28 October 2006

Rogerio Duprat


Do site do CliqueMusic e jornal O Globo:

"Morreu na tarde desta quinta-feira (26), Rogério Duprat, maestro que rompeu a barreira do erudito com o popular no movimento musical conhecido como tropicalismo e que reuniu nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, no final da década de 60. Duprat foi também responsável pelos arranjos de diversos discos do grupo Mutantes, da Rita Lee.

O músico estava com 74 anos, sofria de mal de Alzheimer e de um câncer na bexiga descoberto recentemente. Duprat estava internado desde o dia 10 de outubro no Premier Residência Hospital (zona sul de São Paulo).

O velório aconteceu no Museu da Imagem e Som (MIS), em São Paulo. O corpo do maestro, que tinha uma esposa e três filhos, deverá ser cremado amanhã no Crematório da Vila Alpina.

Nascido no Rio de Janeiro, começou a estudar violoncelo no começo da década de 1950, período que integrou a Orquestra Sinfônica Estadual. Mas seus primeiros passos na música se deram ainda bem jovem, quando tocava "de ouvido" cavaco, violão e gaita de boca. Mudou-se para a São Paulo em 1955, onde passou a ser um dos destaques da Orquestra Sinfônica Municipal. Foi um dos fundadores e diretores da Orquestra de Câmara de São Paulo e o idealizador do movimento Musica Nova em 1961, junto com Damiano Cozzella, Willy Correia de Oliveira, Gilberto Mendes e Régis Duprat. Viajou para Europa com o maestro Júlio Medaglia, onde teve aulas com o compositor Karlheinz Stockhausen - curiosidade: um de seus colegas de "classe" era Frank Zappa.

Começou a compor trilhas para longa-metragens do diretor Walter Hugo Khouri, como “A Ilha”, “Noite Vazia” e “Corpo Ardente” e a se aproximar dos músicos populares, principalmente dos tropicalistas, liderados por Caetano Veloso e Gilberto Gil. Para Gil, compôs o ousado arranjo para Domingo no Parque, que mais tarde lhe daria o prêmio de melhor arranjador no Festival de Música da TV Record, em 1967. No ano seguinte, ao lado de Caetano, Gil, Tom Zé, Gal Costa, Os Mutantes, Nara Leão, Torquato Neto, gravou o histórico disco “Tropicália”, compondo arranjos para várias canções do álbum, como “Baby”, “Panis Et Circencis” e “Geléia Geral”. Fez arranjos para canções de Chico Buarque (“Construção/Deus Lhe Pague”), Jorge Ben Jor (“Descobri que Sou um Anjo”) e trabalhou em vários discos dos Mutantes, sendo decisivo para a mudança de sonoridade da banda paulistana. Passou a dedicar-se a produção de jingles e aos poucos abandonou o mercado musical por problemas de surdez, causados pelas intermináveis horas de estúdio, e mudou-se para um sítio em Itapecerica da Serra, interior de São Paulo. Só voltou a atividade musical na década de 90, compondo arranjos para os discos de Lulu Santos e Rita Lee.

Duprat foi o grande responsável pelo rompimento da barreira entre erudito e popular, consolidando-se como figura ímpar da música brasileira".

Fiquei triste com a notícia quando li. Não sabia que ele estava doente. Poxa, ele ainda era jovem- 74 é jovem pra morrer hoje em dia- e me lembrei quando o conheci em 69 ou 70 numa reunião em São Paulo quando eu era da Equipe Mercado. Fiquei nervosíssima em ele estar ali diante de mim, como a gente sempre fica diante do ídolo... pois o disco "Tropicália" fazia parte da minha trilha diária, noturna, vesperal, matutina, sonhando dormindo ou acordada, em pé, sentada, aflita ou relaxada, eu sabia de cor, e aqueles arranjos revolucionários, assim como quase tudo do movimento tropicalista já faziam parte da minha pessoa. Bem, foi por causa do Tropicalismo que comecei a cantar. Deu um troço doido em mim, virei pelo avêsso. Parecia que de repente eu estava entendendo tudo na vida. Acendeu-me a luz, senti que aquela era minha turma, e me senti inteiramente identificada com ela: ah.... então é isso... eu sempre soube, mas não tinha consciência...

