19 September 2006

pra Eloa


Flores para Eloá, que no céu comemora hoje o seu aniversário, imagino que mui animadamente, como sempre foi aqui na Terra.

17 September 2006

proverbios





Adoro provérbios. Eis um que vi numa vitrine em Toledo, Espanha. Foi numa lojinha de milhares de lembrancinhas, mas ela estava fechada, assim como todo o comércio: de 14:00 às 17:00 fecha TUDO para a siesta!!!
Que maravilha. Este eu não conhecia, e fiquei encantada.
Por experiência própria, aprendi que:
- pra baixo todo santo ajuda
- quando um não quer, dois não brigam
- cada louco com a sua mania
- de grão em grão a galinha enche o papo
- o que é do homem o gato não come
- águas passadas nao movem moinhos
- cada louco com a sua mania
- melhor prevenir que remediar
- há males que vem pra bem
- mãos frias, coracão quente
- o diabo não é tao feio quanto parece
- nunca diga desta agua não beberei
- não há regra sem exceção
- o que os olhos não vêem, o coração não sente
- quem canta, seus males espanta
- quem não arrisca, não petisca
- santo de casa não faz milagre
- tamanho não é documento
- é mais fácil acender uma vela do que reclamar da escuridão
- nada como um dia depois do outro

Alguns eu modifico, como "dos males, o nenhum", "falar é fácil, dizer é que são elas", "Deus dá nozes a quem tem dentes", "viver para comer e não comer para viver".

Com muitas não concordo, como "a justiça tarda, mas não falha", "cão que late, não morde", "com fogo não se brinca", "querer é poder", "pau que nasce torto morre torto".

Tem uns que não gosto, como "olho por olho, dente por dente", "de graça só se dá bom dia", "quem quer vencer, aprenda a sofrer", "tempo é dinheiro".

Mas todos contêm uma visão do mundo, uma filosofia, uma sacação de quem os inventou e resumiu aquela experiência numa só frase, um poder de síntese fantástico!!!

Esta é uma que fiz neste instante: "fala-me um provérbio, e te direi quem és", porque um provérbio pode revelar coisas muito interessantes sobre a pessoa que o citou...

Este provérbio árabe da foto é ainda mais complexo, é um verdadeiro poema. Fala da sabedoria, do equilíbrio, do controle das emoções, dos desejos, do "caminho do meio". Hmmm... há quem consiga, cada macaco no seu galho. É ver pra crer. Pela boca morre-se o peixe. Boi que dorme de touca vira sapato. Mas... coração que suspira não tem o que deseja...

E pra acabar, um genial de Luiz Melodia:
"Quem quer morrer de amor se engana
O corpo é natural da cama"

E não é que o moço tem razão?

linguas




Línguas são fascinantes. Além de nos darem, com o auxílio do olfato, o gosto da vida, elas lambem. Pros bichos são vitais pra beber água, lamber as crias, uma ferida... E pro bicho-homem, a língua é o órgão da fala, vai traduzir em palavras o que se passa, em milímetros de segundos, na nossa cabeça. Tão importante, tão fundamental, sem elas não haveria cultura e civilização.

Em português a palavra língua é sinônimo de idioma. E são milhares de línguas, milhares de idiomas no planeta. No post anterior, falei um pouco do castellano (se pronuncia castelhano, deveria escrever com lh mas adoro esse ll, da ortografia deles. Assim como o ñ... um charme. E o ponto de interrogação de cabeça pra baixo no começo de uma pergunta? demais). Cada língua tem seus jeitos e trejeitos: o inglês, com sua conjugação dos verbos facílima, tudo igual, tem o russo e alemão, com suas declinações (quem estudou 7 anos de latim no colégio: no curso ginasial e no curso clássico, acaba ligando o piloto automático e sai falando. Eu fui uma dessas alunas, mas aviso- não lembro mais nada!!!). O russo é difícil (um colega meu de russo disse que ele estudava grego também, e que russo é infinitamente mais difícil que grego), não pela escrita (que uma vez sabida, jamais esquecida), mas pela complexidade e sutileza do seu pensamento. Por exemplo, tem mais de 10 palavras pra exprimir o verbo ser (estar). Não há acentos, então cê tem que ler e ouvir muito pra saber ao certo onde está a sílaba tônica. Mas é das mais lindas, tão musical. Como o italiano, que língua linda. Dizem que o chinês é a mais difícil; dependendo da pronúncia e entonação crescente ou decrescente, por exemplo, de um "a" mais aberto ou fechado, a palavra muda inteiramente de sentido. O castelhano é a mais fonética: se pronuncia o que se lê. E o basco, cheio de "x" e "k"? o alemão, com suas palavras quilométricas? e o polonês, com aquelas consoantes todas juntas grudadas umas nas outras? e o japones? é mais fácil pronunciarmos o japones do que eles o português, porque nós temos todos os seus fonemas, mas eles não tem todos os nossos. Línguas são fascinantes. Nada como ler um livro em sua versão original. Por melhor que seja a tradução, por mais fiel e inspirada que seja, bom mesmo é ler no original, sempre que possível.

Mas não dá pra tirar fotos de línguas-idiomas. Então pra ilustrar, aí estão umas de línguas-línguas. Tentei tirar da minha própria, ficou parecendo uma pastel de tomate. Tentei de novo, me lembrou aqueles livros médicos. Então pedi ajuda aos meus queridos modelos Mia, Ping-Ling e Emilinha, que gentilmente mostraram-se solícitos e pacientes com o meu pedido. Eu também tive que ser paciente. Não foi fácil e nem rápido eu conseguir esses instantâneos, mas valeu a pena.

Língua. Tongue. Langue. Lengua. Zunge. Limbá. Tong. Tunga. Jezyk. Jazyk. Jezik. Nyelv. Kieli. Dil. Lidah. Lango. Yazik. Glo'ssa. Lougha. Laschon. Tsung. Shita. Ulimi.

14 September 2006

hay churros y.....


Se estiverem alguma vez andando por Madrid e derem de cara com um cartaz deste, não hesitem, não se espantem, não desconfiem, não entendam mal... entrem, peçam o anunciado, comam lá ou, como sugere o dito cartaz, levem-nos e comam no conforto do seu hotel.

Churros todo mundo sabe o que são, temos aqui aos montes nas carrocinhas pela cidade, tem até um apetrecho que os fura, recheando-os de leite condensado. Nunca provei, mas sei que não gosto, só de olhar me dá uma aflição na língua.

Mas os churros espanhóis acompanhando aquele chocolate espesso do qual falei em outro post, cai muitíssimo bem, foram feitos um pro outro. Estes são mais finos e bem compridos, finos como a grossura de um dedo humano e compridos como algo de 30 cms. E bem sequinhos, crocantes.

Agora vem a pergunta que todos queriam fazer: e que diabos são "porras"??????

Porra é um churro grossão, mais do que os daqui. Mas não acreditei quando me disseram pela primeira vez, achei que estavam curtindo com a minha cara.

O Castellano é uma língua que nós brasileiros pensamos saber falar, porque na verdade é muito parecido com o português, mais do que o italiano por exemplo, e muuuito mais do que o inglês. Mas a gente pode acabar pagando o maior mico se não tivermos cuidado, se acharmos que é só dar um sotaquinho "porteño" à frase, e hora de pedir uma coca, jogar um "cueca-cuela". Não vai dar certo.

Logo no primeiro mes que lá cheguei, em 1980, o jornal vinha trazendo na primeira página: "El presunto asasino ha hecho una huida espetacular, pero le han alcanzado". Traduzindo ao pé da letra: o presunto assassino realizou uma fuga espetacular, mas alcançaram-no.


Como pode um presunto matar alguém e fugir? matar alguém até pode, é só esse alguém comer um presunto estragado. Mas, e fugir? como pode um presunto assassino fugir, correndo pela rua com suas perninhas cor-de-presunto, todo esbaforido, e ninguém conseguir pegar?

É que o presunto em questão traduz-se como "presumido", "suspeito"!!!

Quando cê quiser elogiar um prato que provou e gostou, diga-"tiene un sabor tan esquisito"!!! Esquisito é diferente, especial, raro.

E "raro" em castellano? significa esquisito. "La chica es mui rara": a menina é muito estranha, esquisita...

E quando quis comprar uma escova de dentes? pedi na maior, crente que tava abafando, uma "escoba" (tendo o cuidado de pronunciar o b em vez de v. Ha! viajei!!! escova é "cepillo"!!! e linha pra costura? "linea"??? Nada a ver. O certo é "hilo".

Então acaba que o Castellano, apesar de ser uma língua latina, às vezes fica mais difícil pro brasileiro falar corretamente do que uma língua anglo-saxônica, justamente por ser tão parecido, mas nem tanto...

13 September 2006

meu site


Estamos em contagem regressiva, assim esperemos todos!!!!

Desde abril, umas semanas mais, outras menos, mergulho no passado resgatando preciosidades para o meu site, que deverá entrar no ar no meio de outubro. Aprendi formatar imagem, editar vídeos, editar loops, mas isto é a parte técnica da coisa, exige empenho, inteligência, praticidade, clareza, lógica e discernimento. Só? hehehe... isso a gente arruma aqui e ali... Mas a parte da escolha do material é que consome, e consome... milhares de critérios pessoas passam pela cabeça (e coração) na hora de escolher esta ou aquela foto, este ou aquele recorte de jornal. Isto, acreditem, não é fácil. Escolher. Claro que só dá vontade de colocar tudo tudo tudo, primeiro porque é mais fácil, segundo porque não iria faltar nadinha. Mas, e cabe??

E tem mais: ao mesmo tempo que tem a mente que trabalha objetiva, tem o inconsciente vivendo tudo aquilo de novo. Tenho tido sonhos surreais, inteiramenta surreais!!!

Dissecando com o bisturi da lembrança, recortando colando, copiando, escurecendo, clariando, inventando títulos, escolhendo cor, dimensionando, medindo, relatando... para colocar no site, para divulgar o meu trabalho, para trabalhar no futuro. Fins profissionais. Não pensem que fico tristonha num canto sombrio a lembrar dos "velhos tempos bons"... nada disso. Na verdade são velhos, mas não foram tão bons assim pra querer voltar. Bom é agora. Como diz o Gil, o melhor lugar do mundo é aqui e AGORA. Não tenho saudades do que ficou pra trás, não tenho vontade de voltar no tempo.

HOJE é vivo, tem cheiro, se mexe, e posso mudar.

Agora me lembrei de um haikai do Leminski: HAJA HOJE PARA TANTO HONTEM.

A foto aí é de 1973, do show do Diana & Stul no Teatro João Caetano em prol do Teatro Oficina, do Zé Celso, que estava passando maus bocados. Diana encima do piano, Mario Jansen tocando-o.

11 September 2006

vontade de viver


Fiquei estatelada. Li no jornal sábado passado. Os suicídios superam mortes em guerra e crimes: cerca de um milhão de pessoas se matam a cada ano!!!!!! 90% sofrem de problemas mentais (quem serão os outros 10%????)

