30 January 2008

o ovo da serpente


Parece uma coisa normal. Uma coisinha engraçadinha. Pra gente achar bonitinho e rir. Brincadeirinha. Penduradas num camelô do Largo da Carioca (tem tb em outros lugares, mas é lá que passo constantemente). Umas camisetas de criança (tem tb pra adulto, mas esta era pra criança) escritas na frente SALVE GATINHOS e atrás AFOGUE OS FEINHOS.

Democracia é assim, qualquer um pode externar seu ponto de vista. Dizer qualquer coisa. Mas... esta frase é democracia?????? Isto é puro nazismo, totalitarismo. Como pode uma camiseta destas vender? quem compra? afogar é matar. Matar os feios? a criança que veste uma coisa destas, dependendo da idade, nem sabe ler ainda, é inocente na história. Ou os que já sabem ler... andar por aí achando justo afogar os feios... Que mãe compra isto? que pai? quem compra? com certeza devem se achar bonitos. O filho pode ser um monstrinho de feio (mas como são os pais, não acham, pois o pimpolho é carne da mesma carne, nasceu deles...). Eles nem ventilam a hipótese que um louco na rua pode achar que a criança é feia, lê aquilo escrito em sua camiseta- afogue os feinhos- e vai seguir à risca??? ou então alguém olhar e começar a rir pelo absurdo da situação????

A versão de adulto, além de nazista, é também machista, com um -salva gatas- na frente. Atrás- afogue as feias. Pode ser que eu esteja errada, mas deve ter sido um homem que bolou este pensamento genial, porque não vi nenhuma versão pra mulher.

A camiseta (T-shirt) é originária dos Estados Unidos, era indumentária do povão, trabalhador, operário, mas foi nos anos 60 que ela se glamourizou e se universalizou. Pra nós hippies, passou a ter uma nova função: revolucionar o sistema careta conservador da época. Era a nossa arma para difundir pensamentos, ideais, utopias, frases que expressavam nossos sentimentos e nossas ações ("leia na minha camisa"- verso de Baby, de Caetano). Também pintávamos camisetas das maneiras mais criativas: imagens pintadas à mão, ou com várias técnicas (por exemplo, aquela em que enrolávamos uma camiseta e amarrávamos com barbantes, mergulhávamos a dita cuja na tinta guarany, depois era só secar e tirar os barbantes, e pronto: uns desenhos lindos, concêntricos, verdadeiras mandalas. Também com cera (batik) e tantas outras técnicas que aprendíamos ou inventávamos.

Trinta anos depois, e me deparo com esta camiseta nazista. Vendendo ali ao ar, livre ao léu.

Uns dizem- que bobagem diana! é uma brincadeira! Não é pra ficar irada deste jeito! Não se deve levar isso tão à sério!

Não acho. Isto é o próprio ôvo da serpente. Vemos o ôvo, branquinho, aparentemente inofensivo, mas dentro dele se esconde o que há de mais perigoso. É como no começo da ascensão de Hitler. Ninguém acreditava que fosse dar no que deu. Debochavam dele. Uns diziam que era um palhaço. Só uns poucos previam o horror que acabou sendo. Hanna Arendt (to lendo a biografia dela, depois vou comentar aqui em outra ocasião) foi uma desses poucos.

E o germe tá solto por aí, vivinho da silva. O neo-nazismo tá forte na França, Alemanha, o fascismo na Espanha, EUA, Inglaterra, e não pensa que aqui no Brasil a gente escapa não. Esta camiseta é um pequeno detalhinho, mas é a tal coisa- o ôvo da serpente. Senão o que é a atitude destes rapazes de classe média espancando empregada, pondo fogo em mendigo, e por aí vai????? e tem mais...

Todo cuidado é pouco.

19 January 2008

Roberto Carlos em Detalhes


Acabei de ler Roberto Carlos em Detalhes, livro "proibido" (pelo próprio) de Paulo Cesar de Araújo. Sensacional. Lê-se sem querer parar. O título é perfeito, pois o Rei é detalhado detalhadamente em detalhes mínimos e íntimos. Não há uma única palavra falando mal do homenageado, pelo contrário, foi feito por alguém que o idolatra, por isso é ainda mais estranho que RC tenha tirado os livros de circulação. Durante 15 anos o autor pesquisou não só sobre o RC, mas também sobre tudo tudo tudo que pudesse ter a ver com ele... tudo, e ainda mais sobre o ambiente musical, fonográfico, televisivo, produção cultural... um verdadeiro documentário focando principalmente os anos 50 a 80!! O livro chegou a ser lançado, mas rapidamente tirado de circulação, com a questão indo a juízo, vencendo o RC. Rapidamente foi lançado na internet, existe o exemplar virtual, mas... quem vai ler 500 páginas assim? bom é folhear, ver as fotos, sentir o peso (um tijolão!) do exemplar nas mãos. Livro é livro, insubstituível.

Uns dizem que é porque ele relata o episódio do acidente, mas não acho. Não seria segredo pra ninguém mais esta tragédia. E o autor conta o caso com muita sensibilidade.

Foi no feriado do santo padroeiro de Cachoeiro, a cidade estava em festa, desfiles, músicas, bandeiras, discursos...Zunga (seu apelido de infância) e mais a Fifinha, uma amiguinha, se juntaram à multidão pra ver um desfile escolar. Uma velha locomotiva foi fazer uma manobra perto de onde estavam as duas crianças, uma professora se assustou e empurrou a menina pra calçada, Zunga se assustou com o movimento brusco daquela pessoa desconhecida, e caiu no trilho. Nisso a locomotiva foi chegando e avançou por cima da perna dele. Gritaria, corre-corre, ele ali deitado, se esvaindo em sangue. Nem deu tempo de esperar ambulância, um rapaz pegou o paletó de linho branco e deu um garrote na perna da criança. "Até hoje me lembro do sangue empapando aquele paletó. E só então percebi a extensão do meu desastre", diz Roberto, que desmaiou logo depois que foi socorrido. A professora, querendo evitar uma tragédia com duas crianças, provocou um acidente com uma.

Desde criança ele já mostra dotes musicais, se apresentando em festinhas, clubes e na radio local. Ele vem pro Rio pra tentar a sorte, e a família resolve depois se juntar a ele, na casa de uma tia em Niterói. Depois se mudam pro Lins, onde entra num curso de datilografia e conheceu Otávio Terceiro, que trabalhava com um produtor de TV, que chama o RC pra cantar no programa Teletur, segundas à noite na TV Tupi. Apesar de já ter se apresentado na TV, esta foi a sua estréia profissional, aos desesseis anos de idade, em 1957. Ganhou 200 cruzeiros velhos e deu tudo à mãe, pois era muito dinheiro pra ele administrar!!

É tudo contado nos mínimos detalhes, e vira um filme diante dos olhos, e coisas que só ouvi falar, mas não sabia como tinha sido, e nem havia onde procurar informação a respeito: por exemplo, o movimento musical que nasceu na Tijuca, composto de gente que depois ficou famosa. Quem os apresentou foi Arlênio Lívio, seu amigo do Colégio Ultra (onde cursavam o Artigo 91- uma espécie de supletivo, ginásio em 6 meses), e passou a frequentar o Bar Divino, na Rua do Matoso, onde conheceu Jorge Ben (do Rio Comprido), os rapazes dos Fevers (do Méier), outros do Renato e seus Blue Caps (da Piedade), Sebastião (depois Tim) Maia, que liderava um quarteto vocal chamado The Sputniks (o satélite russo que tinha sido lançado, que inspirou tb o nome do filme brasileiro O Homem do Sputnik), e os ensaios eram na casa do pai do Tim, com direito a lanchinhos nos intervalos, quando seu Altivo Maia os brindavam com rabanadas feitas por ele mesmo.

