no meu coração. Atendem pelo nome, e vêm quando eu chamo.

Na aquarela sou aprendiz, ainda falta muita tinta, papel e pincel para que eu realmente domine a técnica (será que ela é dominável???) - por enquanto dificílima pra mim- mas aqui estão os meus bichinhos, desejando a todos um FELIZ 2010, pleno de saúde alegrias e afetos, e um mundo mais justo para todos os seres da Terra.
Fumaça- contracapa e porta-voz

href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh_jv1qOgwReog64X5klsuWXq38gMYAvr6z2sFs5gHrImVpHFG9Qge51YLj0UyyNk0OkxZO7wvIom8b135tgfrA-yoZGUh6rqhfMGcwBZg_52vetyHyzA7tdB18tBrCsOGnNrdD/s1600-h/Mambazo.JPG">Mambazo- Janeiro

Ping-Ling- fereveiro

Semínima- março

Família- abril

Piteca- maio

Colombina- junho

Mia- julho

Ismael- agosto

Coquinho- setembro

Gong-Li- outubro

Aracy- novembro

Chiquinha- dezembro

06 January 2010

viro a página


Com muito menos postagens do que costumo escrever, eis que o ano de 2009 de repente se evaporou. Foi ficando pequeno, pequeno, cada vez menor e sumiu na curva de uma estrada, bem lá na linha do horizonte. Não deu tempo de fazer muita coisa, quase nada. Ainda berrei seu nome, tentei chamá-lo só para me despedir, mas ele nem se virou pra me olhar, correndo correndo correndo, sempre com pressa, como se fosse para tirar o pai da forca.

Já foi tarde!!! quero vê-lo bem longe... E saúdo 2010 em pleno Dia de Reis, virando mais uma página, com foto mandada pela Maína!!!

Nada é o que não foi há uma semana ou um mes atrás, mesmo assim viro a página, pois viver é seguir. O que esperar? não sei. Resoluções? não fiz. Faço uma agora: neste instante ouço umas gotinhas mínimas de chuva que caem muito suaves nas folhas, mal dá pra escutar, se não fosse o silêncio deste instante, passariam despercebidas. O som é tão atraente, me descansa o olhar e nutre o meu sangue. Tudo é calmo. A temperatura está amena, aquele bafo de 45 graus centígrados deu um tempo. Céu de lindo branco-acinzentado, sem sol.

Mas... isto lá é resolução? lendo nas entrelinhas, é: viver o momento presente. Estando agora aqui, que me importa o mês que vem? a semana próxima? tudo ficção. Realidade é que agora as gotas caem quase parando, hoje é primeira quarta-feira do ano, voltei a escrever no blog. Pronto.

Minha cabeça não costuma funcionar assim, mas tem que aprender- e vai!- de agora em diante. Afinal, tudo é treino, tudo é aprendizado, e quero aproveitar com alegria o que tenho, enquanto posso. Pode parecer sem sentido, lendo assim, mas não é não. Pode parecer texto cifrado, talvez seja. Mas tenho certeza de que, com esta atitude, vou conseguir até transformar o que é ruim em bom. Nada está escrito nas estrelas, e embora não se possa controlar a vida, sempre existirão maneiras de passar pelas pedras do caminho sem se machucar tanto.

12 November 2009

não deu tempo...


Fui assistir THIS IS IT, o filme do que seria o último show de Michael Jackson, se não fosse a sua morte inesperada, 18 dias antes do primeiro show. Era pra ser uma série de 50 shows, que se realizariam entre julho de 2009 a março de 2010 no 02 Arena em Londres, com lotação esgotada meses antes: dois milhões de pessoas de todas as partes do mundo se inscreveram para a pré-venda de ingressos, e quando postos à venda, foram-se assim! os ingressos mais rapidamente vendidos da história, o público mais numeroso para um artista numa só cidade. O filme era pra ter sido uma coisa privada, somente para constar de seus arquivos pessoais, sem nenhum plano para divulgação de imagens. Acredito que ele não gostaria que estivéssemos vendo a obra ainda por fazer, seus drafts, mas com a tragédia, é um premio de consolação para nós, seus fãs do mundo inteiro, que jamais vamos vê-lo outra vez. Uma saudosa despedida.

O que é que a gente faz depois de um filme destes? como é que se engata o cotidiano, e segue-se adiante?

Quando o filme acabou, o cinema aplaudiu em peso. Fui a última a sair, assistindo aos créditos e a várias vinhetas-surpresa. Nem sei descrever direito o depois. Me levantei da poltrona literalmente tonta, e vi que todos já tinham ido embora. Queria ver de novo. Saí trôjda, zonza, andando em zig-zag. Trôpega em pleno Largo do Machado, e... o que fazer? pra onde ir? me arrependi de não ter assistido a mais uma sessão logo em seguida. Tava querendo mais. Mas ao invés disto, comprei um sorvete, e vim tomando pelo caminho, neste dia de tanto calor, andando e pensando e sentindo, sentindo e pensando e andando...