Continuando o artigo: "Especialistas dizem que a grande maioria das mortes poderia ser evitada, já que 90% dos suicidas são pessoas que sofrem de doença mental não diagnosticada nem tratada" (insisto: e os outros 10???)

De 20 milhões a 60 milhões de pessoas tentam se matar a cada ano. Dessas, aproximadamente um milhão morre.

E ainda: um terço dos suicídios em todo o mundo é causado por..... pesticidas!!!! Médicos, dentistas e veterinários são especcialmente vulneráveis, porque têm acesso a drogas letaais e sabem como manuseá-las!!!!

Nunca tinha pensado nisso. Sempre pensei em armas, desespero de se atirar na frente de um carro, gas..

Os especialistas diseram ainda que as pessoas que perdem o emprego abruptamente são mais suscetíveis a tentar se matar do que aquelas que já vivem há muitos anos em situação de pobreza.

Será?

Pessoas que vivem em países onde o suicídio é ilegal, como o Líbano e Índia, têm mais dificuldade de buscar ajuda se começam a ter pensamentos suicidas temendo punições por parte do governo...

Se você se matar, vai preso, heim:)

Mas agora falando sério... claro que pensamentos auto-destrutivos podem e vão brotar na cabeça de qualquer um a um momento qualquer da vida, aliás é até normal, fácil fácil... com a pressão toda em que a gente vive, a piração, o desequilíbrio, a carência afetiva, o rolar para o abismo, o absurdo que se planta diante da gente, a confusão, enfim... Sei muito bem como é isso... Mas é também normal a luta pela vida, a vontade de viver, pensar que vai melhorar amanhã... e o medo de morrer também pesa, né... o que será que vem depois, se é que vem, e se não vem, vai ser muito chato morrer... ce tem que estar muito muito muito desesperado fora de si. Bem, na verdade, a linha entre a calma e o desespero é muito tênue, uma bobagem. Pra morrer, basta estar vivo...

Estava pensando nisso tudo, e de repente olhei pra fora da janela. Essa plantinha ali no muro. Com que força e determinação conseguiu furar o cimento, e sem nenhuma terrinha, uma poeirinha sequer pra se nutrir, ali mesmo no concreto foi germinando, brotando ufa ufa ufa saindo, levantando, respirando, se colorindo de verde clorofila, com umas frutinhas vermelhíssimas... e agora tá ali, me olha gloriosa e brilhante.

Isto é que é vontade de viver. Acho que também sou um pouco assim. Quantas vezes já "furei um cimento"...

06 September 2006

Assis Valente


A primeira música de Assis Valente que ouvi foi Maria Boa, cantada por meu pai em casa e na gravação do Bando da Lua. Eu tinha menos de tres anos, e é bem possível de ter escutado bem antes, só que a minha memória -hehe- não chega até lá. Claro, eu não sabia que era dele, e nem tinha noção de quem ele era, mas ele já me encantava. E no Natal? por mais que Jingle Bells zoava por todos os cantos, era de Boas Festas, de Assis Valente, que eu gostava mais. A letra é tão triste, tão triste quanto o Natal... tão contundente... tão profunda.... tão complexa... tão verdadeiro... eu chorava e chorava... Lançada pelo Carlos Galhardo em 1933, virou o nosso "hino" natalino. E escolhida por Caetano no programa "Divino Maravilhoso", na TV de São Paulo, cantando apontando um revólver pra sua própria cabeça, isso em 1968, em plena ditadura militar, pouco antes de ser preso, quando tudo que se fazia era cifrado... em código... Boas Festas, de Assis Valente:

Anoiteceu
O sino gemeu
E a gente ficou
Feliz a rezar
Papai Noel
Vê se você tem
A felicidade
pra você me dar
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Já faz tempo que pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem

Essa é uma das músicas mais lindas que eu conheço.

Assis Valente nasceu na Bahia no dia 19 de março de 1911. Sua vida pessoal foi marcada por sentimentos trágicos, mas isso em nada afetou a sua música. Suas dores íntimas foram reprimidas para dar lugar a melodias esfuziantes de rara sensibilidade, que falam sobre cenas da vida com humor, inteligência, sátira, alegria, transmitindo uma visão extremamente pessoal. Originalidade. Simplicidade e sofisticação. Verdadeiras crônicas, retratos musicais de sua época.

Ainda criança foi roubado dos pais e levado para trabalhar em regime de semi-escravidão na casa de uma família, e de noite estudava. Trabalhou como farmacêutico e teve uma breve passagem pelo circo, como comediante e declamador- dos bons!!! Mais tarde se mudou pra Salvador, onde estudou no Liceu de Artes e Ofício, exercendo um de seus muitos talentos, o desenho. Também estudou odontologia, especializando-se em prótese dentária. Era um excelente protético, e por toda sua vida exerceu esta profissão.

Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1927 e conseguiu publicar desenhos seus em várias revistas cariocas. Em 1930 ele conheceu Heitor dos Prazeres, que o incentivou a compor e rapidamente foi tendo reconhecimento no meio musical. Seu primeiro samba gravado foi cantado por Araci Cortes, em 1932 -Tem Francesa no Morro- sátira muito divertida sobre o modo elegante de se falar o frances, língua muito em moda na época. Bonito, inteligente, bem falante, vistoso, era uma pessoa muito interessante, e foi ficando cada vez mais popular, e dá-lhe fotos, notícias, retratinhos distribuídos com autógrafo, participações em palcos, circos... um autêntico animador cultural de nossos dias. Casou e teve uma filha em 1941, mas o casamento não durou muito.

Um detalhe muito importante, que é mais que um detalhe, e mais que muito importante: foi um compositor que teve a ousadia de, num Rio de Janeiro repressor e censurante como o dos anos 30, abordar problemas do ponto de vista feminino, como em Fez Bobagem (1942), Camisa Listrada- (1937), Recenseamento (1949), entre outras.

Meu pai foi muito amigo dele, e contou que por uma época eles se viam diariamente, junto com o resto do Bando da Lua, que por sinal foi o intérprete que gravou mais músicas de Assis. E que ele era muito alegre, inteligente, simpático, tinha uma criatividade absurda, sua produção musical era copiosa, no mínimo uma música por dia, quando não duas ou tres... ele cantava a música já pronta -não tocava instrumento algum!... papai e os outros iam harmonizando.

Quando conheceu a Carmen Miranda ficou apaixonado, viraram grandes amigos e ele passou a fazer muitas músicas exclusivamente para ela. Foi uma fase muito boa: sucessos um atrás do outro na voz de Carmen: Good-bye Boy, Uva de Caminhão, Camisa Listrada, E o Mundo Não se Acabou... Quando Carmen se mudou pros Estados Unidos- 1939- ele se sentiu abandonado, mas já era bastante famoso, gravado por Orlando Silva, Araci de Almeida.. todos queriam gravar as suas músicas. Um ano depois, quando ele soube que ela viria ao Brasil, logo compos duas músicas pra sua musa: Brasil Pandeiro e Recenseamento, mas ela só gostou da segunda, ele ficou magoadíssimo... Mas foi assim que Carmen perdeu a oportunidade de gravar uma de suas obras primas, que foi logo gravada pelos Anjos do Inferno naquele mesmo ano, com extraordinário sucesso.

Mas as coisas não iam bem em sua vida pessoal. Tentou o suicídio em 1941 pulando do alto do Corcovado, sendo salvo por umas árvores e retirado pelo Corpo de Bombeiros. Tentou de novo uns anos depois, cortando os pulsos com uma lâmina de barbear. Mais uma vez conseguiu sobreviver, e mesmo passando por todo esses momentos difíceis, continuou compondo músicas lindíssimas, que viravam logo sucesso. Gastador, generoso, endividado, dividido e vivendo dramas pessoais profundos, pela terceira vez tentou o suicídio, e desta vez conseguiu: foi pra Praça Paris, aquela na Glória indo pro Flamengo... sentou-se num banco da praça... e no meio da criançada brincando ali na terra... ingeriu formicida com guaraná...

Isto foi em 1958, com apenas 47 anos...

Sua música está aí em shows, eventos, peças de teatro, cinema. Brasil Pandeiro teve várias outras regravações, sendo a mais marcante a dos Novos Baianos, em 1973. Voltou a ser extremamente popular em 1994, graças à uma campanha publicitária relacionada à Copa do Mundo. Outras regravações de suas músicas: Nara Leão- Fez Bobagem, Bethânia -Camisa Listada, Eduardo Dusek- Camisa Listada e Goodbye Boy, Clara Sandroni- Uva de Caminhão, Ney Matogrosso- E O Mundo Não Se Acabou- e tantos tantos outros... Na década de 90 estreou o musical "O Samba Valente de Assis" no CCBB, RJ. Suas músicas continuam atuais nos dias de hoje. Lembro por exemplo, que em 1999 correu um boato que o mundo iria acabar, tinha até o dia certo: 11 de agosto. Tarólogos, astrólogos, esotéricos, seitas diversas anunciaram o fim. Até mesmo quem não acreditava nessas coisas ficou cabreiro, porque a previsão era unânime, e foi muito divulgado, jornal, TV. Pois não é que a música de Assis Valente foi lembrada mais uma vez? E O Mundo Não Se Acabou (... e fui tratando de me despedir/e fui tratando logo de aproveitar/beijei a boca de quem não devia/peguei na mão de quem não conhecia/dancei um samba em traje de maiô/e o tal do mundo não se acabou...). E 'tamos nos aqui...

Adoro Assis, me identifico com suas músicas, muito por meu passado de filha do Helio, do Bando da Lua, isso tá no sangue, e tanto porque ele é simplesmente ge-ni-al!!! Canto várias dele, e nos shows de samba, canto o Cansado de Sambar, Amanhã eu Dou, Bis, Mangueira, Recenseamento, E O Mundo Não Se Acabou...

E aí vai a letra de Recenseamento. Viram quanta coisa que temos pra nos orgulhar???? Parem de reclamar da vida:)

Recenseamento
Em 1940
lá no morro começaram o recenseamento
E o agente recenseador
esmiuçou a minha vida
que foi um horror
E quando viu a minha mão sem aliança
encarou para a criança
que no chão dormia
E perguntou se meu moreno era decente
se era do batente ou se era da folia

Obediente como a tudo que é da lei
fiquei logo sossegada e falei então:
O meu moreno é brasileiro, é fuzileiro,
é o que sai com a bandeira do seu batalhão!
A nossa casa não tem nada de grandeza
nós vivemos na fartura sem dever tostão
Tem um pandeiro, um cavaquinho, um tamborim
um reco-reco, uma cuíca e um violão

Fiquei pensando e comecei a descrever
tudo, tudo de valor
que meu Brasil me deu
Um céu azul, um Pão de Açúcar sem farelo
um pano verde e amarelo
Tudo isso é meu!
Tem feriado que pra mim vale fortuna
a Retirada da Laguna vale um cabedal!
Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia
um conjunto de harmonia que não tem rival
Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia
um conjunto de harmonia que não tem rival

chocolate


Atenção!!! parem tudo que estiverem fazendo!!! com esse frio bendito que tá no Rio -ontem fez 10º no Alto da Boa Vista- parem, vão até à cozinha e preparem um chocolate quente. Ou melhor, se tiverem dispostos e animados, dêem um passeio até o Centro e tomem um chocolate quente cremoooooso tipo europeu, conheço dois lugares onde podem encontrá-lo: na R. da Carioca e na R. Senador Dantas. Mmmmmmmm, um chocolate quente cremoso desses bem quase pretos aquecem até os ossos. Você vai sentindo ele agir aos pouquinhos... as mãos e os pés antes gelados, vão ficando morninhos... e dá uma felicidade tamanha na mente...