Da primeira vez que RC ouviu a batida do Tim tocando Long Tall Sally, ele confessa: "ouvi atentamente, fui pra casa e fiquei tocando a noite inteira. Aquilo mudou a minha forma de tocar (Tim vinha da escola do Little Richard, James Brown, artistas da Motown gravadora americana. Soul music). RC começou então a fazer parte do The Sputniks, mas curiosamente, quem era o crooner principal era um outro integrante, porque nem o Roberto nem o Tim tinham uma pronúncia muito boa no inglês. Mas RC não ficou muito tempo no grupo, o suficiente pra conseguir se destacar e se apresentar sozinho no programa na TV Tupi Clube do Rock, de Carlos Imperial terças a a uma da tarde.

E o começo da amizade com Erasmo foi quando, numa tarde de abril de 58, RC precisou da letra de Hound Dog, sucesso de Elvis Presley, e este mesmo Arlênio conhecia um cara que "sabia tudo sobre o Elvis"- era o Erasmo (Esteves, ainda não era Carlos)- e fez o contato. A parceria só viria a se concretizar 5 anos depois, mas foi aí que eles selaram sua amizade que dura até hoje (a parceria tb).

João Gilberto foi uma verdadeira revelação pra RC: o fraseado sincopado do cantor e os incríveis jogos ritmicos entre voz e violão deixaram-no encantado. "Nunca tinha ouvido nada parecido antes. A forma de ele cantar, a colocação da voz, a emissão, a afinação, a divisão, tudo ali era perfeito. Quando ouvi João Gilberto, eu fiquei parado, porque aquilo era algo simplesmente maravilhoso". Este acontecimento deu a RC mais ânimo pra continuar a tentar a carreira artística. Pois com sua voz pequena, porém afinada e bem colocada, RC poderia também ser um astro de música popular. Então foi ser crooner na Boite Plaza, tendo como maior influência o João Gilberto, com repertório de bossa-nova e samba canção. Quem o acompanhava ora era o grupo do guitarrista Bola Sete, ora o grupo do tecladista Zé Maria, ora pelo conjunto do saxofonista Barriquinha, cujo pianista era o João Donato, que aconselhava RC a balançar mais: "tá legal, afinadinho, mas tem que ter mais balanço". E uma noite, aconteceu o encontro entre o criador e a criatura. RC ficou nervosíssimo, e João fala ao autor: "lembro quando entrei na boate, Roberto estava cantando Brigas Nunca Mais. Achei o menino muito musical".

Depois de uma verdadeira peregrinação às gravadoras, conseguiu finalmente na Polydor, um compacto simples estilo bossanovista. Foi o primeiro de sua geração a gravar um disco, e o primeiro a registrar a influência de João Gilberto. Não fez o menor sucesso, e finalmente chegou à conclusão de que imitar JG era uma furada, nunca ia chegar ao sucesso neste caminho. João era único. Continuando a cantar nas boates, rádios e circos, estes às vezes de lona rasgada, dias de chuva, e quase ninguém na platéia. Gravou uns outros compactos, mudou de gravadora, o rock começou a invadir o planeta, apareceram The Beatles. Numa noite no ônibus, vindos de uma festa em Copacabana, Erasmo mostrou a ele uma versão que estava fazendo pra Splish Splash, cantada por Bobby Darin, e RC adorou, gravou e pronto!- foi o seu primeiro grande sucesso, mas ainda não em âmbito nacional. Esta gravação foi importante porque vinha com uma sonoridade nova, arranjos modernos ao estilo Beatles, sem aqueles inevitáveis e datados dos anos 50 solos de sax característicos daquele período. É verdade que em músicas posteriores ele chegou a usar o solo de sax, mas esta gravação de Splish Splash foi um marco, super-antenado com a modernidade.

Mas a turma começou a sacar que ficar fazendo versões de músicas estrangeiras não ia levar a lugar nenhum, o negócio era compor suas próprias canções. Roberto Carlos considera o Parei na Contramão sua "moedinha nº 1", sua primeira parceria com Erasmo Carlos. Foi um sucesso, mas ainda assim só atingiu a garotada interessada em rock, mas não havia dúvida: o caminho era por aí. Na sequência, o retumbante sucesso, gravado por Ronnie Cord- Rua Augusta, com temática de carros, garotas e velocidade. Composta por ninguém mais ninguém menos que o pai do cantor, Hervé Cordovil, maestro e arranjador. Ora, o autor não era um jovem roqueiro, mas um veterano da música popular: foi parceiro de Noel e Lamartine Babo entre outros. Se aquele sucesso foi composto por um veterano de samba, por que eles, jovens, com o rítmo na veia, não poderiam fazer também?

Começaram a surgir cantores-compositores: Demétrius, Baby Santiago, Getúlio Cortes (um dos compositores que mais fizeram música pro Roberto). Em 1964, Roberto e Erasmo compuseram É Proibido Fumar, clássico do rock brasileiro. A partir daí, foi a escalada para o sucesso: contratado da CBS, com Edy Silva na divulgação, não parou mais.

Paralelamente à história do Rei, o livro analisa com detalhes a hístoria do rádio e o comêço da TV, a época dos festivais, a briga truculenta pela audiência, é pra se ler sem conseguir parar até chegar no final. Por exemplo, uma passagem importante, que pouca gente tem idéia, é sobre a "guerra" que se travou entre a turma da recém-formada sigla MPB contra o pessoal do Iê-Iê-Iê (me lembro bem desta guerra, eu era fã do RC e estava na Faculdade de Arquitetura, época de passeatas estudantis, assembléias da UNE). Aliás, foi graças ao Roberto Carlos que se institucionalizou esta sigla. Foi por causa do seu enorme sucesso que o ambiente musical popular de então se armou e se defendeu atrás desta sigla, que tinha um caráter marcadamente nacionalista, surgindo como uma bandeira de luta contra um outro tipo de música popular "não-brasileira", confundindo o rock nacional com alienação política, entreguismo cultural. Estava-se em plena ditadura militar. Realizavam-se reuniões onde pregavam-se idéias de arte nacional-popular, cultivadas desde antes do golpe militar desde 1961 no CPC (Centro Popular de Cultura), ligado à UNE (União Nacional dos Estudantes). O CPC reunia artistas de teatro, música, cinema, literatura, artes plásticas, e seu projeto era a construção de uma cultura nacional, popular e democrática, por meio da conscientização das classes populares. Partia em defesa de nossas tradições musicais contra a internacional americanização. A Jovem Guarda sofreu um patrulhamento e uma dura perseguição, como se fosse um terrível inimigo.

No meio disso tudo, aconteceu o I Festival da TV Excelsior, Ellis passou a ser a maior estrela da música brasileira com o sucesso do seu programa O Fino da Bossa na TV Record e o seu LP Dois na Bossa (com Jair Rodrigues) em 65. Ellis viaja no fim do ano e quando voltou, encontrou o cenário inteiramente transformado. Radicalmente!! 180 graus!!: Quero Que Vá Tudo Pro Inferno estourava estrondoso o dia inteiro em todas as rádios. O mega-sucesso nacional de Roberto e Erasmo, atingindo os brasileiros de norte a sul, de todas as faixas etárias, de todos os estilos musicais!!!! O programa da Jovem Guarda (do Roberto) estava liderando as pesquisas de audiência, o que fazer? Formou-se um movimento e uma marcação ferrenha contra. Foi afixado uma proclamação nos bastidores do Teatro Record, onde lia-se o seguinte texto: "Atenção pessoal: o Fino não pode cair. De sua sobrevivência depende a sobrevivência da própria música moderna brasileira. Esqueçam quaisquer rusgas pessoais, ponham de lado todas as vaidades e unam-se todos contra o inimigo comum: o Iê-Iê-Iê". A briga foi feia, o clima era de tensão, e o assunto gerava polêmica na rua, nas universidades, dentro e fora do meio musical. Naquela época, era que nem futebol: se ce não torcesse pelo mesmo time, o pau comia.

Outras informações interessantes: uma das mais importantes referências musicais de Roberto Carlos foi a cantora e compositora Dolores Duran, que era atração no Little Club no Beco das Garrafas, e ele no seu primeiro emprego de crooner na Boate Plaza. E a amizade com Claudete Soares, que defendia RC e gravou Como É Grande O Meu Amor Por Você. E Sylvinha Teles (tem um bom trecho falando sobre ela), que foi a primeira pessoa da MPB a cantar e gravar Roberto Carlos nos anos 50, enfrentando uma vaia estrondosa no Teatro Paramount.