Ver o Michael tão vivo ali, tão presente, tão ativo, tão intenso (apesar de dizer que estava querendo se poupar, ele se entrega inteiro, sob aplausos de todos que o estão assistindo) é um choque, porque é a imagem de uma coisa que era pra acontecer, mas não deu tempo. Um filme de uma despedida em que os protagonistas não sabiam se tratar de tal... Muito difícil e muito doloroso acreditar que ele não está mais aqui, que este show não rolou nem vai rolar... nem este, nem outro nunca mais (nunca diga a palavra nunca, mas neste caso, é nunca mesmo!). Difícil pelo absurdo da situação: saber que não temos mais o que vemos ali em plena forma (apesar de não ter feito show há anos), inteiraço (apesar das notícias nefastas de cadeira de rodas, máscaras, remédios, vida conturbada, atitudes grotescas, escândalos de pedofilia jamais comprovados). Fisica e psicologicamente inteiraço, comandando, sabendo exatamente o que quer (“essa nota não!”), dançando com uma precisão de acrobata chines, cantando divinamente, dirigindo os músicos, fazendo os arranjos, corrigindo a coreografia (“esse dançarino deveria sair antes”), dirigindo o show inteiro junto com Ortega. E de uma maneira inteiramente encantadora, doce e gentil. Gentileza para com os colegas e vice-versa, distribuindo sorrisos cativantes, mostrando humildade ao admitir deslizes (sorry!). Coisa rara, em se tratando de estrelas de primeira grandeza, que nem sempre mostram este cuidado. Uma pessoa especial.

Não quero tirar a surpresa de quem ainda não viu. Só digo que é imperdível. Não é preciso nem falar aqui -mas falo- de todo o extraordinário elenco de artistas envolvidos no projeto, desde o diretor Kenny Ortega, que consulta MJ a cada momento, aos dançarinos "invertebrados" e feitos de látex, ao time monumental dos músicos, aos cenários e efeitos especiais high-tech, 3D, MJ no bar assistindo Rita Hayworth cantando, Humphrey Bogart caçando-o de metralhadora, enfim... o maior show de todos os tempos, e como MJ diz: “quero que o show leve as pessoas a lugares onde nunca foram, e impressione como nenhum outro já visto”. Pode crer que era isso que iria acontecer. Menciono ainda tres mulheres simplesmente inacreditáveis: a Mekia Cox, uma negra inteiramente fantástica de uns dois metros de perna, com uma andada e uma cara pra lá de deliciosas, que dança com ele em This Is The Way You Make Me Feel; a Judith Hill (americana de mãe pianista japonesa e pai músico negro de funk), backing-vocal que faz duo com ele em I Just Can’t Stop Loving You e a louca guitarrista inenarrável Orianthi Panagaris- que nome!- (australiana, descendente de gregos), que, alucinada, segue-o no palco em diversos números e toca absurdamente.

É comovente ver como Michael é amado e respeitado pelo elenco (“estamos aqui por ele, e que ele continue nos guiando no caminho”), e vice-versa. Família.

Uma parte é dedicada ao Jackson 5, e MJ cita o nome de cada um deles, dizendo, emocionado, que os ama. A gente assistindo assim, começa a chorar... Uma hora em que me lembrei de Jimi Hendrix (acho que foi uma citação proposital) quando MJ joga o paletó no palco, queima-o (Jimi queimou a guitarra) e ele se ajoelha ao lado do casaco queimando (no ensaio, é só a marcação), e faz aqueles movimentos do Jimi com as mãos imitando labaredas.

O filme é dedicado aos seus tres filhos: Michael Jr (Prince), Paris-Michael e Prince Michael (Blanket). No final, outra cena "forte", de molhar os lenços: uma roda com todos os participantes, Michael agradece a presença, a energia, o trabalho, a união, a dedicação de todos. A gente sente a energia intensa que circula naquele momento, agradece e sai do cinema com lágrimas.

É pra ver várias vezes, com a certeza dolorosa de que perdemos o maior artista de todos os tempos.

11 October 2009

Ismael


Ele nasceu de uma ninhada de 4 gatinhos (irmão de Colombina, Fumaço -que dei- e de Mia, que morreu em maio de 2007, ver neste mesmo blog), e resolvemos ficar com ele porque era tigradinho, e estávamos sem nenhum exemplar desta cor (Tigrinha tinha morrido e Suleiman havia sumido, saiu pra passear e só fomos encontrá-lo um ano e meio depois). Era uma época em que éramos contra castrar (deixa trepar!!! é a natureza!!!), e ainda queríamos ter um gato de cada variação de cor pelo menos (amarelinho claro, amarelinho escuro, preto e branco, preto, cinza, tigrado de cinza, tigrado de marrom, branco e lá íamos nós...). Quanto mais gato melhor, e gata, melhor ainda, por causa das ninhadas!!! Então neste clima de paz e amor, há 14 anos nasceu o Ismael, filho de Violeta.

Como a gente muda! hoje em dia acho a castração fundamental e imperativa para evitar o abandono e a crueldade humana com os bichos em geral, com os gatos em particular. Depois de ter dezenas de ninhadas, cuidar dos filhotes e dá-los a pessoas de confiança, consegui me fixar em um número certo (na época eram apenas 13, que agora são oito).