A primeira vez que provei uma delícia tresloucada dessas foi em Madrid. Tinha chegado de um show fora da cidade, era um outono invernal, e estava amanhecendo. Deixei as malas no Hostal, mas tava frio demais pra dormir (não tinha calefação, aliás, foi na Espanha, na França e em Portugal que mais senti frio em minha vida, mais do que na Suiça, na Alemanha, nos EUA, porque nestes países onde neva, com aquele frio de geleira, existe calefação em absolutamente toooodos os lugares, você só sente frio mesmo andando na rua). Mas no quarto estava um frio incontrolável, impensável, insustentável... e embaixo na rua tinha um quiosquezinho. Fui até lá e pedi um chocolate com churros (na Espanha eles fazem esta combinação, parece estranho, mas depois de provar, cê vê que foram feitos um pro outro).

Nunca esqueço daquela caneca pelando, esquentando meu corpo. Como diria a Suzy, minha irmã, como é bom uma coisa quentinha entrando... O primeiro a gente nunca esquece, depois tomei incontáveis copos, trouxe pro Brasil pacotes daquele chocolate cremoso. O da foto foi um chocolate com churros que tomei com Nuria e Walter em Madrid, em 2005, numa chocolateria que faz seu próprio chocolate, o San Gines.

A palavra chocolate vem do asteca cacauatl, e seu nome científico é Teobroma- que em grego quer dizer, comida de deus.

Mmmmmmmmmm.....

02 September 2006

Festival Universitario 69


A fantástica foto aí foi scanneada do jornal e mostra a Equipe Mercado em plena ação no Festival Universitário de 1969 em São Paulo, na TV Tupi. Atrás, o Grupo Oel fazendo sua performance de escovação dentária (o patrocinador era a pasta de dente Ultrabrite), na frente temos a participação de Naná Vasconcellos na tumbadora, depois Ronaldo Periassú na pose de Tarzan Urbano, Ricardo Guinsburg no violão e voz, Diana na voz e percussão, Lemgruber e Stul na guitarra e baixo e vozes.

A música apresentada era "Poesonscópio de Mil Novecentos e Quarenta e Quinze", da dupla Guinsburg/Periassú.

Apesar de termos nos apresentado antes, pra mim essa foi a verdadeira estréia. Essa foi o ponto de partida, o número um, foi onde tudo começou.

As reuniões foram na casa de Ronaldo e Ricardo, em Santa Teresa. Foi a primeira vez que andei de estribo, me lembro tanto da sensação, aquele vento veloz e fresco na cara, me senti tão livre... também senti um pouco de medo, principalmente quando o bonde desandou a correr, tive que me agarrar muito bem... dava cada rabada... não acertei bem a posição, e foi um esforço tremendo. Depois virei bamba no esporte, dando aulas aos neófitos. Tem uma exata posição que permite o usuário relaxar e curtir a paisagem, mas naquela noite ufa!

Voltando ao festival. Já tinha se formado uma estrutura de produção em nossa volta, que cuidou do transporte, estadia e alimentação. Tudo era novidade, e eu estava me sentindo num sonho. Viajar com a banda. Conhecer São Paulo. Pegar o trem de noite (não dormi um pingo, inteiramente ansiosa e excitada com aquilo tudo). Amanhecer em outra cidade. Um hotel. Tudo já no esquema, uma kombi nos esperando pra levar à TV, na Brigadeiro Luiz Antônio. A platéia. A gravação ao vivo do Festival. Os imprevistos durante a apresentação (a platéia jogava coisas na gente... não foi exatamente uma reação favorável...). E depois veio o resultado: prêmio de originalidade. Não ganhamos o Festival, mas ganhamos espaço pela primeira vez para mostrarmos o nosso som. E dali foi acontecendo tudo, mais festivais, gravações, shows. Nossa música tocando na rádio, nossa música tocando na rádio, nossa música tocando na rádio!!! Agora ninguém mais segura!!!

Sonhos, sonhos e sonhos. Que nos ajudaram a passar por aqueles anos funestos em que o Brasil adentrava um fosso tenebroso sem luz no fim, gosmento, fétido, horrendo, apavorante. Sonhos, sonhos e sonhos. Que seria de mim sem eles???

frio e sol


Que dia lindo ontem, que dia lindo. Um céu tão azul, um azul tão profundo, tão forte... na sombra tava até frio, mas no sol.... aquele sol tão gostoso que amorna. A paisagem tão nítida, as fachadas das casas, folhas, pedras, meio-fio, carros... como se eu tivesse passado uma flanela no vidro do meu globo ocular e de repente desembaçou tudo. As cores tão fortes. Me deu vontade de ligar pra todos os meus amigos e dizer pra sairem pra rua e olharem como o dia estava lindo. É raro ter um dia assim, tão especial. A Serra do Mar inteiramente visível no horizonte, aquela linha subindo e descendo desenhando as montanhas... Tinguá, Dedo-de-Deus, dava pra ver tudo.

E a outra coisa boa foi que de ontem pra hoje ganhamos a noite mais fria do ano, 10º!!!!!! começo de setembro. Estamos quase na primavera, e no entanto...

Tirei uma foto desse céu de anil, que aliás foi eleito (li no jornal há pouco tempo que existe um concurso, plebiscito, sei lá.. não é incrível haver uma coisa dessas? acho que na Europa. Ou será nos EUA?) o céu mais azul do mundo!!!! E olha que visitaram lugares paradisíacos -Caribe, Polinésia- e quem ganhou foi o céu do Brasil!!!

Somos os campeões mundiais de CÉU!!!!!!

30 August 2006

respondendo ao Lucas


Lucas, estou curiosíssima em saber como cê tomou conhecimento da Equipe Mercado. Você com 22 anos!!! Aquilo foi há 37 anos atrás, cê ainda estava loooonge de nascer... Como foi???? E mais curiosa ainda: a entrevista que o Nelio fez na Senhor F!!!! Olha, até músicos antenados com o presente e passado não conhecem, e quando lhes mostro as gravações e conto detalhes, se amarram!!!

Um reconhecimento assim que nem o seu deixa a gente muuuuuito feliz... Mais ainda: sabe uma gota que cai num lago e faz um ondular que vai crescendo, crescendo até percorrer toda a sua superfície? pois é, é assim que me sinto quando acontece isso: a gente teve uma vida curta, de 69 a 71, não tivemos quase registro nenhum, não temos um clipezinho, nenhum minuto filmado de show, mas foi tudo muito forte, a época era muito especial politicamente, culturalmente, filosoficamente, esteticamente. Mas voltando pra gota que cai no lago: foi como uma gota, mas provocou um marulhar.... um marulhar que continua vibrando na superfície do Planeta Música até hoje, a Equipe Mercado e tudo que ela representa continua viva, com reconhecimentos como o seu!!! sentimos que não foi em vão, algo restou daquilo tudo!!!

Várias perguntas suas foram respondidas no post "respondendo": sobre as gravações e fotos da EM, a gravação do Cérebro Eletrônico que não houve porque ninguém gravava ao vivo, não havia nem walkman... e sobre o desinteresse das gravadoras em trabalhar com música não-comercial e sobre não haver gravadoras alternativas na época, e nem computador, programas de gravação caseira. Agora tá uma beleza, mas na época tudo era difícil, tudo era experiência, mas delicioso porque a criatividade rolava solta (queríamos fazer uma coisa, mas como??? então inventávamos..) em tudo que fazíamos, na música, na comida, nas roupas, na decoração caseira, nas relações afetivas, nos costumes, enfim... queríamos mudar o mundo, né?

Ainda respondi à sua pergunta sobre as gravações do Bando da Lua no próprio post. Não houve propriamente uma data que o grupo acabou, foi acontecendo aos poucos, primeiro Ivo Astolfi saiu e foi substituído pelo genial Garoto (1940), depois nos Estados Unidos o Bando passou a ser mais acompanhante da Carmen do que continuar seguindo com seu trabalho original e próprio e meu pai (Helio) resolveu cair fora em 42-43, junto com o Vadeco, e foi assim. O Ruy Castro conta esses detalhes e milhares de outros no seu excelente livro Carmen, lançado recentemente. É uma leitura obrigatória pra quem se interessa em saber sobre o Bando, a Carmen e sobre toda essa Época de Ouro da nossa música. Imperdível.

Mande-me seu email se quiser receber mais detalhes sobre esses assuntos, gravações, fotos...

Ah, e obrigada pela dica dos vídeos do Monk. Eu tenho uns maravilhosos: Straight no Chaser e um da coleção da Masters of American Music, fora outras tomadas que gravei da TV.

29 August 2006

katrina


Esta foto apareceu ontem no O Globo online, ilustrando uma reportagem sobre a passagem do Katrina por Nova Orleans há um ano atrás. Que imagem impactante!! O mar azul lá no fundo dando a impressão de uma serenidade eterna, uma placidez tamanha... uma árvore solitária pequena mas bem enraizada, firme, forte, sólida, que soube vencer o furacão.... o resto é devastação total, escombros, ruínas, e no meio disso tudo, um piano de cauda sem tampo mas inteirão ali plantado, com todas suas teclas, suas cordas aparentes ali no meio de tudo, indefeso, exposto ao sol, ao vento, à chuva, indefeso mas enorme, maçico, potente, inteirão, um verdadeiro monolito, uma rocha inabalável, indestrutível, imperecível, indefectável, imortal.

De quem foi esse piano? Por que ninguém veio resgatá-lo após a tragédia? Seu dono morreu? Ninguém quis se apropriar dele? Quantas alegrias deve ter dado a quem o possuiu... quantas festas, quantos momentos inesquecíveis, quantos saraus, quantas mãos o tocaram, quantos blues, quantos jazz....

Um piano desses é um instrumento e tanto. Quem me dera ter um. É um sonho...É uma preciosidade...

Mais preciosas ainda foram as vidas que se foram... da população negra mais pobre, a mais atingida. E quem sobreviveu, como foi reconstruir suas vidas, seus lares, suas famílias, seus pianos? Houve negligência por parte das autoridades... poderiam ter tomado providências urgentes, evacuado a população...

Mas nada foi feito, só as lástimas do após. Fica esse piano como registro, agora tocado pelo vento. Um piano eólio. Suas cordas quentes pelo sol, refrescadas pela chuva, borboletas nas teclas, ninhos de pássaros na sua caixa, trepadeiras subindo por seus pedais, até um dia se transformar em ruína também....