Um ótimo capítulo também é sobre a imagem de rebelde que ele no início passou: não queria nada com casamento, mandava tudo pro inferno, infringia leis de trânsito, vai fumar mesmo sendo proibido, fala sobre a garota independente e liberada em É Papo Firme e por aí vai. Só o fato de usar cabelo comprido era tido como uma afronta à ordem, à família e à moral vigentes, e nisso o RC foi dos primeiros. Também foi de muita audácia ter se casado com Nice, uma mulher mais velha, desquitada e mãe de uma filha, sem se importar com os que diziam que isto iria arruinar a sua popularidade com as fãs. E também ficar 11 anos sem casar com a Myriam Rios.

Os capítulos são estes, na ordem do livro:
1. Força Estranha no Ar (RC e o rádio)
2 Little Darling (RC e a turma do suburbio)
3. Fora do tom (RC e a Bossa Nova)
4. Daqui pra frente tudo vai ser diferente (RC e o rock)
5. Jovens tardes de domingo (RC e a televisão)
6. Parei na Contramão (RC e a MPB)
7. O mais certo das horas incertas (RC e Erasmo Carlos)
8. Quando eu estou aqui (RC e o palco)
9. Ilegal, imoral ou engorda (RC e a transgressão)
10. Vou cavalgar por toda a noite (RC e o sexo)
11. Todos estão surdos (RC e a política)
12. Como vai você (RC e os compositores)
13. Amante à moda antiga (RC e o amor)
14. Uma luz lá no alto (RC e a fé)
15. Faço no tempo soar minha sílaba (RC e o sucesso)

E pra encerrar, a definição de Roberto Carlos dado por Jorge Mautner: "é o poeta popular das cidades do Brasil. Provinciano e puro, com ingenuidade de caiçara e urbano, fatalista e arisco, doce e nostálgico, rebelde e submisso, puritano e sexy, ídolo e cidadão humilde, eis o grande rei, situado exatamente na fronteira do permitido e do não permitido".

16 January 2008

medo de tempestade


Sempre que vem uma tempestade lá no horizonte se achegando, no calor do verão, fico apreensiva. Antigamente era muito mais. Quase não fico agora, mas ainda fico um pouco. É dos raios que não gosto, apesar de ficar fascinada com sua beleza. São tão lindos, tão imprevisíveis, tão radicais, tão violentos, tão assusstadores. Não é raro eu ler sobre gente morrendo de raio caindo, e eu me impressionando com o absurdo de uma morte assim. Assim como ser pegado de surpresa num barco no meio do mar. Ou num campo aberto. Ou numa rua afastada sem ter onde se abrigar. Sem ter pra onde correr. Um dos cenários de meus pesadelos. Conheci um rapaz que morreu no alto de uma escada, consertando o telhado de sua casa. Dizem que ficou que nem carvão. Mas tem casos loucos como aquele que é contado no livro Alucinações Musicais, de Oliver Sacks: um cara virou um pianista virtuosíssimo depois de ser atravessado por um raio, sem nunca ter estudado ou se interessado pelo piano antes!!!! Como saber o que nos espera, se nos arriscarmos a por esta experiência: a morte ou o estrelato??

Minha mãe foi uma camponesa russa morando nos States até os 18 anos, e ela respeitava estes deuses. Mais que respeitava: morria de medo. Quando eu era pequena e vinha uma tempestade durante a noite, eu e Lili minha irmã do meio, éramos acordadas e a família ia toda pra sala. Púnhamos os nossos congas (nome de uma marca de tênis da época) que tinham sola de borracha (ela dizia que isolava a eletricidade), e sentíamos tão seguros ali na sala abraçados aos nossos pais.

Talvez daí tenha nascido o meu medo. Eu tinha muito medo. Ficava muito tensa. Fechar janelas, que a faísca poderia atravessar a sala em direção de um metal ou espelho. Esconder metais e espelhos. Jamais tomar banho numa hora destas (a água atrai). Nem pensar em pegar numa tesoura ou faca. E morávamos num prédio na Rua Paissandu, no Flamengo, numa área urbana!!!!

E na Lagoa das Lontras, nosso sítio em Miguel Pereira? a casa ficava no mais alto morro, e dalí descorria-se uma vista esplêndida de 360 graus. Quando ouvíamos de longe aquela trovoada, bem ao longe ainda, pronto! acabava-se a alegria e nos preparávamos para o pior. Quando passei a beber, era o sinal pra eu correr pra venda e comprar uma garrafa de cachaça e voltar correndo. Às vezes, ficava ali mesmo na venda bebendo, achava mais seguro do que lá encima nas nuvens.

Ali, quem não tinha medo de raio passava a ter, porque ficávamos dentro da nuvem, tão pertinho do apocalipse. Aconteceu com vários amigos meus. Os estalos eram terrificantes, e raio e trovão eram quase simultâneos, clarão e estrondo medonhos encima da gente. Um horror, mas belo visto de longe. Força da natureza em toda sua grandeza.

Colocar um pára-raio encima da casa? havia controvérsias à respeito. Uns diziam que protegia, outros que era pior, assim atraía o raio pra casa direto. Bom mesmo era ter um há uns 10 metros afastado. Melhor ainda, ter árvores altas por perto. Bem, árvores altas nós tínhamos, e depois meu pai resolveu por um pára-raio perto da piscina, e não é que caiu um ali, deixando tudo chamuscado em volta, e uma marca em linha reta atravessando a dita cuja!!!! Ainda bem que não estávamos lá neste dia pra presenciar.

E as árvores ao lado da casa? as casuarinas que cantavam ao vento? volta e meia uma era atingida, virava carvão e morria, tendo que ser cortada.

Mas tudo isso ficou pra trás no tempo, são névoas de um passado feliz. Lagoa das Lontras não existe mais, não fico mais de porre por causa de uma tempestade, nem por causa de mais nada. Nem visto tênis pra isolar faísca. Posso agora ficar meio apreensiva, vou prum lugar seguro, mas tá tudo controlado. O que me fez escrever sobre isto tudo é outra história: tenho um gato que MOOOOOOOORRRRRRRE de medo de tempestade. Ismael. É um nome forte pra gato, mas na hora da tempestade ele vira um gatinho... Quando ele nasceu, eu já havia dominado o meu medo. Ou será que ele sentiu lá no fundo de mim o pavor em estado bruto que eu tentava domar? sei lá... só sei que quando rola o primeiro trovão muuuuuito longe ainda (ele ouve antes de mim!!!! fico sabendo que vem coisa por ele), ele começa a soltar um uivo triste, repetidamente, e se estiver dentro de casa, corre pra debaixo da mesa, onde tem uma viga e fica lá imóvel, chorando, de cabeça baixa. Rezando pro Grande Tigre talvez. E de lá não sai, chorando o tempo todo. Quando está lá fora, vai pra dentro de um caixote, ou atrás da máquina de lavar, algum lugar protegido e chora chora chora. Morro de pena, ponho ele no colo, e canto sua música pra ele. Cada gato aqui tem uma música. A dele é a melodia de Edelweiss do filme Noviça Rebelde, com uma letra minha que diz (eles adoram quando ouvem seu próprio nome):
Ismael Ismael
é um gato valente
Ismael Ismael
é meu gatinho fiel

E assim bicho e gente se consola.

12 January 2008

ache o bicho


Adoro fotografar, como já falei aqui. Seria a minha segunda profissão, se talvez nos anos 70 tivesse acesso. Mas agora sou amadora, amadora com uma intensidade de amar medonha!!!

Ninguém que chega aqui em casa escapa. Click click click. Os pores-de-sol. Os bichos. As plantas. Click click click. Depois da digital, é um xuáááá. Tira-se uma porrada, transfere, deleta as piores (às vezes estas até ficam, por preguiça, indecisão na escolha ou estética mesmo). Foto ajuda a gente se lembrar. É eternizar um segundo.