Desde cedo, vi que Ismael ia ser um gatinho carinhoso, dócil e amoroso. Seu nome foi em homenagem a Ismael Silva, grande sambista que começou a fazer samba de um modo diferente, menos amaxixado como era a moda de então, e mais parecido com o samba que se conhece aqui no Rio hoje em dia. Ismael (sambista) foi o fundador da primeira escola de samba, o Deixa Falar. Quando adulto, Ismael (gato) enfrentava os gatos que vinham da rua, era forte, valente, e defendia seu espaço com muita garra. Mas como a contradição habita nos corações e mentes de todos os seres vivos, ele não podia ouvir um trovão nem de longe (ver neste blog em janeiro 2008, medo de tempestade). Quando ainda no horizonte ameaçava-se uma tempestade -podia até ser um começo, com um vento mais forte- ele começava a miar alto, chorar em forma de eeeaaaaauuuuu (quem tem gato sabe que cada miado quer dizer alguma coisa, e é tudo diferente. Nós, os humanos, passamos a identificar cada palavra de gatês. Esta é de pavor). Aí ele tratava de se esconder ou em baixo da mesa, ou num canto da casa, ou atrás da máquina de lavar. Sumia. Tinha vezes que eu chamava por ele pra colocá-lo pra dentro e não se molhar, mas nada. Tinha sumido. Gente estranha também não era confiável (podia ser veterinário, sabe-se lá...), e volatilizava-se. Na hora da vacinação coletiva então, quando eu prendo todo mundo num cômodo da casa, ele fazia um escândalo de arrepiar, parecia que estava sendo torturado.

Gato ensina muita coisa pra gente. Aprendo com eles muita filosofia, matemática, terapias orientais, acrobacia, meditação, coordenação motora, cálculo aerodinâmico, massagem aurivédica, técnicas para um sono perfeito, exercícios para desenvolver a intuição, entre outras coisas. Ismael também me ensinou na prática que quem tem medo não mama, ou vendo por um outro ângulo, o seguro morreu de velho: depois que acostumei a população felina a ficar fora de casa, ele dava valor à liberdade e quando eu o colocava pra dentro pra dar uns tiragostinhos especiais, ou mesmo pra ficar com ele no colo na cadeirabalanço vendo um filme, ele ficava ali mas lá olhando pra porta, que tinha que estar aberta. Se eu fechasse com ele dentro, entrava em pânico e começava a miar em forma de eeeaaaaauuuuu. Na cabecinha dele, ficar fechado dentro de casa coisa boa não era: ou ia ser espetado, ou manipulado, então era melhor ficar lá fora por via das dúvidas. Bem, não posso culpá-lo, pois muitas vezes era isso mesmo: uma medicação, uma limpeza de ouvido, veterinário à domicílio... mas eu ficava chateada, querendo dar uns agrados só pra ele sem ninguém ver, e ele sem querer entrar...

Pra cada gato, fiz uma letra pra uma melodia do “cancioneiro popular”. E todos sabem seus nomes e suas respectivas músicas. A do Ismael era em cima daquela música do filme Noviça Rebelde, Edelweiss. A letra é assim.
ISMAEL ISMAEL
É UM GATO VALENTE
ISMAEL ISMAEL
É MEU GATINHO FIEL EL EL EL

Quando eu o pegava no colo e começava a cantar a sua música, ele esfregava sua cara no meu pescoço e começava a me dar umas mordiscadinhas de amor. Mmmm, era muito bom! eu ficava arrepiadinha. Aquilo era característico dele, só ele fazia, e era uma demonstração tão grande de afeto entre gato e gente, um entendimento perfeito, um captar de vibrações mútuas e harmoniosas que nunca mais vou esquecer.

E com as gatas? pra ver só: Piteca e ele tinham um namoro firme, estavam sempre juntos e abraçadinhos. Depois, mesmo castrado, ele tinha um caso com a Chiquinha: quando ela aparecia (ela fica lá pelo quintal) e com seu cheirinho que ele sacava logo, pronto! começava a miar num ritual sestroso, e cheirava, se esfregava nela, e ela também tinha essa atração por ele. Dormiam juntos muitas vezes na mesma caixinha, realmente se amavam. Aqui primeiro ele com Piteca, depois com Chiquinha:




Semínima, minha gata-mór era sua melhor amiga. Viviam juntos e também dormiam juntos na mesma cadeira, na mesma caixa. Eram parecidos de temperamento: gato-gente boa, da paz... tenho inúmeras fotos dos dois juntinhos, pintei até uma aquarela. Ei-los:


Pois Ismael de uns tempos pra cá vinha tendo umas coisas estranhas. Era um dedo que deu bicheira e teve que ser amputado porque não cicatrizava, umas coisinhas aqui, outras ali. Comecei a notar que ele pouco saía de seu caixotinho, parecia meio triste, sei lá, e em fevereiro deste ano descobri que ele estava ficando cego! mas mesmo assim se interessava pela Chiquinha, por comida e quitutes, banho de sol, estes simples prazeres da vida felina. Quando foi terça agora, quando cheguei tarde de noite da aquarela, ele não saiu lá de trás, e quando fui ver, estava com as patas de trás paralizadas!!! Que visão horrorosa. Chamei um taxi correndo e fui pra veterinária. Meia-noite estava lá. Dr. Murad disse que talvez fosse ser hérnia de disco, mas como ele era cego, o itinerário dele era caixinha, comida, água, xixi e voltava pra caixinha, então seria difícil ser tombo, ou pulo mal dado, e me aconselhou vir no sábado pra falar com o veterinário neurologista que atende só neste dia, ele poderia me dar um diagnóstico mais preciso. Passou um corticóide e fiquei de ligar pra ele no dia seguinte.