26 August 2006

arquiteta


Tem certas coisas que a gente faz crente que aquilo é aquilo mesmo, depois vê que "aquilo" só serviu de pretexto pra "isto" acontecer, e nada mais.

Quando fiz 21 anos, encasquetei que tinha que ter um diploma de curso superior. Quem era mais inclinado às Artes só tinha uma opção na época: fazer Arquitetura. Eu era pianista clássica, desenhava, tinha feito teatro... definitivamente, não poderia ser considerada uma "cientista". Encarei o vestibular e entrei pra FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ) em 1968. Que peso tem esse ano! AI-5. As passeatas. Aquele peso pesado que marcou o chão e o ar, a noite e o dia. E eu, recém-ingressa na faculdade, calourinha, sem maiores envolvimentos políticos, rapidamente aprendi a repensar o mundo, assistindo as assembléias no diretório, indo a reuniões estudantis, empunhando um color-jet (era assim que a gente chamava o spray) na mão pixando ônibus, e fugindo com a massa da polícia e os cavalos.

A Universidade foi marcante. Tive a certeza que era isto que queria, ser arquiteta. Idéias na cabeça, mão firme, prancheta, regua-T, estojo de canetas oxford, maquetes, papel manteiga e vegetal.

Mas agora vem aquela coisa que no começo comentei, e que não dá pra prever nem controlar. Não é que justamente ali um pessoal, me ouvindo cantarolar nos extensos corredores da FAU, gostou da minha voz e me chamou pra fazer parte do grupo de rock deles, o Cesar, Marcus et Trajanus (Antonio Cesar Lemgruber, Marcos Stul, Trajano Lemos)???? Bom, pelo menos no nome do grupo meu nome encaixava... et Diana!!! E com esse convite, fui aos poucos dando adeus à carreira de arquiteta (sem perceber, quando vi já tinha abandonado, nem tranquei matrícula).

A seriedade com que me preparei pro vestibular, o horário integral do primeiro ano de faculdade (o dia todo), as provas, as noites viradas estudando, tudo isso foi interrompido, diria até que desprezado, pra dar lugar à música. E o que começou sem a menor pretensão, sem eu ter nunca sonhado em fazer, que parecia quase uma brincadeira, acabou sendo a razão do meu viver ai ai...

Pra ilustrar, uma foto da FAU daquela época. Este é o lado dos "ateliês", que eram as salas onde desenhávamos os projetos. Você escolhia um (com mais uns dez colegas), e este seria o seu até o final do ano letivo. Guardo esta foto junto com as grandes amizades que ali conheci e que duram até hoje. Valeu!!!!

24 August 2006

tangerinas


Tangerinas. Que perfeição da natureza. Que cor. Que gosto. E tão amigáveis... com apenas uma leve pressão a casca sai quase que inteirinha... Tão tenra, tão macia, tão suculenta, tão sensual... é só olhar pra essa foto!

Não dá pra comer só uma. No mínimo duas. No outro dia comi cinco de uma vez.

Não dá pra comer escondido, o cheiro dela se espalha no ar, e a casa inteira fica perfumada.

Tangerina é pra se comer a qualquer hora, em qualquer lugar. Até no meio da rua... a casca dela serve de pratinho, enquanto ce vai atacando os gomos.

Tangerinas têm vários codinomes, dependendo do lugar onde se for comer: mexerica, mandarina, laranja-cravo... e são várias as espécies, desde a ponkan -que derrete-se na nossa mão ao menor contato- até a "tanja-bode", dificílima de descascar.

Mas ela tem a sua estação, e o momento é agora. Aliás, é melhor andar rápido e aproveitar, porque a estação de tangerinas está acabando.

No outro dia, fiz uma geléia de tangerina com frutose, que na verdade ficou mais parecido visualmente com doce do que com geléia, que é mais translúcida. Mas modéstia à parte, ficou demais. To pensando até em, quem sabe, levar isso à sério. A grande dúvida é -como conservar? pra fazer um estoque de meses?

frio e chuva


Como o frio é bom. Como a chuva é linda. Como eu gosto das duas, separadas ou juntas. Depois de um verão -ops! verão não, um inverno de 35º- de repente vem uma pequena frente fria pequenina de presente pra mim, e fico tão feliz, tão grata, tão inspirada, tão talentosa!!!!

Mas não posso sair falando isso pra qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer hora, porque gostar de frio e chuva aqui no Rio é inconfessável. Não se pode falar isso impunemente. As pessoas olham como se você fosse um ET, e é assim que me sinto mesmo: gosto de coisas que ninguém gosta. Bem, ninguém não, mas... a grande maioria carioca.

Gosto de pôr casaco. Gosto de ficar embaixo das cobertas. Gosto de andar sem pingar, sentar sem estar com costas e coxas grudentas mesmo na imobilidade total, encontrar as pessoas, beijar e abraçar sem estar inteiramente empapada de suor, escorregando pelas faces, mãos, testa, pescoço, membros. Gosto de pôr botas. Gosto de fazer um bolo e chamar os amigos pra tomar chá. Gosto de comer muito. Gosto da penumbra e o mistério que a chuva traz, nuvens no céu, tempo de pensar, introverter. Mas isso é tão raro, são dias no ano que tenho que aproveitar e agradecer.

Gosto de olhar a chuva cair desde o horizonte, nas casas mais perto, no beiral do meu telhado formando uma cortina de cristais líquidos. As poças saltitantes na calçada, os veios de rios correndo pras sarjetas, as plantas e os troncos das árvores escuras, brilhantes, de cores vivas e berrantes. Vivo, tudo vivo. Parece que fico mais perto de mim. O som de chuva é música, volta e meia gravo o som da chuva e escrevo no K7- acontecimento fenomenal. E seu cheiro? esvazio meus pulmões e, numa única aspiração profunda e demorada, encho eles de novo sentindo esse cheiro tão forte de terra molhada, e que me arrepia o pelo de tão inebriante.

Chuva sem frio também é bom, que sempre refresca um pouco o bafo veranosufocante.

Frio sem chuva também é bom, com aquele sol gostoso no céu azul que aquece mas não derrete, deformando nossa cara e criando miragens desérticas no asfalto mole. Não. O sol de inverno é indispensável, corremos pra ele pra sentir como é bom estar vivo. E como é bom estar vivo!!!! é tão rápido, num instante passa, tanta coisa pra fazer, tanta coisa pra ser, tanta coisa pra ver... e tão pouco tempo para estar, só estar, nada mais que estar.

16 August 2006

O Bando da Lua


O BANDO DA LUA é conhecido por ter acompanhado Carmem Miranda, mas poucos sabem que antes de trabalhar com ela, o grupo já fazia muito sucesso. Aliás, foi por isso que Carmen insistiu em levá-lo junto para acompanhá-la em sua carreira internacional.

O Bando da Lua foi o primeiro conjunto vocal brasileiro . A sua primeira formação foi de um grupo grande de mais ou menos 17 rapazes que se reuniam na Villa do Mota no Catete (1931), onde ali tocavam e ensaiavam para os bailes de carnaval de rua, com o nome de Bloco do Bimbo. Aos poucos começaram a fazer sucesso e tiveram que “enxugar”: de 17 passaram a ser sete e finalmente, seis: Aloysio de Oliveira (voz solo e violão), meu pai Helio Jordão Pereira (violão e vocal), Osvaldo Éboli, o Vadeco (pandeiro), Ivo Astolfi (violão tenor/vocal) e os irmãos Stênio e Afonso Osório (Stênio, cavaquinho e vocal e Afonso, percussão, flautim e os inspiradíssimos efeitos especiais).

Esta foi a sua formação original, e foi com essa formação que os rapazes alcançaram a fama com seus arranjos vocais e instrumentais originais e altamente criativos, modernos (até hoje!), vindo a fazer muito sucesso nas rádios, nos cassinos, nos teatros de revista. Foram amigos de gente como Assis Valente, Custódio Mesquita, Silvio Caldas, Ari Barroso, Nássara, participaram de vários filmes (“Alô Alô Carnaval”, "Estudantes") e o seu sucesso passou a fronteira, indo tocar na Argentina, no Chile e no Uruguai.

Em 1939 Carmem Miranda foi contratada para cantar nos Estados Unidos e chamou o Bando para acompanhá-la, contrariando o empresário Lee Shubert, que, além de não querer complicações com o Sindicato dos Músicos de lá, não via a menor razão em levar seis músicos brasileiros, quando conhecia excelentes músicos americanos que poderiam tocar perfeitamente com ela. Mas a Carmen era esperta e sabia que nenhum músico americano, por melhor que fosse, poderia dar conta do recado, e em meio a várias manobras, finalmente conseguiram o contrato.

Ela estava certa. Foi um arraso. Bastou uma só apresentação de minutos para conquistarem a Broadway. Foram os primeiros divulgadores da nossa música nos EUA. Os pioneiros.

Pois é, meu pai Helio viveu essa experiência, e sou herdeira de sua história. O seu violão e a sua voz, junto com a música do Bando, foram a minha primeira influência musical. Marcaram-me profundamente. E sobre isso, tenho muuuuito que contar!!!!

Gravações do Bando da Lua não são fáceis de encontrar. Existem dois vinis: um, de músicas gravadas no Brasil pelo Bando, que tem também músicas do Trio TBT e do Conjunto Tupi. O outro são gravações americanas do Bando da Lua original e também do outro grupo que Aloysio formou depois nos EUA com o mesmo nome. Há um CD do selo Revivendo, com músicas do Bando da Lua original, Anjos do Inferno, Grupo "X" e 4 Ases e 1 Coringa. E também quatro fitas K7 com a obra completa do Bando (88 músicas) da Collector's Editora Ltda (Rua Visconde de Pirajá 550, sala 110, Ipanema, CEP 22416-900).

Na foto, de baixo pra cima: Vadeco, Aloysio, Ivo, Stênio, papai e Afonso. Boa Viagem e Boa Sorte!!!!

12 August 2006

pensamentos cosmicos



Dizem que Marte vai poder ser visto de muito perto neste mes de agosto. Diz o texto que "a Terra ficará alinhada à Marte, proporcionando um encontro que culminará na maior proximidade entre os dois planetas jamais registrada. Devido ao modo como a gravidade de Júpiter atua sobre Marte e interfere na sua órbita, os astrônomos podem apenas assegurar que Marte nunca esteve tão próximo da Terra nos últimos 5.000 anos. Será (depois da Lua) o objeto mais brilhante no céu noturno. Marte parecerá tão grande quanto à Lua cheia". Dia 27 será o auge.

Já imaginou? uma imensa bola vermelha à meia-noite boiando no céu?

E só em 2287 é que poderemos ver isso de novo... hmmmm... não sei sei ainda estarei por aqui... por isso é melhor aproveitar agora:)

Sou fascinada por Astronomia, só não segui a profissão porque essa vida é muito curta, e não dá pra fazer tudo que a gente gosta... e também porque... hehehe... não tenho muito jeito pra matemática. Me contento então em deitar numa grama gostosa, numa noite estrelada sem a mínima lua e olhar o céu... em algum canto fora da cidade.