A minha maquininha é uma maquinona, aproveitei uma viagem pra ver a família em New Jersey e comprei, custou baratinho. É antigona, pesadona mas pro que eu queria, ela sempre me serviu: tirar foto-lembranças e mandar pela internet. Tira boas fotos. Agora tá começando a dar problema, não fixa certas opções que faço, o monitor apaga voluntariosamente, mas por enquanto tá dando pro gasto.

Neste exercício de jogar as piores fora, me deparo às vezes com umas que olho, olho, olho e me pergunto_ por que tirei esta foto? depois vou achar o porquê, escondidinho num canto, ou no meio de uma paisagem.

A brincadeira é achar o bicho. Que nem aquela série de livros "Ache o Wally". Wally era um rapaz gaiato de camiseta de manga comprida listada, óculos e touca vermelha na cabeça (era isso mesmo?). Muito bem desenhado, com detalhes mínimos, o autor escondia o Wally, e às vezes demorava pra achar.

Todos podem participar. Todas as idades e gêneros. Todas as classes sociais. É uma brincadeira democrática, e nem precisa concorrer, assinar, telefonar... achou, ganhou. Ganhou o quê? ganhou ué...

Primeiramente, a foto acima que abre o blog. Ache o urubu. Procure bem. É difícil, ce tem que saber o visual da ave bem, senão dança. E pior: tá.... Não, não vou dar dica.

Achou? agora a de baixo: ache o mico.


A próxima: ache o tucano (esta também é difícil, mas não desista. cê pode ganhar!!!)


E finalmente, uma colher de chá pra relaxar: ache a gatinha.


Tem mais, mas acho que já tá de bom tamanho. Passatempo prum fim de semana de intenso calor e bafo. Eu no ar.

11 January 2008

rir


Preciso rir. Preciso rir. Preciso rir urgentemente. Preciso achar que isso tudo vai um dia passar magicamente. Preciso dos amigos mais que nunca. Preciso não me levar tão a sério. Preciso fazer força pra rir, mesmo se estiver difícil. Preciso começar a transformar a dor em criação. Preciso ver comédias. Preciso de risadas do meu lado. Preciso de piadas. Bobas mesmo. Porque:

A person without a sense of humor is like a wagon without springs--jolted by every pebble in the road."
(Uma pessoa sem senso de humor é como uma carroça sem molas- sacudido por cada pedra no caminho)~Henry Ward Beecher

"Laughter is a tranquilizer with no side effects."(O riso é um tranquilizante sem efeitos colaterais)
--Arnold Glasow

"Laughter is by definition healthy." (O riso é, por definição, saudável)
--Doris Lessing


"If somebody makes me laugh, I'm his slave for life." (Se alguém me faz rir, sou sua escravo pro resto da vida)
--Bette Midler

"The human race has one really effective weapon, and that is laughter." (A raça humana tem, na verdade, uma única arma, que é o riso) --Mark Twain

 "What soap is to the body, laughter is to the soul." (O que o sabonete é para o corpo, o riso é para a alma)
-- Yiddish Proverb

"Laughter is an instant vacation." (O riso é um período de férias instantâneo)
-- Milton Berle

 "Laughter is the shortest distance between two people." (O riso é o caminho mais curto entre duas pessoas)
-- Victor Borge 

01 January 2008

salve!!!!!


... salve 2008!!! salve a alegria. salve o prazer. salve a amizade. salve o riso. salve o risco. salve o humor. salve o trabalho. salve a criação. salve a diversidade. salve a contradição. salve o surreal. salve o inusitado. salve o inesperado. salve o inexplicável. salve a coragem. salve o absurdo. salve o imensurável. salve o movimento. salve a imaginação. salve o sonho. salve a mudança. salve o coração!!!

31 December 2007

feliz ano novo


Último dia do ano.

Como foi o ano que está se despedindo? primeiro, passou que nem vi... me lembro de março, depois agosto, e agora dezembro. E segundo, aconteceram coisas que jamais esperaria. Boas e ruins. As boas foram maravilhosas- aquarela, viagem com Su a Natal, Exposição de Smetak em Salvador- e as ruins... bem, as ruins foram péssimas. Pressão alta no começo do ano e rompimento com irmãos no segundo semestre. Foi isto que me fez calar. Tive que reaprender. Me reestruturar. Reavaliar. Recomeçar. Reanalizar. Relembrar. Regorgitar. Renascer. É disso que se tratam os cabelos brancos, as rugas, mas também a experiência e o auto-conhecimento. Ainda estou sob o efeito da pedra do destino que bateu na minha cabeça. Zonza. Zonza e só, mas viva. Subtraindo aqui, somando ali, posso dizer no mínimo que foi um ano de crises existenciais, que trazem revoluções e mudanças profundas. Mas cara, num guento mais crises e cruzes ....

E pro ano novo, o que desejar?
SEJAMOS REALISTAS. EM 2008 VAMOS PEDIR O IMPOSSÍVEL!!!!!

08 December 2007

8 dezembro


Um dia triste pra mim. Faz 19 anos que mamãe se foi. No mesmo dia também morreram Lennon e Jobim.

Ei-la antes de eu nascer.

07 December 2007

inteligencia dos chimpanzes


Realmente estou fora do ar blogueiro nestes dias semanas meses, mas tenho motivos, tem outras coisas. Grandes rompimentos familiares me fizeram (fazem) adernar, e até meu barquinho sair deste mar revolto, leva tempo. Pra poeira abaixar, novas realidades serem apreendidas e sedmentadas, enfrentar todo tipo de sentimento, desde os mais obscuros gritos vindos das entranhas do ser, até o mais leve sussurar de lembranças doces que guardo com afeto. É normal, e é assim mesmo, as coisas demoram, mas no final a gente chega lá. Isto é vida, isto é crescimento, isto é difícil, isto é inevitável se você quiser evoluir pra melhor. Dói, mas depois deixa a gente mais forte.

Não é que eu esteja inerte não!!! pelo contrário, tenho me sentido, até mais do que antes, viva, pulsante, atenta, ativa, antenada e disperta, apenas não consigo escrever, verbalizar o dilúvio. E como as curiosidades do mundo me fascinam, quero registrar aqui um artigo interessantíssimo que saiu nos jornais esta semana: chimpanzés superam universitários em teste de memória (BBC, 4 de dezembro). A pesquisa foi feita em Kyoto no Japão.

Foram testados 3 pares de chimpanzés cada formado por uma mãe e seu filho, contra estudantes universitários em um teste de memória que envolvia números. Estas mães chimpanzés e seus filhos de cinco anos já tinham aprendido como contar de um a nove. A experiência consistia foi assim: cada participante viu em um monitor vários números de um a nove. Estes então eram substituídos por quadrados em branco e o estudante ou o chimpanzé tinham que lembrar qual número apareceu em qual lugar, e então tocar o quadrado certo na tela. A surpresa foi que os chimpanzés jovens tiveram desempenho bem mais veloz e preciso do que suas mães e do que os universitários. Acontece que nós, seres humanos, percorremos a tela com movimentos dos olhos,o tempo todo durante uma leitura, e a mente dos chimpanzés "fotografa" a tela, memorizando-a instantaneamente.

Não é incrível? nossos parentes mais próximos estão muito mais próximos do que a gente imagina. Pensa bem, imagina em quantas tarefas, trabalhos, profissões eles poderão nos ajudar. Colaborar. Substituir. Opa!!! lá vem o Planeta dos Macacos, e não é filme nem ficcão!!!!!

Pra comemorar, vou chamar o Jorge Mautner aqui pra cantar o Samba dos Animais:

o homem antigamente falava
com o cobra jabuti e o leão
olha o macaco na selva
não é macaco
é meu irmão
porém durou pouquíssimo tempo
essa incrível curtição
pois o homem rei do planeta
logo fez sua careta e começou a sua civilização

agora já é tarde
ninguém nunca volta jamais
o jeito é tomar um foguete
é comer deste banquete
para obter a paz
que a gente tinha quando falava com os animais

21 November 2007

... e uma abobora


Uma abóbora moranga, gostei principalmente da mancha na casca, era assim mesmo. Depois abrimos e comemos a dita-cuja recheada ao forno mmmmmmm.....

flores e passaros em aquarela



Estas aí de cima são desta semana, e as de baixo são de uns meses atrás, esboços-rascunhos que ficaram bonitos.