Fiquei inconsolável. Apesar de ele me acenar com uma reversibilidade, eu olhava e pensava- isso tá muito ruim. Cego, idoso e agora paralítico: o rabo e as pernas de trás estavam inteiramente inertes, pendurados. Por um dia meu gato foi aguentando e sofrendo. Como ele foi sempre tão limpinho, quando queria fazer xixi, saía de sua caminha, se arrastava prum canto e fazia deitado. Sofria calado, com um olhar tão doce...

Sou muito fraca pra sofrimento de bicho, chego a passar mal. Eis que na quinta-feira de repente Ismael começou a ter uma hemorragia: era muito sangue saindo por trás. O céu diluviando, sem um táxi disponível, Santa Isabel me socorreu e me levou no carro dela para a veterinária (valeu, Bel!!!! sem palavras!!!), daí interna, medica e espera. Diagnóstico: a paralisia afetou o aparelho urinário e intestinal, ele já não estava conseguindo fazer suas necessidades, tinham que apertar pra drenar. Com muita tristeza fui vê-lo na internação na sexta, ele lá deprimido tomando soro, sem muita reação. Conversei muito com ele, falei pra ele o quanto eu o amava, cantei pra ele (reconheceu sua música) e, meio que já sabendo, senti que estava me despedindo. No sábado conversei com o neurologista que o examinou e confirmou o que todos já desconfiávamos: era uma doença dos nervos, e que o quadro era irreversível. Pela primeira vez, tive que assinar uma autorização para a eutanásia, convencida que era a melhor solução pra ele. Eu também, antes de conversar com o médico, estava achando que era a única solução, não dava pra continuar este sofrimento. Mesmo assim, na hora foi estranho assinar. Uma sombra tomou conta de mim... fiquei meio enjoada... fui dar uma volta pela praça, e só depois de uma hora voltei para pegá-lo, dentro de sua caixinha.

Quem tem bicho sabe a dor que é quando morre um. Não interessa se temos outros, aquele é único, aquele tem contigo uma relação singular, é que nem com amigo: cada um preenche um pedacinho do que é você, cada um é uma relação diferente, uma parte de você que outro não substitui.

E falando em amigo, preciso dizer que Milton me acompanhou em todas estas idas ao veterinário, inclusive porque ele era o co-responsável por Ismael, e tinha um carinho imenso por ele desde que era filhote. Milton foi fundamental principalmente neste último dia, porque eu não lido bem com a morte. Não consigo olhar pro morto, não quero ver porque depois fica a imagem na minha cabeça aparecendo sem mais nem menos me assombrando. Com gente também, não dá pra olhar. Sou muito impressionável. Então foi ele que carregou a caixinha, e depois teve a coragem de enterrá-lo.

Enquanto ele cavava lá em cima, aqui em baixo me deu uma louca de dar uma geral na cozinha (chão inclusive), lavar toda a louça e fazer um almoço, que acabou sendo o jantar. Catarse. Me catar. Chovia o tempo todo (desde quinta-feira), a terra estava mais fofa do que o costume, e estava frio. Quando achei que já podia subir ao quintal, fui e enfeitei sua cova. Plantamos uma folhagem e umas maria-semvergonhas. Ficou bonito. Aliás, toda a floresta estava bonita, bem verde e molhada, brilhante. Silencioso. Um verdadeiro templo. E lá ficamos por um bom tempo, eu e Ismael. Meu gato fiel.

22 September 2009

friburgo


Antes que acabe setembro (papagaio!!!!!!), vou rapidinho deixar uma nota.

Não sei onde foi parar este mes, mas me lembro como começou: fiz uma viagem adorável a Friburgo com Verônica, minha super-mestra de aquarela, que estava inaugurando sua belíssima exposição no SESC de lá. Foi ótimo, super-divertido, o tempo estava delicioso -nublado, fresco- e aproveitei pra ficar uns dias depois pra visitar o Mario, meu parceiro de tantos anos, pianista e compositor, que depois de ter vivido por anos na Europa, mora agora nesta cidade serrana.

Fazia tempo que eu não ia a Friburgo... esta cidade tem um passado pra mim -eta!- um passado de muitas lembranças. Pra começar, foi lá onde cantei em público pela primeira vez: no coreto da praça principal (este da foto, continua igualzinho). Foi uma apresentação de tarde para divulgar o show que faríamos no Clube dos 50 (que ainda existe, e no mesmo lugar!) de noite.

Quem "faríamos"? Nós: Stul, Lemgruber, Trajano e eu: o embrião da Equipe Mercado. Lembro do frio que fazia quando, depois do show, lá nas madrugas, ficamos amontoados sentados no meio-fio da rua deserta, esperando a rodoviária abrir e o primeiro ônibus chegar pra nos trazer de volta pro Rio. Nós acampados ali com aparelhagem, instrumentos, mochilas, cheios de fome, mas felizes de termos feito nosso primeira apresentação, sonhando com todo o nosso futuro musical pela frente, e nessas horas se sonha alto e sem pudores!!! Sucesso, Glória, Fama!!!! sim, porque com 22 anos, tudo ainda está por acontecer. Eu era uma criança. O futuro pela frente. Cor-de-rosa bebê.