Não conheço lugar melhor que a Lagoa das Lontras. Longe de tudo, perto de nada. Muito alto, encostada no céu. Minha impressão era de que tinha tanta estrela, mas tanta estrela, que se entrasse mais uma o céu iria explodir, não cabia mais. Estrelas cadentes aos montes, nem tinha graça fazer mais pedidos. Foi lá que aprendi que aquelas estrelas vermelhas que eu estava vendo ali não existiam mais. Que mistério. Que encanto. A primeira vez que vi um satélite artificial cobrindo a sua rota, meu coração disparou... pensei em se tratar de um disco voador... como desejava ver um disco voador, um ovni, algo que me provasse existir vida em outros planetas... porque o universo e eu ali naquela intimidade toda me fazia pensar nessas coisas, o que é a Terra, o que nos liga aos outros astros, tudo se mexendo, se movimentando em translações e rotações, funcionando direitinho noite após noite numa engrenagem espetacular, tudo parece igual mas tá tudo diferente a cada minuto que passa... como seria lá no alto, o que tem ali... e os buracos negros... e o sentido de tempo no espaço... a relatividade... o macro e o micro... meteoros... cometas... anéis de Saturno...

E pra ilustrar, uma foto que achei na internet, tirada em Connecticut, no final dos anos 80. Mostra as galáxias de Andrômeda e de Triangulum, as maiores e as mais perto da nossa Via Lactea. A de Andrômeda (o pontinho felpudo encima no centro) foi descoberta em 953 AC por Al-Sufi, um astronomo persa, que chamou-a de "pequena nuvem". Hoje sabemos que ela é maior que a nossa própria galáxia, e pode ser vista a olho nu em lugares distantes das grandes cidades. A galáxia Triangulum está no centro inferior (duas estrelonas encima e tres fazendo um "sorriso"). A brilhante estrela encima à direita é Alpheratz, ou Alpha Andromedae. Trançando uma diagonal a partir dela, estão Mirach (Beta Andromedae) e Almaak (Gamma Andromedae). Estrelas numa constelação são nomeadas por uma letra grega em de acordo com o seu brilho. Alpha é a mais brilhante.

Não é arrebatador uma visão dessas?

Muito bom ter pensamentos cósmicos. Noturnos. Dá a sensação de que faço parte de um todo, coisa que no corre-corre do dia-a-dia, ao contrário, esqueço de sentir...

09 August 2006

respondendo


E agora, respondendo sobre a Equipe Mercado: gravamos dois compactos simples e uma faixa no LP Posições, em que também participavam o Módulo Mil, o Som Imaginário e A Tribo. Apesar de termos tido mais material, as gravadoras não se interessaram em gravar mais, não era um som comercial. Isso foi há 36 anos!!! mas parece agora, né?

Um detalhe importante: não havia gravadora alternativa, independente como tem hoje. Não havia o programa Pró-Tools, com o qual a gente grava em casa mesmo. Não havia computador!!!!! Dependíamos inteiramente de uma Odeon, uma CBS, uma RCA...

Sobre fotos da época (não confundir com "de época":). Bem, nessa época, pouquíssima gente tinha máquina fotográfica. As fotos eram tiradas por amigos fotógrafos iniciantes que tinham laboratório em casa, revelavam e copiavam o filme em preto e branco (isso já não parece NADA com agora, né?) Fui aprendiz desse ofício e vivi horas e horas noturnas experimentando técnicas, vendo diante dos meus olhos a imagem se formar dentro daquela água reveladora. Magia pura. Tudo preto e branco. Foto colorida era caríssimo, só em lojas especializadas, nem me lembro direito de ter em mãos alguma. Filmadora então, nem pensar... portanto não tenho registros de audio ou vídeo dos shows da Equipe Mercado (1969-71). É bem possível que alguma TV tenha guardado algo nos seus arquivos, se é que guardam, não sei... Lembro-me de profissionais filmando em certos shows, e com certeza nos Festivais Universitários que eram transmitidos na TV e assistidos por uma multidão (tinham tanto IBOPE quanto as novelas de hoje, todos comentavam e torciam por sua música favorita). O que tenho são fotos de divulgação, e muuuuita coisa de jornal, cartazes etc.

Aguardem, meu site está sendo feito, aí vou mostrar tudo!!!! ou quase...

Como, em tão pouco tempo, os recursos de áudio e vídeo evoluiram de tal maneira que 30 anos atrás parecem 100. Agora tem mp3 num apetrecho do tamanho de um isqueirinho, tem celular, e celular tira foto, cameras das mais simples fazem filminhos, joga-se no computador, tira-se cópia pra divulgação, grava-se em casa, enfim... é um outro mundo, um outro planeta. Sou apaixonada por essa era digital, vou correndo esbaforida atrás tentando acompanhar as novidades, e claro, sempre me passam pra trás. Não faz mal, me divirto assim mesmo!!!

Pra ilustrar, uma foto da Equipe Mercado na entrada da Boite Sucata, janeiro de 1970, divulgação do show scaneada do jornal.

Antes do até, um lembretinho (não confundir com lambretinha:) pra você que manda um comentário sobre o blog pro meu email: deixe seu comentário clicando no "comments", pra eu poder publicar. E pra você que me faz uma pergunta mais específica, deixe seu email para poder lhe responder, vale?

Até!

mais Monk



Vim conhecer a obra do Monk já tarde, e claro, a primeira música foi Round Midnight, que é a mais famosa, com milhares de versões instrumentais e também cantadas. Encantei-me com os caminhos da harmonia + melodia, achei difícil, estranho, belo. Depois fui me interessando pelo resto de sua obra. Não há uma só composição sua de que eu não goste, que eu não sinta uma profunda identificação. As preferidas: Monk's Mood (um desafio. canto ela com letra minha no show com Tomás), Crepuscule with Nellie, Misterioso (um haikai), Reflexions, Pannonica, Brilliant Corners, In Walked Bud, Ugly Beauty, Monk's Dream, Friday the Thirteen (só o Thelonious pra fazer a melodia dar uma sétima maior com um acorde de sétima menor) , Locomotive, Dear Ruby, Off Minor, Epistrophy, Jackie-ing, Blue Sphere, Between the Devil and the Deep Blue Sea (que título!!!), e por aí vai. Adoro ver seus vídeos, aquelas mãozonas nas teclas com uma técnica oposta à que aprendi na Academia (fui pianista clássica, ia até seguir carreira... é uma outra história...), aqueles dedos de mãozona aberta, batendo nas teclas e que dá tão certo, fica tão bom, aqueles anéis enormes rodando em seus dedos, e ele re-posicionando-os enquanto toca- me dá uma aflição, por que não os tira logo??? Seu rosto inteiramente "possuído" como num delírio expressionista, sempre brilhando de suor. Sua coleção de boinas, chapéus... Se levanta, dança, roda em volta de si mesmo, corre de volta ao piano pra pegar a deixa do sax...

A turma que toca com ele também é especial, pois pra tocar com ele tem que ser.

E Monk tocando standards de outros compositores? simplesmente genial, único, prefiro suas versões às originais: Smoke Gets in Your Eyes, I'm Getting Sentimental Over You, April in Paris, I'm Confessing, Dinah, My Melancholy Baby, Tea for Two, Sophisticated Lady... Tem músicas que não gostava e passei a gostar depois de ouvir sua interpretação...

Carmen Mcrae gravou um CD só com o repertório de Monk (letras de Jon Hendricks, Abbey Lincoln, Bernie Hanighen, entre outros), que me transporta pras lá entre "o diabo e o profunda mar azul"... Nunca ouvi Monk cantado tão genialmente. Ela e os músicos (Al Foster- bateria/ George Mraz- baixo acústico/Clifford Jordan- sax soprano e tenor nas faixas de estúdio/ Eric Gunnison -piano nas faixas de estúdio/Charlie Rouse -sax tenor nas faixas ao vivo- este tocou anos e anos com Monk- e Larry Willis -piano nas faixas ao vivo) fazem esse disco indispensável, não dá pra não ter- Carmen cantando Monk soa tão natural, tão fácil como respirar, mas no encarte ela afirma que foi um desafio e tanto... acredito!!! Atenção pra faixa Get It Straight (Straight no Chaser) em que ela faz um dueto com Mraz.

E os CDs com outras feras como John Coltrane, Duke Ellington, Sonny Rollins? dá nem pra falar, só ouvindo.

Pra ilustrar, a capa mais louca dos vinis de Thelonious, o Underground.

08 August 2006

Noel


Por Noel, todos sabem a quem eu me refiro. Noel de Medeiros Rosa (1910-1937). Agora estou me deliciando com uma coleção de 14 (quatorze!!!!) CDs que foram lançados na Coleção Noel Pela Primeira Vez, lançado pelo selo Velas, com o apoio da Funarte e do Ministério da Cultura. O projeto foi do pesquisador de música brasileira Omar Jubran, que organizou e produziu essa coleção de 229 faixas (duzentos e vinte nove!!!!), partindo dos 78 rotações e digitalizando tudo que já tinha sido antes, e mais outro material inédito, raridades, gravações de rádio, músicas que não foram gravadas porque os cantores esqueceram a letra, etc etc.... Com essa coleção (cronologicamente gravada), dá pra observar nitidamente a grande transformação pela qual passou a música nesses anos 30: do samba amaxixado ao samba do bairro do Estácio (Ismael Silva, Bide, Marçal). Noel começa com temas caipiras, depois maxixe, então "descobre" os negros dos morros, e vai elaborando cada vez mais suas músicas, até a sua morte prematura, com somente 26 anos e meio... Noel é crítico, cínico, de um humor ferino, filosófico, cronista de sua época, e ao mesmo tempo sofrido de amor, autopiedoso, masoquista, vingativo.. Tudo podia ser convertido em letra de música pra ele: assassinato, prostituição, política, miséria, fome, futebol, doença.

Participações extraordinárias nos CDs: Francisco Alves, Mário Reis, Sílvio Caldas, Marília Baptista e a insuperável Araci de Almeida, mais Pixinguinha e os Diabos do Céu nos acompanhamentos, só para citar alguns.

Uma pisca de biografia: criado em Vila Isabel, cultivou uma polêmica briga musical com Wilson Baptista (outro genial compositor): o "malandro da Lapa" versus o "mocinho da Vila". Sua grande paixão na vida foi a Ceci, uma dançarina de um cabaré da Lapa. Tuberculoso, nem a doença o afastou da vida boêmia. Seu último samba -Eu Sei Sofrer- foi gravado por Araci de Almeida e Benedito Lacerda exatamente no dia de sua morte. Muito pra se falar de Noel.

Na verdade. vão ser semanas pra ouvir isso tudo. Meses? é.