20 November 2007

Dia da Consciencia Negra


Assim como no ano passado, Abdias aparece aqui e mais: em companhia de Léa Garcia, que merece também todo tipo de homenagem neste dia. A foto é dela com o Abdias, como Ifigênia e Emmanuel na peça Sortilégio: Mistério Negro, de Abdias Nascimento. Rio de Janeiro, Teatro Municipal, 1957. Peça encenada pelo Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado por Abdias. VIVA ELES!!!!!

louca em aquarela





Abrindo a cristaleira de casa, os armários, vou pescando umas louças bacanas pra por no papel.

16 November 2007

gatos em aquarela


SEMÍNIMA NA CESTA ENCIMA DA GELADEIRA

GONG-LI E COQUINHO NA ESCADA NO QUINTAL

15 November 2007

aquarela


Agora no momento o que mais estou curtindo é pintar aquarela. To há 5 meses tendo aula com a Verônica, e tá sendo demais. Pintar com água é que nem fazer improviso em música: a gente nunca sabe como vai sair. A água vai fluindo, é imprevisível e incontrolável, e as técnicas não se aprendem em uma aula. Dizem que a aquarela é a modalidade mais difícil na pintura, acredito mesmo. E tem que saber desenhar bem, senão fica meio esquisito. Engraçado que quando vejo ela Verônica pintando, parece tão fácil, aí vou fazer igual, e sai diferente, às vezes diferentíssimo, um borrão só. Mas ela mesmo diz que não consegue fazer duas pinturas iguais. Não é emocionante??? Uma verdadeira viagem sem saber aonde vai chegar. E adoro misturar cores pra fazer outras, tem algo muito sensual naquela melação toda. E relaxa, freiando a minha ansiedade louca, a minha impaciência, o meu tremor interno desenfreado, preenchendo a minha solidão, antigamente tão evitada, hoje tão preciosa e necessária pra minha cabeça, rins e fígado!!! A ponto que se eu não a tiver, a invento.

Sempre me amarrei em desenhar, pintar... Na faculdade de arquitetura era o que eu mais gostava. O tempo foi passando e fui me dedicando a outras coisas, leia-se música. E esqueci que gostava de desenhar. Às vezes rabiscava aqui, esboçava ali, mas nada dedicado. Se a gente gosta, a gente se dedica. Mas nem sempre. Penso que teria sido bom se tivesse começado há uns 10, 15 anos atrás. Mas cara! aonde estava eu nesta época? viajando em que galáxia? É uma bobagem pensar assim, uma emoção inútil. Não foi antes porque não era a hora. Ainda bem que acabei começando um dia.

Uma vida é pouco demais pra fazer tudo que a gente gosta: pintar, cantar, pandeiro, piano, cavaquinho, dançar.

Eis aqui umas antigas: minhas primeiras bananas e mamão, minha primeira louça com formas variadas, e meus primeiros moranguinhos e a toalha bordada. Vou colocar mais.

28 October 2007

primavera


Ela chegou há pouco mais de um mes, e está no auge de sua beleza, trazendo estiagem, seguida de chuvas violentas. E calorzinho que faz lembrar que daqui a pouco estarei me derretendo nos 40 e poucos graus do verão carioca. Mas por enquanto, não quero pensar em coisa ruim. Por onde passo, as flores estão pipocando, explodindo.

Estas que estão na foto são os bouganvilles que plantei no canteirinho atrás de casa. Deram tão certo -apesar do fato de terem sido plantados em canteiro- mas cresceram tanto tanto, que tomaram conta do varal.

Aí tem na verdade quatro cores, apesar de eu ter só plantado três: maravilha, pêssego e coral. Acontece que o coral nasce rosa, então... fico um tempão contemplando, apreciando, e fico orgulhosa: fui eu que plantei. Bom pra quando se está triste, é só ir lá atrás, olhar pra cima e levitar. E cantar...

Primavera. E neste instante me lembro da música do Cassiano com este título, e que virou sucesso na voz de Tim Maia. Gosto muito desta gravação, mas a que mais me arrepia é a do próprio autor, uáu! a sua interpretação é o máximo, não deixe de escutar. A letra é de uma singeleza só, olha só... é uma das músicas mais lindas que conheço. Soul puro.

quando o inverno chegar
eu quero estar junto a ti
pode o outono voltar
eu quero estar junto a ti
porque
é primavera
te amo
é primavera
te amo
meu amor

trago esta rosa
para lhe dar
trago esta rosa
para lhe dar
trago esta rosa
para lhe dar
meu amor...

Sensível do jeito que tô, fico com lágrimas nos olhos...

26 October 2007

um olhar


Este olhar que cê tá vendo aí é da Emilinha, Poderia ser o meu. Nenhuma foto explica melhor o que estou sentindo neste momento. Pode parecer que tem tristeza, tem também, mas não é só. É um olhar profundo. O meu, além de tristeza e profundidade, tá perplexo. Tão perplexa estou, que não consigo estar inteiramente presente nas coisas que tenho que fazer. Tem um pedaço que tá perplexo e parado olhando um ponto fixo distante, e não vendo nada. Penso. De manhã à noite, penso. Mas penso nesta coisa só, neste nó no meu presente, neste vácuo no meu passado. Pensar pra entender, chegar mais perto do que poderia ser uma compreensão. Mas é difícil compreender alguma coisa com tantos sentimentos antagônicos embaralhando tudo. É difícil compreender alguma coisa quando não se entende nada. Cada dia penso o contrário... e enquanto estiverem voando lembranças palavras corações flechas e fígados num rodamoinho violento perfurando meu cérebro, não posso me mexer, além de pra dentro. Nada decidir numa hora destas.

Mas eu entendo sim. Acho que entendo. Não tudo. Haja coragem pra entender! Entender, virar a página e ir em frente... Emilinha, me ensina please!

15 October 2007

... e tantos mais...


... e tantos mais são as Plásticas Sonoras de Walter Smetak. Poderia ficar o ano inteiro falando disto. Mas vamos ficar por aqui, esperando que a exposição venha para o Rio. Aqui vão mais uns instrumentos. A da foto de cima é o Beija-Flor.
FECUNDAÇÃO CÓSMICA


IMPREVISTO


METÁSTESE


MIMENTO


MIRCUR


PÁSSARO MAMÍFERO


QUEBRA-GALHO


VIOLA DA GAMBA


E ainda:
Namorados Abstratos
Reta na Curva
Piston Cretino
Mulher Faladora, movida pelo vento
Chicote
Violão Eólico
Aranha
Constelação
Peixe
Vau
Vir a Ser
Olho Público

E tem mais... mas como eu disse, vamos ficar por aqui. Como disse Smetak, "falar sobre a música é uma besteira; executá-la, uma loucura". Encerro este post com um poema seu, que está no livro A Simbologia dos Instrumentos. Axé e até!

PLÁSTICAS SONORAS
Sinto estes corpos milenares
com mil pregos furados em tábuas
igual aos cristos nos calvários

coladas as costuras e emendas
tapadas com os dedos nove fendas
para segurar as folhas tremendas

e se decompondo em fragmentos
num buquê de flores e legendas
em ritmos lentos aos quatro ventos

13 October 2007

o Pindorama


Toquei neste muito também, quando participei do Laboratório de Criação Espontânea em 76 no Solar do Unhão. Mas só tem graça se tem mais de 20 pessoas. É uma viagem sonora-sensorial inenarrável!

"De 1973, instrumento musical de sopro e percussão, feito de cabaças, tubos de plásticos, bambu, cano de pvc, madeira e metal, com altura de 2,20 m. Instrumento coletivo, contendo no meio o sextante, instrumento dos navegantes, anterior à bússola. A cabaça central, usada com boré (boré- uma família de instrumentos de sopro de Smetak, feitos de tubos de poliéster, com uma cabaça para a saída do som, e um bocal aberto, que dá bramidos, típicos dos índios, para a chamada da guerra), significa uma projeção em 6 direções, ou seja: norte, sul, leste, oeste, nadir e zênite.