Friburgo continuou fazendo parte do meu caminho. Conheci o Mario nos anos 70 e passamos a tocar juntos no Diana & Stul. A sua mãe morava lá, volta e meia íamos visitá-la. Que delícia! Nesta época, meu espírito era a de uma adolescente romântica, hormônios explodindo, ardendo em vermelho-paixão, mas começando a conhecer o “heavy metal” da realidade que é a vida, em que o vermelho-sangue se fundia com um cinza-chumbo, reforçado por um verde-oliva dos tempos sombrios. Futuro? que futuro? eu vivia no presente total, como se não houvesse um amanhã!

Depois nos anos 80, quando voltei da Europa, dei aula no Conservatório de Música de Friburgo, e também foi muito bacana. Aí já era uma mulher feita, embora com lampejos daquela outrora adolescente, começando porém a desconfiar que.... o futuro estava chegando ali na esquina, e se eu não começasse logo a realizar os meus sonhos, ia acabar sendo tarde demais. Comecei a entender a fundo o significado da palavra "angústia"... Uma época verde-bandeira bem brasileira, bem verde de esperança enfim.... salve lindo pendão!!!

Sonhos azuis fluindo em amarelos e laranjas... sonhos dando lugar a outros... eu me transformando em outras à medida que o tempo nadava num mar ora sereno, ora revolto... azul-cobalto, azul-cerúlio, azul da prússia, turqueza, indigo blue...

Friburgo mudou, mas eu mudei mais ainda, muito muito mais. Tantos personagens, tantas criaturas. Me reconheço em todas, mas estão tão distantes desta que hoje chamo de eu, que às vezes parecem outras pessoas. Mas não! elas sou eu, e se eu for bem procurar, posso até reencontrar em mim cada uma delas, num olho nos olhos que me dou no espelho, ou num breve segundo atravessando a rua, ou fazendo carinho no gato numa tarde chuvosa, ou passando por uma inesperada seta onde leio a palavra Galdinópolis, numa singela estrada de barro, ou tirando uma foto ou cantando uma canção... Vai ver que é isto que chamam maturidade. Envelhecer. E fico só imaginando as outras que estão por vir. De todas as cores. Ai! mal posso esperar pra conhecê-las!!!

17 August 2009

um banho, um prato, uma cama


Como preciso de coisas de que não preciso! coisas que colorem, animam, distraem, dando graça aos meus dias. Brincam em volta de mim, e me fazem sorrir. Biscoitos, batons, bolsinhas, almofadas, chapéus, sapatilhas, cumbucas, flores, brincos, molduras, bibelôs, toalhinhas bordadas, móbiles... são pequenos detalhes, tão necessários para a minha saúde mental, indispensáveis para não perder a razão.

Mas numa “situação extrema”, se eu tivesse que escolher tres coisas de primeira necessidade -só tres coisas- escolheria
1. um banho
2.um prato
3. uma cama
Aparentemente, são necessidades físicas, mas ah... como fazem bem ao espírito!!! Aliás, corpo e mente, tudo a mesma coisa.

Ao primeiro ítem. Um banho. Um banho limpa, um banho relaxa, um banho renova, um banho tira o cansaço . De preferência, um banho morno a levemente quente (menos no verãozaço, aí é frio mesmo e vááááários). A pele fica suave, volta a respirar. A gente se sente outro, depois de um bom banho.

Banho é coisa de índio e oriental, os europeus não tinham esta prática, achavam até que fazia mal. Foram aprender com os japoneses e chineses, e depois com os índios da América. Aliás, até hoje não são todos que tomam banho diariamente... na Europa não é raro encontrar quarto sem banho em hotéis pequenos. Como se lavam? água da torneira numa pequena bacia, nela mergulha-se uma toalhinha, às vezes sabonete, dão uma esfregada, axilas, pescoço, uma gotinha de perfume e pronto!!! é o que aqui chamamos de banho de gato, se bem que de gato não tem nada. Gato se “lava” muito mais: se lambe exaustivamente e fica limpinho, cheiroso.

Pois estranhei muito, e, por mais frio que sentisse, fazia questão do meu banho diúrno. E olha que passava frio. Teve um inverno em Paris que não havia calefação no ap em que eu estava, de noite fazia -1ºC no quarto, chegou a gear na Cidade Luz. Pois era um ato heróico tirar a roupa, pra começar. Era melhor ser rápido, e entrar na água correndo. E pra sair daquele morninho e enfrentar aquele ar gelado?

Pior foi em Barcelona. Teve um tempo em fiquei hospedada num lugar em que o chuveiro ficava dentro de um tanque numa varanda envidraçada, o ar gelado entrava pelas frestas, era preciso tirar a roupa, escalar o tanque, e só aí abrir o chuveiro, que quando chegava no meu corpo já estava frio, de tão frio que estava o ar naquela varanda. Foi num inverno em que nevou em Barcelona depois de 20 anos!!!! estavam todos maravilhados. Eu também, mas o meu amor ao banho passou por vários testes ali....

Ao próximo ítem. Um prato de comida.