05 August 2006

astros errantes


Ontem no O Globo, na página Ciência e Vida, tem uma ilustração linda. São os "astros errantes". Trata-se de dois planetas recém-descobertos que não giram em torno de estrelas, mas um em volta do outro, vagando livremente pelo espaço. Isto é surpreendente, pois todo mundo sabe, a gente aprende no primário, que planeta gira em torno de estrela. O nosso Sistema Solar é um exemplo, planetas frios orbitando a estrela quentefumegante Sol. Como ele, tem milhares de outros. Mas o que será que aconteceu com esses dois planetas? desgrudaram de suas órbitas? cansaram da rotina? uma bela noite resolveram seguir seu próprio rumo, criar seu próprio caminho, vagar, errar, se perder na imensidão, ao invés de ficar a vida inteira em volta de um astro que não lhes dava a mínima bola? Parece gente!!! Será que tem outros assim? Muitos? Então essa definição de planeta já não pode definir mais nada.
Indefinível. Indecifrável. Inexplicável.

03 August 2006

cerebro eletronico burro!

pois é, estou apanhando desse "cérebro eletrônico" que está aqui nas minhas mãos... tentando consertar um erro gravíssimo postado anteriormente, mais precisamente no texto de título "contrastes"... um lapso louco me fez confundir os nomes daquele assassino Pimenta..... (até bloqueei seu sobrenome... Neves??? aquele jornalista que matou a namorada pelas costas num haras -não confundir com harém...) com o Pimenta da Veiga meu deus... coitado, que horror. Doida! Tomára que esse blog nunca chegue aos olhos deste injustiçado... e vocês que o lerem, me perdoem essa distração, esse erro amnésico, essa falha imperdoável. E pra aumentar minha aflição, agora edito um novo texto, mas o velho não sai dali. Computador burro, não sabes mudar? mas se já mudaste textos meus antes.... como que agora te recusas? estás do lado de quem afinal? tenho o direito de errar, errar faz parte... sou humana, demasiadamente humana, minha cabeça falha de vez em quando, é normal. Assim como tenho o direito de errar, tenho direito de consertar o erro. Mas tu és um burro. O que mais preciso fazer pra que entendas que o texto antigo é pra trocar pelo novo? quero meu dinheiro de volta....

28 July 2006

nunca mais


Como é que é isto? Como é que a gente faz quando uma pessoa vai embora pra sempre? quando parte? quando tava ali falando com a gente na véspera, e uns dias depois inconsciente, e outros dias depois não se mexe mais, pra nunca mais??? Essa palavra -nunca- é radical. Tão radical, que não merece ser levada a sério, em se tratando de qualquer assunto em vida, como -nunca vou beber de novo- nunca mais vou viajar de avião- nunca mais vou falar contigo etc etc...A experiência nos ensina a nunca dizer nunca... Nunca só tem o seu significado pleno, cheio, verdadeiro, confiável, em presença da morte. Nunca mais vou ver essa pessoa- nunca mais vamos conversar. Nunca mais. Não tem meio termo. Não é mais ou menos. Não é de vez em quando. Não é raramente. Não se trata de um talvez. Nunca é nunca mesmo. Nunca é o absurdo. O que fazer? buscar explicações além-Terra? absurdo não se explica. Nunca mais. Minha única certeza é que não entendo nada, absolutamente nada da vida e da morte. É tudo mistério, e quero que continue assim.

24 July 2006

Thelonious Monk



Não tem pra ninguém. O Monk é o melhor de todos. Depois que ele apareceu, nunca a música americana de jazz (bem, e a internacional também...) foi a mesma. Estava a frente de sua época, e ao mesmo tempo enraizado no jazz tradicional. O mais criativo de todos. Original na sua música e em vários outros aspectos de sua vida- no jeito de se vestir, no modo de se expressar, no seu humor, no seu jeito de se apresentar no palco... Fala Monk:

"Anyone can use farout chords and seem wrong. It's making them sound right thats not easy" (Qualquer um pode usar acordes inusitados e soar errado. Fazê-los soar bem é que é difícil).

Pra quem não conhece, uma breve biografia tirado do seu site oficial:

Monk nasceu dia 10 de outubro (libriano!!!) de 1917 em North Carolina, e se mudou com a família para Nova York aos 4 anos. Desde cedo foi considerado um prodígio. Começou no trompete aos 9 anos, depois passando pro piano, e adolescente, tocava na Igreja Batista em quermesses e em shows amadores. Estudou no Peter Stuyvesant Music School, um dos melhores em NY. Em 1935 começou a se apresentar profissionalmente, e 2 anos depois montou seu primeiro quarteto.

Por volta de 1941 aconteceu uma revolução no ambiente musical de NY - o bebop, com novos conceitos sobre harmonia e rítmo- e um dos celeiros do movimento foi o bar Minton's, onde, junto com Monk, se apresentavam Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Kenny Clarke, Max Roach, entre outros. Só a nata. Só tinha fera. Gostaria eu de ter estado lá nesse exato momento (meu pai esteve...).

A maneira de Monk tocar já era por si só revolucionáriamente original: enquanto que a mão esquerda dos pianistas todos tocava poucos acordes, mantendo na direita solos muito rápidos, tecnicamente perfeitos, virtuosísticos (mas comuns..), tanto a mão direita como a esquerda de Monk eram ativas, usando toda a extensão do teclado, além de valorizar espaços e os silêncios das pausas, com um fraseado único e uma economia de notas, dando lugar aos outros músicos para que também desenvolvessem as suas idéias. Monk não estava interessado em escrever melodias para as progressões de acordes comuns e tão batidas, e em vez disso, criou toda uma nova arquitetura harmônica e rítmica mesclando a melodia. Dizia ele: "Quando uma canção conta uma história, quando adquire um certo som, então está acabada... e completa".

Coleman Hawkins foi o primeiro a contratá-lo para um compromisso extenso e o primeiro a chamá-lo pra gravar. Isto foi em 1944, mas até o começo dos 50 ele ficou meio no anonimato. A maioria dos críticos e muitos músicos também lhe eram hostis. Era muita novidade para aquelas cabeças, não dava pra entender, não dava pra assimilar... A Blue Note foi a primeira gravadora a contratá-lo. Isto foi em 1947 (ano que nasci. Enquanto ele arrepiava as noites da Big Apple, eu mamava..), ano em que também se casou com a Nellie Smith. Bem, em 47 ele estava com 30 anos, já era um veterano, tendo passado quase a metade da vida debruçada no piano!!!

Os discos na Blue Note são antológicos, geniais, mas comercialmente não foram grande coisa. Ninguém ainda estava preparado para Monk.

Em 1949 nasce seu filho Thelonious. O dinheiro está escasso e fica pior quando é preso injustamente por porte de drogas, assume o flagrante pra aliviar a barra do seu amigo Bud Powell. Com isso, perde sua licença para tocar em NY (o "cabaret card", documento obrigatório na época para se apresentar em Nova York), e fica 6 anos sofrendo as consequências. Apresenta-se então em Brooklyn, em shows esporádicos fora de NY, continua sempre compondo, participa de gravações com Sonny Rollins, Milt Jackson, Miles Davis. Em 1953 nasce sua filha Barbara, e uma ano depois vai para Paris, onde grava seu primeiro album solo na Vogue, uma prestigiadíssima gravadora, e é aí que finalmente Monk começa a ser notado. Em 1955 é contratado pela gravadora Riverside, onde grava verdadeiras obras-primas e passa a ser elogiadíssimo pela crítica: Thelonius Plays Duke Ellington, Brilliant Corners, The Unique Thelonious Monk, e o segundo album solo Thelonious Monk Alone, entre outros. Em 1957 recebe a ajuda da Baronesa Pannonica de Koenigswarter que vira sua grande amiga e mecenas, e que consegue seu "cabaret card" de volta. Logo começa a histórica temporada de Monk e Coltrane no Five Spot Café, que se estendeu por muitos meses e foi um sucesso extraordinário. A partir daí sua carreira foi para as estrelas.

Em 1961 ele formou seu Quarteto famoso, com o Charlie Rouse no sax tenor (esse foi até o fim; no baixo, primeiro Butch Warren, depois Larry Gales, e na bateria Frankie Dunlop, depois Ben Riley), e excursionou por todos os EUA, e Europa e Japão. Em 1963 se apresentou no Lincoln Center regendo sua própria Big Band, assinou contrato com a Columbia e em 1964 foi capa do Times, o que significava a consagração total e completa. Monk fica famoso, e aos poucos suas excentricidades vão sendo reveladas na mídia, muitas vezes mais frequentemente que a sua música. A Columbia, por sua vez, vai absorvendo um público cada vez mais pop rock, e o jazz vai dando seu lugar pra outros gêneros mais populares durante o final dos anos 60. A útima gravação de Monk foi em 1968, com a Orquestra de Oliver Nelson. Em 70 Charlie Rouse deixa a banda, e em 72 Monk é dispensado da Columbia. Monk forma outra banda com os saxofonistas Pat Patrick e Paul Jeffrey, e seu filho Thelonious na bateria. Ainda realiza uma tour com os Giants of Jazz -Dizzy Gillespie, Art Blakey entre outros, e sua última aparição pública foi em 76. Sofre um derrame irreversível em 1982 e doze dias depois, no dia 17 de fevereiro, morre.

15 July 2006

atracao pelo abismo


Uma pessoa tá fazendo uma prova importante, tipo um vestibular, coisa assim. Recebe a prova, lê a prova, e percebe que não sabe responder quase a metade. Em vez de fazer logo as que sabe, e ir tentando as outras, vai dando um pânico, e acaba entregando a prova o mais rápido possível pra acabar com aquele desespêro.
Uma pessoa tá vendo o jogo do Brasil X França, torcendo para o Brasil na Copa de 2006. França faz um gol. Em vez de torcer e torcer e torcer pro Brasil fazer um, e depois outro, pra desempatar, a pessoa não aguenta a angústia e grita pra França fazer logo dois, e fica o resto do jogo esperando o próximo gol da França e.... torcendo pra França!!!!!
Uma pessoa vai dormir tarde, mas sabe que precisa acordar cedo na manhã seguinte. Em vez de dormir as tres ou quatro horas que tem, prefere emendar, já que tá acordado, continuar... "daqui a pouco vou ter que me levantar mesmo"
Uma pessoa tem um bicho de estimação que está muito doente. O tratamento é lento, difícil, trabalhoso e estressante, mas oferece uma possibilidade de cura. Pra não ter que passar pelo processo todo tão desgastante, melhora um dia, piora outro, continua igual no outro, sente dor no outro, fica muito mal no outro, aí melhora, prefere acreditar que não vai dar certo, não tem mais jeito, o que resta é sacrificar o animal.
Uma pessoa tá fugindo de um sei lá, touro com chifres afiados e enormes, correndo, e de repente tem uma árvore, ele sobe de qualquer jeito sem nem pensar, de repente ele nota que subiu mais do que podia. Olha pra baixo,o touro, e à sua volta, um abismo. Em vez de esperar o touro ir embora, sim, porque touro não vai ficar esperando a presa descer, mesmo porque pessoas não são presas de touro... ele entra em pânico e se atira no abismo, pra acabar logo com aquela situação, aquela angústia, ela resolve pular no abismo. Já que a situação é essa, chegou a esse ponto, então melhor acabar logo com isso.
O que essas pessoas têm em comum? A atração pelo abismo.