Uma corda, em volta horizontal e vertical, dá a possibilidade do contraste sonoro entre uma série de flautas harmônicas, uma série de chocalhos. O seu aspecto exterior monstruoso, de uma ameba em constante divisão e desdobramento, dá a possibilidade de 60 pessoas se ativarem musicalmente" (do livro de Smetak, A Simbologia dos Instrumentos).

08 October 2007

o Bisnadinha


De 1969, plástica sonora feita de arame, madeira, metal, papel e fio de plástico, com 60 cm de altura.

Este é o mais comovente das criaturas. É o próprio João Ninguém de Noel, o Nowhere Man dos Beatles, e podemos, cada um de nós, nos identificar com este serzinho niilista nos momentos down de nossa vida, em que nos achamos um zero. Contundente, horripilante, expressionista, real e profundo.

Do livro de Smetak, a Simbologia dos Instrumentos, um dos textos mais poéticos, na minha opinião. : "Torna-se realmente difícil escrever uma biografia sobre um serzinho que se tornou o Nadinha, já repetidas vezes. Escapa à nossa percepção, entretanto ele está aqui, entre nós, mexendo os pauzinhos. Valor, sem valor e validade, inconsciente como uma molécula de matéria despejada do imenso forno do universo. Nasceu de uma chama de vela que um amigo colocou em suas mãos frias, como última dádiva para o longo caminho da morte. Junto, uma rosa vermelha, enfeitando a morte. Porque o Bis-Nadinha, durante a sua vida que terminou de repente, sempre foi um sujeito alegre e dotado de certa filosofia. Julgava-se sem liderança, convencido de sua absoluta nulidade, e usava com abundância os perfumes da natureza. Fez o dia de noite, e a noite de dia. Era, e ainda é, um Beatle, se é permitido dizer tal coisa quanto à mais abusada dualidade. E se dá bem nesses termos, como assegura repetidas vezes. Não quer outra vida. Eis a forma magnífica da sua existência. Continua fielmente a ser aquilo que não era (!). Eis a sua tragédia. Sente nas costas o fixo-móvel do espírito invulgar coletivo, mas sem poder dar a moldura de uma personalidade constante e amadurecida. Esforça-se para enquadrar-se na vida. para este fim, suportou dezenas de exames e testes, e traz o selo da borboleta na testa, simbolismo do tradicional laço de seda que a mãe coloca nos cabelos das meninas...

Passaporte para nova vaga da vida.

A sua saudade é profunda, encontrando-se num grande vale vertiginoso. o que está em cima agora está embaixo, e vice-versa, como se a inteligência da percepção das coisas fosse nos pés, e a cabeça andando. Os olhos procuram um caminho neste labirinto de xadrez preto e branco. Mas não o acham. Estão olhando de fora para dentro, e enxergam apenas uma folha verde que ocupa o espaço onde normalmente se escondem os miolos.

Quo Vadis? Para onde eu vou, suspira o ponto de interrogação que sai como fumaça do cigarro, da sua boca sem boca. Eis aqui o seu fantasma. Estará vivo ou morto? Um vivo-morto, um morto-vivo?

Somos nós ele, ou está sendo ele nós?

Bis-Nadinha, um fantasma; em vida, era um grande farrista, morreu muito cedo e está aqui dependendo de duas coisas: vemos, na frente, uma elipse e, atrás, um quadrado, isto é, ele está fazendo um grande esforço para reconhecer seus erros e quer se enquadrar novamente como pessoa viva... Fica na dependência de sua alma... procurando uma nova personalidade.

Mostra, ainda, sua juventude com uma perfeita dentadura. Botou uma rosa no cabelo e lembra um pouco as criaturas de hoje, os cabeludos.

Tem um som tétrico.

Bis acaba de repetir... repetir o nadinha.

Seu sustentáculo é uma cravelha. Tem um lacinho na cabeça, símbolo do infinito, um oito".

SALVE O NOSSO HERÓI!!!!

06 October 2007

o Coloquio


Adoro este também. Estas duas cabeças esculpidas em barro por Smetak são tão expressivas (além de tudo, um escultor!!!!), e quando a gente toca nas cordas, elas tremem, se mexem, dando vida a este diálogo.

Do livro de Smetak, "A Simbologia dos Instrumentos": "Montado em dois vergalhões de ferro que se cruzam, as duas potestades da dualidade milenária, formando a letra X, simbolismo do tempo. Vemos os dois Brasis: aquele que funciona com a explosão da gasolina, do ouro negro, e aquele outro Brasil, encostado como um fac-símile no seu irmão, reservatório "sui generis"de tudo, conhecido e desconhecido em matéria de comparação. O Distrito Federal, meio século mais tarde, denominará este quadrado de terras encravado no estado de Goiás, vizinho de Mato Grosso e do Amazonas, com outro nome : Federação Divina. E toda a riqueza espiritual que este irmão desconhecido possui será derramada sobre o mundo, que se salvará das ruínas.

O colóquio tem 7 cordas, no meio, uma cruz. No meio do X, coloquei um ponto vermelho e dourado, mostrando o fogo sagrado.

O som dele é muito solto, treme".

30 September 2007

a Arvore


Quando conheci o Smetak no curso que ele deu em 76 no MAM RJ, ele havia trazido váríos instrumentos seus, e fez apenas um aqui no Rio: a Árvore, réplica imensa desta pequena da foto, que ficou em Salvador. Quando acabou o curso, ele me deu o instrumento, que aliás, está perdeu sua cabaça (60 a 70 cm de diâmetro), comida pelas traças, e estou procurando outra pelo Brasil todo, mas até agora, não encontrei ainda deste tamanhão (quem souber, me avise). Adoro este instrumento, Pode-se tocá-lo percutindo, ou friccionando suas cordas, que são de piano. A base do meu é um chanco enorme de um tronco de uma árvore, é tão pesado, que precisa de 6 pessoas pra carregar, mesmo assim é difícil, porque não tem lugar pra segurar direito por causa dos ferros.

Mas vamos ao livro "Simbologia dos Instrumentos", de Smetak: "Na beirinha, esta árvore foi pintada de amarelo, cor da intuição. Verde: cor do mental concreto. Embaixo, o tronco de madeira é verde, com a cavação vermelha.

Este instrumento leva a nossa subordinação pessoal para leis superiores à nossa percepção da razão. Introduz o conceito de Caos, mas num sentido de ordem superior, fazendo a ligação imediata e imprevista, porém benéfica e justa.

Na África, os indígenas têm um sistema de instrumentos naturais para transmitir suas mensagens de uma aldeia para aldeia, no qual é usado um funil. Cavam um buraco dentro da terra, e colocam uma corda que atravessa no ar eeste funil; põem a corda em vibração e, tocando esta corda, o som é levado para grandes distâncias. Trata-se de um código que alguém lê, ouve e transmite, uma espécie de telégrafo.

Ao sentarmos embaixo de uma árvore, podemos ficar inspirados, podemos perceber e sentir coisas muito ricas da natureza, a geometrização da forma da árvore...

(...)Mas, por que me contam isso, perguntará o leitor? Direi: por ser aquilo que chamam de música, muito simples, simples demais, porque quase incompreensível para nós. Vem do reino das fadas e das lendas, que para alguns é a realidade. Tudo tem vida, tudo toma parte como uma gota no grande oceano da Vida-Una. Tudo é respeitado, da folha caída de uma árvore até a pedrinha no riacho; há tantas que não se vê uma solitária, separada das outras. Nada é mais, nada é absolutamente maior ou menor- mas o homem tem a maior possibilidade de todos os seres vivos, ele é o ser regente. Ele até tem o dever de falar com os aparentemente menores, insignificantes, para lhes ensinar, ensinando sempre. A natureza, manifestada ou não, em volta, está angustiosa para saber; ela também quer evoluir, libertar-se, para continuar a sua evolução infinita. Se um instrumento for composto de partículas de todos os reinos da natureza, o homem, consciente de tudo isso, se faz de Guru, mestre e regente. Ele se identifica com todos os seres, digo, com todos esses irmãos menores que se acham quase como perdidos. Ele se une a todos.