Até aguentaria ficar horas sem comer, mas não gosto... e pra quê??? Primeiro porque não faz bem mesmo: vai dando aquela dor de fome no estômago, depois passa, esqueço, e quando enfim vou comer, acabo comendo quatro vezes mais. Às vezes dá até taquicardia (leve...). E segundo: não tem coisa melhor do que comer. Poderia escrever um livro sobre este prazer maior, tamanha a minha paixão pela comida. Mas não é qualquer coisa não- pois não como carne há quarenta anos, não gosto de gordura, fritura, açúcar. Em compensação, adoro todo o resto, e QUANTIDADES. Detesto aquela coisa chique daqueles pratos que a comida parece desenhos no prato... racionada, porções microscópicas. Não me convida que vou ficar triste... quero comida farta. Que me sustenta, me faz brilhar, me faz pensar.

E finalmente, uma cama. Não mole. Com lençóis limpos, com cheirinho de sabão. Deitar o corpo, relaxar, sonhar, se renovar.

Dormir é uma bênção. Dormir bem, um sonho!!! Quem consegue não têm direito de sentir depressões. Quem não consegue, que se cuide, porque a loucura tá atrás da porta.

Tenho muitas insônias (aí nem adianta uma cama!), não consigo me entender com meu travesseiro, noites virando de um lado para o outro, às vezes é preocupação mesmo, outras, nada: estou ligada, pronta pra qualquer evento, menos dormir. E como levanto cedo, fico cada vez mais puta de não estar conseguindo, e as horas passam voando: olho, são 2:00, quando vou olhar de novo, 3:45!!! E não é o caso de me levantar, ligar o computador, ou ler um livro, ou ver TV “pro sono chegar”: não! só se eu desistir de dormir mesmo, porque isso tudo vai me ligar mais ainda, e vou virar a noite. Tomar tarja preta, só em último caso, então fico tentando tentando, e finalmente o sono vem, mas aí já são 4:00 ou mais ou bem mais. E se passo várias noites dormindo mal, começo a achar que to pirando, fica uma atmosfera estranha nefasta sinistra rondando a minha cabeça, uma nuvem espessa que me faz ver tudo torto e distorcido. É muito ruim. Agora mesmo to saindo de uma fase destas, e ufa! é uma bad trip, falo como boa entendedora do assunto.

Ah, mas quando consigo dormir bem é como um presente, me sinto tão bem no dia seguinte. Acho que pra mim talvez seja mais importante do que comer (hmmm... será? melhor não comparar he he).

Um banho, um prato, uma cama. Mas como não estou passando por nenhuma “situação extrema” e não to precisando escolher 3 coisas básicas, quero as minhas mil coisas desnecessárias. Preciso delas loucamente. Quero andar pelo SAARA, olhar para aquela porção de coisas balançando na entrada das lojas uma ao lado da outra, as cores, os formatos, escolher umas bobagens. Flores de papel, um brinco de argola, durex prateada, recipientes de plástico, lixa pra unhas, bananadinhas sem açúcar, descascador de legumes, papel de presente, erva-doce, fitas coloridas, cestinhas, tinta pra tecido, espelhinho, incenso, sorvete, envelopes, vasos, boás, chapéus... O que seria de mim sem estas “desnecessidades”?????

06 July 2009

heavenwalk


Foto de Anne Leibovitz, 1989, capa da revista Época, 29 junho 09: Michael Jackson em equilíbro máximo, asas abertas, prestes a levantar vôo.

Tentei escrever durante a semana passada, mas escrevia e deletava, deletava e escrevia e deletava de novo, ficava uma frase, duas, mais umas palavras, deletava tudo... não sabia como começar, não sabia como escrever, não sabia não sabia como iria dizer... estava estupefata... perplexa, besta, boquiaberta num estarrecimento ensurdecedor imóvel e mudo. Michael Jackson. Não conseguia acreditar. Morreu. Assim. Com ele, um pedaço de mim. Um dos meus melhores pedaços. Um dos meus pedaços mais felizes. Fiquei despedaçada, destroçada, apatetada.

Michael é o exemplo de que a perfeição existe. Sim, existe sim a perfeição. Ele. Rei do pop? coisa boba, coisa pequena. Que ralo este título... não faz jus ao seu talento. Michael foi muito mais do que isto. Ele foi um deus. Apolo e Dionísio num mesmo ser. Gênio. Único. Jamais haverá igual. Não tem pra ninguém. Diz então quem!??? Ótimos dançarinos, cantores existem, mas Michael era isso tudo vezes mil. Exageradamente perfeito. Desafiava a lei da gravidade e os limites da criatividade, genialidade, precisão e perfeccionismo. Intenso intensíssimo, muuuito muito forte muito vibrante, tudo muito. Em sua vida profissional- de 45 anos- ele conseguiu fazer o que normalmente se faz em 100, e na maioria das vezes, nem isso! Cantor, compositor, dançarino, coreógrafo, produtor, mega-talento. Desde cedo um verdadeiro fenômeno, desde criança carregando a semente de um gênio- basta ouvir It’s Your Thing, Get It Together, Dancing Machine, Give Me One More Chance por exemplo, e o blues Who’s Loving You (todas com o Jackson 5) - UÁU!!!!- pra comprovar que sua interpretação de criança em nada ficava devendo aos grandes intérpretes adultos que faziam sucesso na época. Como é que uma criança pode passar tanto sentimento cantando sobre temas que só um adulto conhece? e cantando melhor!!!