O disco é genial. A começar pela capa, Rogério ele próprio no canto esquerdo do banco faz de um penico uma xícara de chá. Os Mutantes atrás, ao lado de Tom Zé, com a "mala de couro forrada de pano forte bem cáqui" (No Dia Em Que Vim Me Embora, de Caetano), recém chegado da Bahia. Gil no chão, segurando a foto de Capinam, ausente na foto. Acima, o Caetano faz a mesma coisa com a foto de Nara Leão, também ausente. E do lado direito do banco, Gal e meu saudoso amigo Torquato. Todos, fora o Rogério, parecem ter de 15 a 20 anos de idade. Tem uma moldura verde amarela azul, fundo e chão de verde ardósia, e pronto. Tropicália na vertical de um lado, do outro Ou Panis et Circenses. Todo mundo sério. Predominam as roupas psicodélicas.

Vamos às faixas. A primeira é Miserere Nobis, do Gil e Capinam, canta Gil. Começa com um órgão de igreja, sininho, pra bruscamente interromper pras guitarras em ritmo, flautas, fagotes em contracanto, e final bombástico (me lembra até a Abertura 1812 do Tchaikovski, que tem canhões) de uma trompetada e climas de banda militar. Ora pro nobis. Tomára que um dia sim um dia não na mesa da gente tem banana e feijão.

A segunda, Coração Materno, de Vicente Celestino, canta Caetano. Um cello e tambor, meio bala de canhão e também e principalmente, a bomba de um coração batendo. Clima expressionista. A letra é um dramalhão só: a história de um "campônio" que, pra provar sua paixão à amada, e a pedido desta, arranca o coração de sua "pobre mãezinha ajoelhada a rezar", mas ao voltar, cai, quebra a perna e coração voa longe. De repente ouve-se uma voz: "vem buscar-me filho, aqui estou, vem buscar-me que ainda sou seu"... O arranjo prepara todos esses climas carregando na emoção e Caetano cantando é lindo. Naquela época muita gente não entendeu o porquê desta música (considerada "kitch"- nova paravra para brega, aliás Nelson Gonçalves, Angela Maria, essa turma estava bem por baixo) ter sido uma das escolhidas pro disco, mas Tropicalismo era exatamente isto: não ter preconceito algum, assumir todas as nossas influências culturais, desde o sertanejo, o brega, o rock, a jovem guarda. Isso somos nós.

A terceira, Panis et Circenses, de Gil e Caetano, canta Os Mutantes. Esta é.... esta é.... confesso que fico com lágrimas nos olhos quando a ouço. E a pele arrepia. Esta me é especial. Muito especial. Começa com um lalalalá côro mutante, o órgão fazendo a base numa nota só ininterrupta, guitarra dando uns arpejos. Pára tudo. Respiram e entra a letra, que é uma das mais lindas que já ouvi. Simplérrima, infantil, essa melodia em arpejo ascendente, tônica, terça, quinta e... a inesperada inusitada bendita nona!!! vai-se repetindo e é quase isso só, e é tanto tanto tanto... é tão pra cima, tão forte, é um hino mantriático psicodélico, o arranjo muito louco, uma coisa que parece um pato (sintetizador? guitarra?) tocando no contratempo (isso antes do reggae!!). Quando entra a segunda estrofe (mandei fazer/de pura aço luminoso punhal...) entra uma trompete inteiramente insandecido, tresloucado, fazendo um contracanto pungente e arrebatador. O timbre e a participação especialíssima lembra ao longe Penny Lane, dos Beatles (aliás, diziam que o Duprat era o "George Martin"- arranjador dos Beatles em Seargent Pepper's Lonely Hearts Club Band e muitos outros- tropicalista, e que este disco era o Seargent Pepper brasileiro!!!). E segue o arranjo: no meio da música, há uma "falta de luz" e é como se o disco fosse parando com a agulha encima. Silêncio. Uma nova introduçãozinha com flautas, algo com som de cravo, e... e explode o final, que começa num andamento lento e vai acelerando: "essas pessoas na sala de jantar essas pessoas na sala de jantar", repetindo repetindo obsessivamente, todos cantam, todos tocam, e o tresloucado trompete se contorcendo, se dilacerando, num crescendo apoteótico. De repente pára tudo, e barulho de talheres, gente conversando- me passa a salada aí...o pão por favor... só mais um pedacinho...