E num "raga" incompreensível, ele conta a história de milênios, milésios ou "mil-asianas". Daí vem a magia, porque houve homens conhecedores das forças da natureza para manobrá-las. Ele, o homem, nos cantou a terra, esta terra maravilhosa, a bola dos deuses, viajando há eternidades no éter azul. Ele representou o microcosmo dentro de um "raga"com toda a natureza em volta. O estado de consciência no qual se encontrava, o oriental o chamava de "Avatara" (ave-asas, tara-transpassar). Avatarizando-se nos reinos inferiores, e mais ainda, nos reinos superiores. Chamamos isso de inspiração, mas não sabemos de onde vem, e poucos sabem para onde vai... O instrumento torna-se um grande cetro; e ele era um Rei... e agora um mendigo.

Compreendemos agora a citação do poeta Maiakowski: "Hoje tocarei flauta na minha própria coluna vertebral". Este autor moderno parece a reminiscência de um velho mago tibetano, tocando uma escala musical num fêmur humano, acompanhando o seu próprio corpo defunto para a cova, porque ninguém quis assistí-lo ou também porque não precisava de ninguém. Maiakowski= Maya cova= túmulo da ilusão. Aquele que venceu a mnorte... ou pela segunda veza nascido e flautando sempre..."

21 September 2007

a Ronda


Esta também é uma das minhas preferidas. Ela tem um som maravilhoso, e me lembro de Smetak me dizendo: "se você roda a manivela devagar, e tange as cordas com o arco, aí está o rítmo. Se gira um pouco mais rápido, a melodia. E muuuuito rápido então, é a harmonia". Ou seja, rítmo melodia e harmonia só diferem pela velocidade. Muito doido.

De 1969, a RONDA é um instrumento friccionado e pizzicato, de madeira, metal, cabaça e ferro, de 96 cm de altura.

Do livro de Walter Smetak, A Simbologia dos Instrumentos: "Instrumento cinético que me deu muitas conclusões pela sua materialização. Quando ficou pronto, fiquei sabendo de coisas que antes não sabia. Vemos aqui mais ou menos a forma da ampulheta do tempo. Se isto já está ligado ao tempo, também deve estar ligado ao movimento e ao espaço, pois existe esta fórmula matemática que a ciência associou tantas vezes: movimento-tempo-espaço.

Este instrumento se dedica à duração do som, isto é muito importante. Tem 22 cordas estendidas em volta, às vezes falta uma corda, todas não são regulares, é como uma boca onde faltam dentes.

Duas cabaças encaixadas uma na outra, muito primitivo. Tem duas rodas de madeira, com pregos, onde a corda fica estendida, e duas cravelhas.

É afinada como quiser. Pode ser tocada com arco e pizzicato.

Um carrossel emitindo sons. Sendo que a escala é composta de uma sequência das séries harmônicas, este instrumento traz uma nova experiência.

No giro lento isso dá um ritmo. Tem intervalação. Numa velocidade maior, o instrumento não deixa perceber os intervalos, formando uma linha melódica. Numa velocidade maior ainda, ouiremos só harmonias, porque o giro é tão rápido que ouvimos muitas cordas em uma só vez.

Concluímos, então, que o ritmo, a melodia e a harmonia dependem da velocidade de giro. São tres coisas em uma só, que dependem da velocidade.

É preciso dar tempo ao tempo, diz o adágio popular...

Está na nossa frente a ampulheta, o relógio do tempo, no qual o mesmo se esgota. Areias de desertos, areias sem fim, mares de areias.

Dizem os árabes: Os homens temem o tempo, mas as pirâmides e a esfinge sustentam o tempo...

O que vale neste instrumento é o silêncio que segue o turbilhão de sons, o profundo silêncio no qual a nota, a vibração, se encontra com si própria. A união de todos no Todo.

Existe uma analogia entre este instrumento e o "Imprevisto", embora pertença aos instrumentos de percussão. A diversidade dos sons forma, no seu conjunto de ecos, uma unidade. isto é, em vários instrumentos desta natureza, constitui um ritual de digno e específico poder de criação. Seu simpolismo é evidente. Identificamos, com clareza, o número 8, o eterno vir a ser, na complexidade de seruu mistério. Reconhecemos a forma do violino, ou alguma composição primordial, que poderia ter dado forma ao violino, cujo nome lembra, filologicamente, a Vina.

Vemos, assim, m oito, símbolo do som e do infinito, girando num eixo, como se fosse uma vitgrola, palavra esta deivada de uma outra -vitriol..."

a Maquina do Silencio


Esta me lembra das invenções de Leonardo da Vinci. Plástica sonora de Walter Smetak, instrumento manual, mecânico e elétrico, feito de madeira, metal, cabaça, isopor, fio e fibra, altura: 1,71 m, 1971.

"Máquina do Silêncio: um absurdo, por que não? O silêncio, considerado ausência do som, não é sempre aplicável, referindo-se a situações interiores de estados psíquicos. Movimentos mecânicos ilustram diversos atritos eletronicamente amplificados, como podem ser ouvidos interiormente os elétrons em volta do núcleo: o átomo permanente. Em cima, uma roda friccionando uma faixa de cordas em diversas afinações no meio do cilindro" (do livro A Simbologia dos Instrumentos, de Walter Smetak).

o Sao Jorge Tibetano



Plástica Sonora de Walter Smetak, feita de cabvaça, metal, madeira, disco vinil, franja de tecido, altura: 55 cm, 1969.

"Para melhor entendimento pelo público ocidental, foi criado este Ser, mais conhecido pelo nome de São Jorge; em verdade, o Cavaleiro das Idades, venerado no Tibete como "Ak-Dorge"e "Buda Maytréa". Ele tem por função destruir o mal, para triunfar o bem, e fazer desaparecer o "não"categórico, para a glória do sim, destruindo as velhas dualidades"(do livro A Simbologia dos Instrumentos, de Walter Smetak).

o Guerreiro


O GUERREIRO, plástica sonora de Walter Smetak, de cabaça, metaql, madeira, côco, cano de plástico, fio de plástico, altura: 1,15m, 1969.

"É o músico guerreiro, disposto a tocar ou matar. Tem a alegoria da flecha apontando o céu, uma flecha jogada assim no infinito. Aquela flecha podia ser solta se aquilo que está embaixo estivesse igual àquilo que está em cima. Ou seja, o perfeito equilíbrio entre o subjetivo e o objetivo: seria quase o fim da evolução" (do livro A Simbologia dos Instrumentos, de Walter Smetak).

o M-2005


Plástica Sonora de Walter Smetak, o M-2005 é um instrumento musical de corda percutida, feita de cabaça, metal, madeira, isopor e plástico, de altura 2,25 m, 1969.

Do livro "Simbologia dos Instrumentos", de Smetak: "O percussionista é a oposição do regente, sendo o seu inverso; serve-se do bloco de gelo como se este fosse o instrumento de percussão e, ao mesmo tempo, de um prato pendurado no tronco da árvore.

Em contradição com esta atmosfera glacial, fica o leque. Ele sente apenas chegar o calor e sente-se literalmente quente. Abanando-se, ajuda o degelo do bloco, e não percebe mais, distante como ele é, verdadeiros fatos, o sopro do regente de cima, que anima a todos.

A linguagem desta escultura é universal e dever ser entendida nos próximos tempos. Só assim o público entenderá os acontecimentos que virão. O isopor expressa formas congeladas.

O instrumento de frente indica que a flecha está sendo atirada para o abstrato.

Deste instrumento sai um som reproduzindo a sílaba sagrada OM".

o Anjo Soprador


Plástica Sonora de Walter Smetak, o ANJO SOPRADOR é um instrumento musical de sopro, feito de cabaça, metal, madeira e plástico, de 55 cm de altura, 1969 (ver post SMETAK IMPREVISTO de primeiro de setembro).

Adoro suas orelhas estridentes: dois agogôs que são do formato dos símbolos crescendo (<) e decrescendo (>) das partituras, da matemática, uma tremenda sacação da parte do autor. O movimento dos braços é perfeito e sua cara de traços simples, tocando compenetrada, é muito expressiva.