Dedicação total à sua carreira, buscando alcançar a perfeição. Sofreu acidentes durante ensaios extenuantes (nariz quebrado, couro cabeludo queimado), que o deixaram com sequelas graves como dores e operações nasais, e que contribuiram para o seu fim trágico. Homem belo e sensual, ente mutante metamorfósico inesperado inusitado estranho raro, rosto transfigurado que no fim sorria e se contorcia numa máscara kabuki de atos contraditórios e polêmicos, como a suposta pedofilia (jamais provada) e seu embranquecimento. Quanto mistério nesta pessoa que ninguém conseguiu entender (a compreensão é tão limitada), quantos pontos de interrogação sem resposta. Coisa que nunca teve relevância pra mim: nunca me liguei na sua vida pessoal, porque o que me interessava realmente era a sua arte, sua luz que me iluminava, e isto era tudo. O resto, tanto fazia... E no final, é a sua divina arte que vai ficar daqui a 50, 100 ou 500 anos...

Billie Jean, Thriller, Beat It, Dirty Diana, Black and White, Don’t Stop ‘Till You Get Enough, Rock With You e tantas... Adoro cada uma de suas músicas, mas HUMAN NATURE tem um sentido especial pra mim, e na época que estourou... me lembra de uma fase maravilhosa na minha vida, de fatos, cheiros e mega-sentimentos, das festas no escurinho do sótão da Oriente, dançando iluminada pelo cialume brilhante, pista cheia, todos vivendo momentos prazeres inesquecíveis inenarráveis indescritíveis e únicos... mordendo a maçã. Meus amigos, como fomos felizes em viver Michael Jackson!!! será que existe uma voz mais sensual que esta, esses sussurros dentro do ouvido dagente???? Não foi atoa que o Miles Davis gamou também, e gravou este tema...

Todos os cantores que estão aí beberam de sua fonte. Toda a geração 80, 90 e 2000 e daqui pra frente. Música e imagem (videoclip) antes dele (AMJ) era uma, depois (DMJ) outra.

Doou grande parte de sua fortuna para causas beneficentes, e criou o movimento que resultou na gravação de We Are The World, onde um supergrupo de 45 cantores se juntaram para ajudar a Africa Central (Etiópia, Chad, Mali, Sudão e Niger), que sofria uma seca severa (84-85). A música foi composta por Michael e Lionel Richie, e produzido, arranjado e regido por Quincy Jones, músico-maestro-fera de quem Michael soube muito sabiamente se cercar, e que foi o responsável pela produção de Thriller (o disco mais vendido da história, com 100 milhões de cópias), Bad e Off The Wall.

Como teriam sido estes shows que ele não fez? será que ele iria nos surpreender e cantar igual, dançar igual ao que sempre foi? ou ficaria ofegante, falhando a voz? inventaria um novo passo? e suas roupas, como seriam? o repertório? teria umas composições novas e fantásticas? ele estaria feliz? ou pressionado pela responsabilidade de encarar um palco depois de tempos sem se apresentar, e estando com a saúde debilitada??? Bem, podemos ter uma “palinha” de como teria sido, assistindo uns minutos de um de seus ensaios, realizado dois dias antes de sua morte (youtube). O que vemos aí é o seguinte: nas vésperas de sua morte, ele estava ÓTIMO!!! feliz por retomar a sua a carreira, feliz por fazer um show que seus filhos, pela primeira vez, iriam assistir, feliz pelos ingressos esgotados, feliz pelos milhões de fãs loucos para vê-lo outra vez no palco, dançando e cantando com garra e precisão em cada passo e em cada nota. Na minha opinião, os shows iam ser extraordinários.

Como teriam sido, jamais vamos saber. Cada um de nós vai ter que imaginar. E vou ficando por aqui, deixando minhas palavras de louvor a este artista que me deu tanta alegria. Enquanto que ele, feito anjo, dança e canta no céu, agora livre do corpo, solto no ar. E eis que, lá em cima, acabou de inventar um novo passo. O Heavenwalk.

07 June 2009

Hypatia

Li no outro dia que vão fazer um filme sobre a Hypatia, egípcia de origem grega nascida em Alexandria no século IV. Quem era esta mulher, e por que eu nunca tinha ouvido falar dela? Fiquei curiosa, e dei uma pesquisada. Fiquei besta: a sua importância é imensa, ela foi fundamental para o desenvolvimento da matemática. Durante séculos sua obra serviu de base para o ensino de gerações. Foi a primeira mulher matemática da história da humanidade de que se tem conhecimento (à propósito, li que 12% dos matemáticos da Grécia Antiga eram mulheres. Um número surpreendente. Só de curiosidade: qual seria a porcentagem hoje em dia?). Escreveu livros sobre geometria, álgebra e astronomia, além de aperfeiçoar os primitivos astrolábios e, se interessando por mecânica, inventou o hidrômetro (aparelho que mede a densidade e a velocidade dos fluidos). Publicou trabalhos sobre seções cônicas, desenvolvendo os primeiros conceitos sobre hipérboles, parábolas e elipses. Cartografava os corpos celestes, mapeando os astros das mais variadas galáxias. Eis o que o historiador Sócrates Escolástico fala dela: “Havia uma mulher em Alexandria que se chamava Hypatia, que alcançou tais avanços na literatura e ciencia, que se sobrepos em muito a todos os filósofos de seu próprio tempo. Havendo sucedido a escola de Platão e Plotino, explicava os princípios da filosofia a seus ouvintes, muitos dos quais vinham de longe para receber sua instrução. Por causa de seu autodomínio e auto-confiança, ela frequentemente liderava os ambientes da intelectualidade. Tampouco se retraía ao frequentar assembléias compostas só de homens, pois todos admiravam-na e respeitavam-na imensamente pela sua extraordinária dignidade, virtude e sabedoria”.