13 July 2006

uma outra paixao


Uma outra paixão que tenho é por fotografia. Desde criança, quando fotografia significava ver meu pai abrir aquela máquina em forma de sanfona, um click numa pose ou paisagem e pronto! eternizava o momento, parava o tempo. Depois já adolescente e pós, amigos meus -poucos, que antigamente quase ninguém tinha câmera- tiravam fotos minhas, paisagens, bichos de estimação. E sempre eram fotos preto e branco. Me ensinaram a revelar o filme, que emoção entrar naquele quarto escuro, com somente uma lampadazinha vermelha acesa, ampliador, e misturando aquelas químicas na água, mergulhávamos o papel, e por magia a imagem começava lentamente a aparecer, lentamente a se revelar, mais um pouco, um pouco mais, ficando mais visível, visível, um pouco mais escuro, mais escuro, mais escuro e -epa! vamos tirar rápido que tá no ponto!!! aí mergulhávamos a foto em outra bandeja de água com outras químicas (ainda tenho o cheiro guardado no nariz da memória...) e assim fixávamos a imagem no papel. Que emoção. Eram noites em claro, era muito excitante, as horas passavam e quando víamos, o dia estava amanhecendo.
Hoje fotos em preto e branco são raras, ninguém mais tira, é difícil achar aonde fazer cópias de negativos antigos, eu ainda conhecia um lugar no Centro, o laboratório Wanda, mas até esse já fechou. Tenho muitos negativos que gostaria de fazer em papel antes que esse negócio acabe de vez, conheço mais um ou dois lugares, mas como há muito tempo não tenho ido lá, nem sei se existem mais...
Mas voltando ao início, que é por onde tudo começa, fotografia é uma outra paixão minha. Fico fotografando tudo, e agora com as digitais, benditas digitais, ce tira uma porrada de fotos de uma.... sei lá.... formiga, depois deleta a maioria e fica com duas... eu às vezes fico com todas :) hehehe...
Essa que taí foi tirada nos jardins de Aranjuez (sim, tem tudo a ver com o Concerto de Aranjuez!), a umas horas de Madrid. Era uma tarde estufante e Núria e Walter (ver Ruídos Asociados) me levaram pra conhecer esses tais jardins, e era tudo muito bonito, muito sombreado, de repente um lago de muuuuitos patos de todas as idades, patinhos patões, patonas, patinhas... surgiu à nossa frente. Saí clicando sei lá quantos clicks.... sairam boas, umas maravilhosaas, e essa é uma delas.
Amo essa foto. Ela podia se chamar "Tudo Depente do Ponto de Vista", porque se você olhá-la assim deitada é um pato placidamente nadando lento manso e sereno num lago idem. Mas se virar a foto na vertical, você vê um... touro!!! Os chifres desproporcionalmente grandes e por isso mais ameaçadores ainda, as quatro patas, e até um culhãozinho pode-se notar. Parece que vem vindo na nossa direção, cuidado!!! Toda a serenidade da primeira imagem dá lugar à tensão da segunda.

Não é bonito?

10 July 2006

gatos


Tenho dez gatos. Já tive muito mais. Teve épocas que tive quatro gatas parindo quatro ninhadas de no mínimo, quatro filhotes, de quatro em quatro meses.... e elas mesmas se confundiam, às vezes pulavam pra dentro do caixote da outra, e dava de mamar pra seus sobrinhos.... Nunca abandonei nenhum, conseguia arranjar um lar para todos. Claro que ficava com uns, geralmente os menos bonitos, mas adoráveis do mesmo jeito, sim, porque gatinho pequeno (aliás filhote de qualquer espécie ai ai...) são mortalmente irresistíveis. Aquelas orelhinhas caídas... o rabinho cônico... quando abrem os olhos... quando começam a andar e cair desajeitados... depois começam a brincar de brigar um com o outro, eriçam o pelo e ficam pulando de lado....
Eu poderia criar um blog só sobre gatos, é assunto pra toda vida. Hmmm, boa idéia, quem sabe...
Cada gato tem sua própria personalidade. Nenhum é igual ao outro. Então não dá pra conhecer um e pensar que todos são que nem esse um... São muuuuuito diferentes um do outro, que nem gente.
Também na hora de parir, cada gata pare de um jeito, que nem gente: uma noite saí e deixei meu pai vendo TV. Era um fim de semana em que ele estava aqui em casa. Quando voltei um par de horas depois, ele continuava no mesmo lugar, e me disse: -Diana, a gata trouxe seus filhotes todos aqui pra cima do sofá! Olhei e vi as criaturinhas recém-nascidas. Fumaça tinha parido ali do seu lado, no maior silêncio.
Já a Semínima quando pariu berrava tanto, que não aguentei ficar perto de tanta angústia... parecia gente, e foi um parto normalíssimo, seis filhotes...
Eu era contra operar, a natureza sabe o que faz, deixa a bichinha transar, essas coisas. Mas com o tempo fui aprendendo que não tem nada a ver, tem que operar sim, porque se a gente deixa, vai nascendo e nascendo e nascendo e nascendo... povoando o bairro, a cidade, o estado... sendo maltratados, passando fome, com doenças, sofrendo muito. A SUIPA está superlotada de cães e gatos abandonados, no maior sufoco, tentando dar conta da imensa tarefa de cuidar de um número tão grande de animais, com tão poucos recursos...
Fechamos a fábrica. Na época, eram treze, agora são dez. São lindos, adorados, inteligentíssimos -todos sabem seu nome e vêm quando são chamados!!! Cada um tem uma personalidade, não tem nenhum igual. E eu, com essa experiência toda, virei consultora, mestre, doutora!!! Amigos me ligam pedindo informação, dicas, conselhos... me sinto orgulhosa e feliz de poder ajudar num assunto pela qual sou literalmente APAIXONADA. Sou doida por gatos. E como se não bastasse conviver com eles em casa, sou atraída pelos que vejo na rua, sempre puxo um assunto, faço carinho...
Será que vou ser uma "gateira", uma daquelas velhinhas que vão diariamente alimentar os gatos das praças, dos parques?

29 June 2006

pleine de soi meme


Conheci uma pessoa "pleine de soi même". Plena de si mesma, ao pé da letra. Orgulhosa de sua pessoa. Tem muitas, mas essa exagerou. Tem muitas que exageram, mas essa é além-exagêro, pois espalhou por todo o lugar onde mora e hospeda, quadros de sua autoria -assinados- e, não só quadros, mas pinturas nos ladrilhos, tampas de privada, teto, portas. E mais! nos descansos de pratos, poemas de sua autoria -assinados!!!!!
Não quero aqui falar da qualidade dessas obras, mas sim da admiração que ela tem por si mesma. Pleine de soi même. Orgulhosa de sua pessoa. Ce pensa que ela se pergunta "será que é bom? será que vão gostar? devo entupir as pessoas com meu trabalho? não é melhor ser mais discreta? não vão enjoar? não será uma overdose de informação? será que meu trabalho tem qualidade?"????? Nem aí. Sempre tem alguém que vai gostar e vai elogiar, porque tem gosto pra tudo, e isso tem meeeeeesmo. Tem sempre aquele outro que, por um interesse qualquer, vai querer ser simpático, mesmo que não tenha gostado, também vai elogiar. E finalmente, aquele que achou um horror não vai falar na cara -po, teu trabalho é uma merda... Se cala e finge que não viu, o que também, pra quem é pleine de soi même, serve como elogio... Elogio pra cá, elogio pra lá, e elogio é muito bom, quem não gosta? Mas a pessoa pleine de soi même na verdade nem precisa de elogio, porque a maior admiradora de sua pessoa é ELA MESMA!!! Ela se beija, ela se ama. Tudo que faz, acha que faz bem. Revela suas opiniões sobre os mais diversos assuntos. Se acha bonita, inteligente, talentosa e bem dotada, mesmo que não seja nada disso não importa... é assim que ela se vê, e é assim que ela vive e cria e se relaciona com o mundo.

06 June 2006

contrastes

"Existe muita tristeza
na Rua da Alegria
existe muita desordem
na Rua da Harmonia
analizando essa história
cada vez mais me embaraço
quanto mais longe do circo
mais eu encontro palhaço

cada vez mais me embaraço
analizando essa história
existe muito fracasso
dentro do Largo da Glória"

e por aí vai...

Este samba de Ismael Silva -Contrastes- com essa letra simples, vai no centro de questões profundas. Questões que estão no nosso dia-a-dia, contrastes, contradições, absurdos que não consigo entender...

Como aceitar uma justiça como a nossa? umas leis como as nossas? como podem estar soltas pessoas como essa Suzane, que matou os pais??????????? esse monstro chamado Pimenta, que matou a namorada pelas costas???????? aquele Guilherme da Pádua e (na época) mulher que mataram Daniela Perez????????????? é inaceitável, é revoltante, como podem essas pessoas conseguirem a liberdade? assim é muito fácil entender e apoiar alguém que resolve "fazer a justiça com as próprias mãos": ce mata aquele que matou a sua filha, e daqui a uns anos você será absolvido, ou seja, ce sofre um pouquinho o estar preso, mas depois de um tempo ce sai, e pronto. não que eu seja a favor, mas com uma justiça que nem a nossa, talvez seja o único jeito de poder haver justiça de verdade...
e as manobras... esses adiamentos do julgamento dessa coisa chamada Suzane... mas aqui entre nós, já não está claríssimo que ela é culpada? ré confessa? precisava ainda ter um julgamento? matar os pais dormindo? me desculpem, mas pra mim isso é prisão perpétua, por mais arrependida (e alguém acredita que ela esteja arrependida???) que ela fingisse estar, é prisão perpétua. Essa impunidade que nossas leis garantem ao assassino apodrece todo e qualquer sentido de justiça... isso tudo tem que ser mudado, reformas já!!!!!!

04 June 2006

tudo para o espaco


Continuando de ontem, viver distante de alguém muito próximo também tem seu lado positivo. Sempre que ces estiverem juntos, o tempo é muito mais aproveitado. Tem o perigo de não se fazer mais nada, ficar em função de. Comigo é assim. Meu pessoal fica aqui na minha casa quando vem visitar. É como se fosse um parêntesis, me transporto para um espaço onde não tem tempo e nada é tão importante como estar com aquela pessoa. É uma vida paralela repentina e de pouca duração, um sonho que sabe-se o tempo todo que dalí a pouco irá acabar, para dar lugar àquela outra situação estável e duradoura, que é a da separação... E quando se é free-lancer como eu, quando é você quem marca seus próprios compromissos, vou jogando tudo para daqui a 2 semanas. Inclusive a rotina diária. Correr, treinar.... dieta... vai tudo pro espaço, e me vejo comendo coisas que jamais como no meu dia a dia, acordando tarde, indo a lugares que normalmente não vou... Aliás, é o que acontece quando viajo... então é como se eu tivesse viajando na minha própria cidade, rua e casa...
E bom, é muito bom.