Do livro "Simbologia dos Instrumentos", de Smetak: "O Anjo Soprador tem duas cabaças, uma em cima, crânio e, embaixo da máscara, outra cabaça que é reflexo, como se estivesse refletindo numa lagoa. A flecha que atravessa o crânio é um crescendo.. ou descrescendo, o som vai e vem, como se quisesse mostrar o ser que se vê como reflexo de si próprio".

17 September 2007

o Amem


Plástica Sonora intitulada AMÉM, de Walter Smetak, exposição SMETAK IMPREVISTO (ver post do dia primeiro de setembro). Feito de madeira, metal, cabaça e cordão, altura 74 cms, 1969.
Esta foto é mágica! Este raio de luz conectando-se com o Amém ficou incrível, e foi por acaso (fui eu que tirei a foto). Parece Deus. Deixa eu explicar: quando eu era pequena, a "foto" de Deus era um raio de luz pra mim. Em qualquer livro em que eu via esse raio de luz, na maioria das vezes vindo por entre as nuvens no céu, era a imagem de Deus. Agora Ele aparece aqui. E logo no Amém!!!!

Abro o livro de Smetak "A Simbologia dos Instrumentos": "Amém, isto é, seja feito. No Amém, podemos ouvir o sonido transcendental da palavra sagrada OM, o AUM. A palavra sagrada é uma vibração síntese que fecunda as mentes.

Aqui, no extremo Ocidente, a palavra tem o nome de Amém. Ouvireis e vereis com ouvidos e olhos fechados. Ela aparecerá em letras de outro num fundo de púrpura, e será sempre inesquecível. Aquilo será, daí por diante, a vossa grande felicidade. Porém essa felicidade só pode nascer de um profundo silêncio no qual tudo se faz de nada. Como sabeis, o Nada é o Absoluto. Daí por diante, nascereis pela segunda vez. Vindo do espírito, andareis o caminho da iniciação. A morte se dsvanece. Sabeis que tendes existido, e que sempre existireis. Compreendereis então o significado de Shamballah, ilha imperceptível de Som e Luz, da qual deriva a doutrina secreta do budismo: Olho e Coração, Saber e Amor, fazendo jus ao equilíbrio entre as dualidades".

13 September 2007

os Choris


Foto tirada na exposição SMETAK IMPREVISTO, ver post homônimo do dia primeiro de setembro.

Os Chorís são uma família de instrumentos semelhantes na aparência, mas diferentes no som e na simbologia. Esta foto não ficou boa, tá tudo meio tremido, mas coloquei pra dar uma idéia de como estão bonitos assim na exposição Smetak Imprevisto, penduradinhos na parede e com esta iluminação mística e solene. Na frente dos Chorís está o instrumento Baixo Mono, que consiste em uma "tábua comprida, com uma corda de piano, de registro grave. A tábua repousa sobre dois tubos de isopor, perfazendo a função de caixas acústicas. Produz um som relativamente muito longo. Com vários instrumentos deste sistema, podem ser produzidos efeitos extraordinários". E continuemos no livro de Smetak A Simbologia dos Instrumentos:

"Os Chorís existiram primeiro com a cabaça inferior, havia só uma casca de côco, uma cabaça e um pau de vassoura (O Mundo). Eu assumi, assim, a visão do nosso globo terrestre como se este fosse um ôvo, reproduzido no reino vegetal como cabaça, com uma forma ovóide. Então a primeira percepção que temos é a de que tudo isto está dentro de um campo de vibração. Mais tarde coloquei a cabaça de cima como concha acústica superior.

Quanto ao nome Chorí, nem chora, nem ri. Ele é equilibrado. Tem um som pequeno, mas muito rico de séries harmônicas, que repercutem lá em cima da cabaça. Sai às vezes um soluço maravilhoso. Tem pequenos fenômenos sonoros que outros instrumentos não possuem. É um instrumento colocado dentro de uma concha acústica (mesmo processo que nos teatros gregos), neste caso, um côco dentro de uma cabaça (o peixe entrou no aquário e salvou-se). O côco. vindo do alto, parece repousar no colo da terra, um contando ao outro a sua história.

É bom lembrar aqui o conceito milenar hindu: Fohat e Kundalini, inteligência e força criadora. Ou também outro signo já mencionado: Yin e Yang".

Abaixo tem uma foto tirada do livro, que dá uma idéia melhor dos Chorís. Da esquerda para a direita: Chorí Baixo, Chorí Microtonizado, Chorí Pagode, Chorí Sol e Lua, Chorí viola, Chorí Violino, Chorí Violoncelo, Chorí com Caixa de Ressonância. Feitos em 1968.

E agora, às descrições no livro:

Chorí com Caixa de Ressonância- feita de uma cabaça cortada pela metade, e servindo de concha acústica para a metade de um côco com tampa de pinho. As paredes de fora funcionam para segurar o instrumento nos joelhos.

Chorí Pagode- foi aplicada aqui uma caixa acústica superior, de cabaça. A espiral do som se realizou e se tornou um fator acústico, demonstrando a diferença entre a visão do oriente para o ocidente, a vertical para a horizontal. Possui um registro que permite dois sons diferentes. A diferença entre essas duas sonoridades é feita com um pedacinho de madeira- também chamado de "alma"- que liga e desliga a tampa do fundo, estabelecendo um campo fixo na tampa, embaixo do cavalete. Coloquei uma porção de cabaças, uma em cima da outra, lembrando assim os templos indianos. O Chorí Pagode é afinado em quintas.

Chorí Microtonizado- diferencia-se dos outros chorís pela ausência da cabaça superior, e foi construído sem o registro.

Chorí Sol e Lua- (Gêmeos, astrologicamente). Instrumento com duas caixas acústicas remetendo-nos à história remota da humanidade dos andróginos e, assim, à cosmogênese e antropogênese, ou seja, à divisão da humanidade em macho e fêmea, divisão dos sexos, Adão e Eva. O instrumento é de caráter estereofônico, riquíssimo em reprodução de harmônicos. As leis inerentes a este instrumento foram usadas na arquitetura das naves de catedrais, resultando-se a grande acústica do barroco. Duas cabaças, uma embaixo e outra em cima, Sol e Lua. Mas diferente da Vina que não conhecia ainda. A segunda cabaça é colocada no lugar da voluta que simboliza, geometrizada, a curva do som. Mas deixou de ter uma função sonora, é apenas ornamental e estética. E isso não é pouco, mas poucos o sabem. Este instrumento assemelha-se muito à Vina e, mais tarde, farei um instrumento para ser tocado a pizzicato, colocado nos joelhos como uma cítara, com bordões, mas o braço oco, e colocando neste mais uma cabaça, para o som circular lá dentro, vindo de baixo e dando a volta para cima, para novamente descer e subir no seu itinerário. Simbolicamente, é o signo da balança. Nesse Chorí procurei levar o som até o cavalete; isto foi mais ou menos conseguido e o som deste instrumento é muito bonito, tem uma continuação quase inaudível. O efeito é de grande suavidade. É a lua indo atrás do sol, sem nunca alcançá-lo... Possui cinco cordas e tem a mesma afinação que a "Viola Pomposa", criada por Bach. Este instrumento é muito flexível e não segura bem a afinação, balança muito. Isso justamente da um certo charme ao som.

Quarteto- é o conjunto dos Chorís Baixo, Violino, Violoncelo e Viola. É também feito com cabaças, devido à sua importância como conchas acústicas. O corpor de ressonância é feito da metade de um côco. Os braços, de cabo de vassoura. O Baixo se distigue dos demais instrumentos por se tocado em cima de uma caixa de isopor. A reprodução dos graves é excelente em relação ao pequeno corpo da caixa. Estes quatro instrumentos são a prova de que com poucos recursos podem ser feitos instrumentos baratos, de fácil manuseio. Se alguém quiser construir futuramente um instrumento com cabaças, que plante as sementes e não as jogue fora, que coloque as sementes na terra. As cordas do Quarteto são de violão, os arcos de bambú, e as crinas, de sisal. A sua afinação é em quartas e quintas.