Hypatia foi filha de Theon de Alexandria, renomado matemático e astrônomo, e foi primeiramente através dele que Hypatia desenvolveu seu gosto pelas questões científicas. Mestre em matemática, ela se dedicou também aos estudos de filosofia, religião, oratória, se dividindo entre Atenas e Roma, criando uma rede de mestres e alunos que a seguiam. Em torno do ano 400, virou líder dos neoplatônicos alexandrinos, e para sua casa se dirigiam sábios e intelectuais de todo o mundo para assistir suas aulas. Nesta época, o Egito havia se convertido numa das mais importantes comunidades cristãs do mundo, pressionando e perseguindo outras religiões, que passaram a ser vistas como heresias, como o paganismo e outras variantes de fé cristãs. Os neoplatônicos foram particularmente pressionados, a ponto de muitos acabarem se convertendo ao cristianismo. Como Hypatia era pagã, neoplatônica e cientista, ela era triplamente vista como herege.

Em 412, Cirilo foi nomeado patriarca de Alexandria, e o prefeito desta cidade era Orestes, aluno e amigo de Hypatia. Cirilo e Orestes eram rivais políticos: igreja e estado lutando pelo poder. Conta a história que Cirilo, passando por uma casa, viu um movimento intenso de entra e sai, portas sendo empurradas, homens e cavalos, uns vindo, outros partindo, e ainda uma multidão parada ali em frente. Quando perguntou o que estava acontecendo e de quem era a casa, responderam que era da filósofa Hypatia e que ela estava no meio de uma fala, discursando para uma platéia. Foi aí que ele se deu conta da força e do poder que tinha esta mulher, e a partir deste dia foi planejando o seu linchamento brutal, com detalhes de crueldade bárbaros. E num dia do mes de março, no ano 415, em plena quaresma, uma horda de cristãos e fanáticos, formada pelos seguidores de Cirilo, pegaram-na e arrancaram suas roupas, arrastando-a violentamente para a igreja e ali Hypatia foi ferozmente esquartejada. Sua carne foi raspada dos ossos com a borda afiada de conchas de ostras, e seus membros atirados às chamas.

Um pouco antes, a Biblioteca de Alexandria havia sido reduzida a cinzas por monges fanáticos cristãos, depois acabaram com os jogos olímpicos e em 529 fecharam a Academia de Platão. A morte de Hypatia marca o fim do mundo pagão e o fim do progresso da ciência e da tecnologia pelos próximos mil anos, quando o mundo entraria nas mais profundas trevas.

06 June 2009

é muito triste

Já tem uma semana que caiu este airbus da Air France, todo equipado, todo computadorizado, e no entanto isso tudo não serviu pra nada, aliás, até atrapalhou, porque o piloto ou não viu a área de tempestade, ou não estava na velocidade certa, ou estava na altitude errada, e tudo baseado no que o computador dizia. O computador falhou. Adoro a tecnologia, mas deixar que uma máquina substitua o piloto é loucura. Não dá pra entender, não dá pra aceitar. Só agora a Air France vai substituir os censores dos aviões daquele tipo, mas teve que esperar uma tragédia acontecer pra fazer isto??? houve vários alertas, estes aviões já tinham dado problema. Agora, passada quase uma semana, ainda não sabem a causa, e nem se tem a certeza de nada. Nem os destroços são confiáveis, podem não ser do avião. Dia após dia a gente procura no jornal algo que consiga explicar o que não tem explicação. E que definitivamente não podemos controlar.

A morte. Se pudéssemos escolher como morrer e quando, os seres humanos seriam melhores, acho.

É muito triste. Penso nas famílias que perderam suas pessoas queridas, seus amigos e penso nas pessoas que se foram. Tenho muito medo de avião, nunca viajo numa boa, mas enfrento. Agora vai ser muito mais difícil. Sei que é o meio mais seguro, sei que tem milhões decolando e aterrisando diariamente, cada hora, cada minuto, sei que preciso visitar minha família, sei que não vou gostar de mim se eu deixar este medo ditar a minha vida, mas na hora é algo mais forte, não é racional, é inconsciente. Detesto a sensação de estar lá em cima flutuando numa máquina que pesa toneladas, mas não há outra maneira de eu ver a minha família, a não ser esperar que eles venham pra cá pra me visitar. Pra poder ter dias maravilhosos e inesquecíveis com eles, tenho que viver horas de tortura. Fazer o que?


Não quero pensar mais nas pessoas que sacaram que iam morrer naquele maldito vôo, o desespero que sentiram. Que tristeza. Que horror. Ninguém deveria passar por tamanho pavor. Pessoas do bem, cheias de saúde, cheias de sonhos, cheias de idéias, cheias de coisas a fazer ainda, felizes por estar fazendo uma viagem tão linda.Todas com suas histórias bonitas: não tem um assassino, um mau-caráter, um ladrão, um psicopata, um foragido... um avião cheio de boa energia, boa vibração, como é que um avião destes cai???

Agora só viajo com gente que não presta. Se pudesse escolher...

E Deus?