03 June 2006

Maina

Retornando após gripes, colunas, edições, chegadas...
E chegou a Maína com o John. Maína minha sobrinha, não, peraí, deix'eu explicar, é assim... minha filha... filha-sobrinha... sobrinha que é filha... ai... muito confuso, como descrever a Maína???
A gente esquece que as coisas podem mudar à nossa volta. Que as coisas não são pra sempre. Bem, tem umas que até são, que nem a família de meus amigos, ninguém se mudou pra outro país... irmãos convivem com irmãos, sobrinhos etc...e às vezes até no mesmo bairro!!! Mas pra mim foi diferente.
Aconteceu que Suzy minha irmã foi morar fora, levando Maína minha sobrinha junto. Somos muito apegadas. No começo foi inadmissível, inaceitável, fiquei arrasada e puta ao mesmo tempo. Agora vejo elas se desenvolvendo e se desabrocharem em flores lindas, tantas oportunidades, tantas facilidades, vivendo tão felizes, tudo deu certo, que não dava mais pra não admitir, não aceitar, ficar arrasada e puta ao mesmo tempo... fiquei feliz também. Mas isso não quer dizer que me acostumei com a falta... então sempre que uma vem pra uma visitada, fico inteiramente fora do meu caminho, querendo estar perto ao máximo. Como ainda agora, estava escrevendo, de repente pensei... puxa, Maina está lá na casa da Branca, há uns 15 minutos daqui... e lembrei de como é pensar e não poder ver... querer falar e não ter... o momento passa, o assunto fica arquivado para um futuro telefonema, e muitas vezes acaba sendo esquecido...e me deu uma vontade de estar com ela... nada... só pra conviver mais um pouco, o tempo é curto, daqui a uns dias vamos voltar à prática do telefone... quer saber, vou lá pra ficar com eles... escrevo depois... e é assim.

19 May 2006

Nicolau


Há tres dias, fui acometida de um mal súbito. Desta vez não veio com nenhum avisinho sequer, fui dormir bem, mas quando acordei tava com uma baita febre, e uma dor de garganta que não dava nem pra falar. Febre em mim bate como um leve delírio, fico inteiramente fora do ar, nada mais importa, só quero me afundar na cama, mergulhar dentro do travesseiro. Aí começa o delírio propriamente dito. Ligadíssima. Isadora Duncan no bondinho do Pão de Açúcar, o Gato de Botas, Trotski na barca pra Niterói, e também muitas caras desconhecidas se entrelaçando, lugares inusitados. Não é como sonho... consigo controlar, se quiser, mas geralmente deixo rolar. Parece que vou enlouquecer, mas não me dá medo, na verdade chego a gostar. Sinto-me como estivesse espiando o outro lado, uma região que quando criança era fácil chegar, agora não, que está tudo 'no esquema"... Ao mesmo tempo é penoso, porque o corpo não está confortável, tudo dói e está tão quente, apesar de estar um frio de bater queixo e tremer.
Bom era quando o Nicolau ainda era vivo. Companheiro perfeito pra essas horas. Ia chegando devagarinho, me fazendo carinho, me fazendo sentir que tinha alguém pra me cuidar... me consolando e me dando força (é, porque a gente pensa que não vai ficar boa nunca...). Depois deitava do meu lado e dormia aconchegado.
Esse era o Nicolau.

14 May 2006

feliz aniversario


Também hoje, salve ele!!!!!

dia das maes


Mãe é mãe, e nada mais pode chegar perto. Nada que se compare.
A minha já se foi, e foi cedo, ela tinha só 68 anos... e há 18 anos tento me adaptar à vida sem ela. Tudo bem, a vida continua, mas é um pedaço que me falta, e não tem jeito, ainda sinto, ainda penso, ainda lastimo sua ausência. Certas coisas que queria comentar, descobertas que queria lhe revelar, e tantas perguntas que queria lhe fazer, respostas que só ela poderia dar...
Quando eu era criança e descobri que meus pais iriam morrer algum dia (é, porque tem um dia exato que você descobre que tudo morre, talvez com 3, ou 4 anos...), achei que não iria aguentar, e cheguei a pensar em querer morrer antes... Depois haja análise pra aguentar o tranco!!!!
Bem, mas hoje está um dia muito frio -como eu adoro- chuvoso -como eu adoro- e eis que raios de sol teimam em varar as nuvens no céu. Um dia lindo. Deixo aqui uma foto em homenagem a esse dia de sol e chuva.

11 May 2006

Rosa Montero

Sabia que Rosa Montero era boa. Na Espanha, vários amigos meus falaram sobre ela, e eu estava curiosa para ler um livro seu, mas tava esperando o Carl me emprestar os seus volumes em castelhano. É melhor ler no original, sempre que isso for possível.
Carl é um grande amigo meu, da aula de taichi do Mestre Hu no atêrro, há tempos atrás. Pois no ano passado nos encontramos em Madrid, ele chegando da sua peregrinação pelo Caminho de Santiago (vindo de Sevilla, a rota mais difícil, bronzeadíssimo e vários vários quilos a menos...). Estava lendo La Loca de la Casa, de Rosa, e estava adorando. Nem cheguei a folhear, mas ficou na minha agenda mental. Mas eis que ganhei exatamente esse livro da Helô, e comecei a ler no mesmo dia.
Helô nossa! é mais antiga ainda!! da época da Equipe Mercado, ela fazia parte da produção.
O livro veio na hora certa, porque sempre escrevi desde pequena, mas nunca dei a menor importância à minha prosa. Fiz inúmeras letras, várias delas viraram músicas, e muitas foram pro lixo por descuido ou porque não prestavam. Mas agora tenho sentido muita vontade, mais - necessidade- de escrever. Me sinto mais mansa com a idade, antes eu queria festa todo dia o dia todo... gente gente gente, e o ofício de escrever é essencialmente uma atividade solitária. Pra quê escrever, se posso falar? era esse o clima.
Mas voltando ao livro da Rosa, que é justamente sobre o ofício de escrever, sobre a inspiração, o fracasso, o sucesso, o que acontece ao escritor pra que ele saia escrevendo... tem capítulos falando sobre o que aconteceu a Goethe, que se vendeu à corte humilhantemente, e nunca mais conseguiu escrever nada...a Capote, que foi destruído pelo sucesso... o que faz o escritor perder o rumo, é tão bom, muito melhor do que esperava, e só to na metade. Vou agora copiar um trechinho só pra mostrar como ela nos faz pensar.

"A qualidade literária é um dos valores mais subjetivos e mais dificilmente mensuráveis que conheço: se você for engenheiro e fizer uma ponte, por exemplo, pode estar mais ou menos certo da sua capacidade profissional enquanto essa ponte não cair: mas se for romancista e escrever um manuscrito, quem garante que essa resma de páginas impressas, esse monte de mentirinhas infantis e ridículas, como dizia Aira, são mesmo um romance e têm mesmo algum sentido? A história demonstra que nem o sucesso em vida nem os prêmios, nem, ao contrário, o fracasso e a contrariedade dos críticos foram alguma vez prova confiável da qualidade de uma obra. E nem sequer o tempo põe as coisas em seu lugar, como gostaríamos de acreditar por precisarmos ter certezas: algumas vezes caíram por puro acaso em minhas mãos romances de autores antigos totalmente esquecidos e fora de catálogo que no entanto achei ótimos, e previsivelmente eles nunca mais regressarão do cemitério. Quero dizer que escrevemos na escuridão, sem mapas, sem bússola, sem sinais reconhecíveis do caminho. Escrever é flutuar no vazio".

Esta é a Rosa Montero.

Perfeitamente aplicável à música também.

10 May 2006

Estudio Ruidos Asociados



Não estranhe. Asociados é com um esse só mesmo, porque é em castellano. Madrid, 2005. Foi nesse estúdio que gravei a voz de 6 músicas minhas, 4 delas pro próximo cd. Na foto, yo fazendo a maior pose. O Estúdio é do grande Walter Guimaraes (baterista que tocou comigo aqui no Brasil e na Europa) e da Nuria Marti, sua mulher maravilha. É pra ficar o dia todo a noite toda aí se deixando levar compondo criando experimentando ai... esse grande relógio me assustava cada vez que me mostrava as horas... quê? pero ya está mui tarde!!! e então era desligar tudo correndo, regar correndo as plantas lá fora, lavar correndo os copos e restos de lanchinhos que bem... em se tratando de obleas (espécie de hóstia do tamanho de um 45 rotações, de-li-ci-oso), como muitas vezes foi, as migalhinhas davam um trabalho... E o clima? era pleno verão madrileño. Muuuuuuuito quente. Mas como era no subsolo, enquanto lá fora tava uma sauna seca à 40 graus , lá dentro nos deliciávamos com uma temperatura de 20 sem ar condicionado!!!

06 May 2006

encontro da Equipe Mercado



Equipe Mercado foi o meu primeiro grupo de música. Teve vida curta, de 69 a 72, mas fez a cabeça de muita gente que até hoje comenta e sabe cantar certas músicas nossas que fizeram sucesso. Em 2003 nos reunimos depois de anos pra uma moqueca aqui em casa. Como mexe com a gente rever antigos amigos depois de tanto tempo. Fazemos promessas de nos vermos mais, trocamos telefones, querendo de verdade voltar a juntar nossas vidas, mas essas coisas dependem de outras que não só a vontade e carinhosas lembranças...
Vou colocar essa foto aí provisoriamente, pois as que tenho o blogger não tá importando por questões de formato. É do nosso encontro de 03: em pé, da esq pra dir: Marcos Stul (baixo e...), Antonio Cesar Lemgruber (guitarra e ...), Trajano Lemos (bateria, tocou só no comecinho, depois saiu da EM, mas continuamos sempre nos falando e atualizando). Sentados: Ricardo Guinsburg (voz, violão, arranjos e....) eu (voz, percussão e....) e Ronaldo Periassú (letras e .....) Por que as reticências? ah, porque todos tinham múltiplas funções!!!!

05 May 2006

pessoas que caem do ceu



De um mes pra cá, mais ou menos, duas pessoas cairam do céu no meu caminho, pumba! Seus nomes? Tania e Priscilla. Acontece que há tempos venho procurando alguém pra fazer meu site, mas não tenho tido sorte, ou a pessoa tá cheia de trabalho, ou some sem dar o menor sinal, ou simplesmente não rola sintonia... Pois essas lindas criaturas estão fazendo o meu site, e quero dedicar aqui esse primeiro blog pra essas figuras estonteantes!!!! Aliás, se não fossem elas, esse blog não existiria. Então aí vai queridas, amo vocês.
O que seria de nós sem nossos amigos? essas pessoas que caem do céu pra nos ajudar a viver, pra nos aliviar o peso no andar, pra nos ensinar a fazer coisas que não faríamos jamais se não fossem elas??? o que? o que?