Olha, isso JAMAIS tinha sido feito antes. Era que nem ouvir, sei lá, uma música vinda de outro planeta... mas pra mim, era contraditório, pois apesar de ser uma tremenda novidade, me era extremamente familiar, vinha do MEU planeta, e aquela era a MINHA linguagem. Eu vinha de uma formação clássica de piano, tendo ouvido e tocado muuuuita música erudita, que inclui, claro, os contemporâneos, muito doidos, serial, dodecafônico... A música popular até então era extremamente "comportada": previsível, com a métrica certinha, começo meio fim... e os arranjos deste disco eram uma mistura de popular com contemporânea.

E a letra? é linda demais. E era o que eu -nós- meus amigos, minha geração- estávamos vivendo, existencialmente e politicamente: eu quis fazer/minha canção iluminada de sol/.... mandei plantar/folhas de sonho no jardim do solar/.......mas as pessoas na sala de jantar/são ocupadas em nascer e em morrer. A liberdade que queríamos, a mudança no mundo, e aquelas "pessoas na sala de jantar" e no govêrno nos impedindo de realizar. Tudo, claro, nas entrelinhas, por causa da censura.

A quarta faixa é Lindonéia, de Caetano e Gil, canta Nara afinadíssima, com aquele canto perfeito, apolíneo, acompanhada de uma verdadeira orquestra, belíssimamente arranjada, compassos e breques, um bolero de surpresas, um samba-canção latinoamericano.

A quinta é Parque Industrial, de Tom Zé, canta Gil, Caetano, Gal, Os Mutantes e o próprio Tom Zé. Uma crítica inspiradíssima, bem humorada do dito "progresso" ("o avanço industrial vem trazer nossa redenção"som de banda de música, voz de ciranças, bandeirolas, grande festa em toda nação) e ainda dá uma alfinetada na "colonização cultural" vinda dos EUA: "o que é made, made in Brazil". A letra é muito boa, e cada um vai se intercalando ao cantar. O arranjo reproduz uma "grande festa em toda a nação": banda de música com direito a tuba, voz de crianças, naipes de sopros, trompete em wahwah com surdina.

A sexta faixa é.... Geléia Geral, de Gil e Torquato, canta Gil. Esta é outra das minhas preferidas, essa letra é simplesmente ge-ni-al, letra de Torquato, que depois assinou uma coluna no jornal Última Hora com este título. O arranjo começa com a guitarra quente num baião contraponteando com o baixo deslizante. Pela música toda, os sopros são soberanos- imperam marcando tempos fortes meio como um baixo quadrado, fazem rítmo. No meio dessa festa a levada muda e a letra é declamada, aí aparecem "áudios" da letra: bateria escola de samba ("destaques da Portela"), citação da música de Sinatra "All the Way" ("um LP de Sinatra"). Essa música é tão forte, tão poderosa, um verdadeiro terremoto. O "sentimento" tropicalista é exatamente isto que tá letra, a sua mais perfeita tradução. Genial. Um hino.

A sétima é Baby, de Caetano, canta Gal e Caetano. Mmmmm.... acho que também choro com esta, porque era esta que tocava na rádio. Muito. E ouvia-se muito rádio naquela época. E me lembro de estar em casa (ainda morava com os meus pais), de estar na rua, de estar namorando, de estar passeando, de estar estudando, de estar na praia, de estar na cantina na Faculdade de Arquitetura, de estar no carro de algum amigo, de estar levando o Kiko nosso basset pra passear, de estar comendo com a família, enfim.... tudo ao som dessa música que tocava no rádio. Essa, de todo o LP, era o menos "estranho" para quem achava que o Tropicalismo era um bando de hippies sujos cantando letras sem sentido. Meu pai (olha que ele era músico revolucionário na sua época) detestava, não conseguia entender, nem eu explicando. Mas adorava a VOZ da Gal, com toda a razão, aí "aguentava" ouvir até o fim, sem mudar de estação :) A música é uma marcha-rancho em rítmo ternário. O arranjo é delicado, belíssimo, começa com o baixo, depois o violão fazendo a levada, entra a batera, violinos celestes e diabólicos fazendo uma cama deliciosa macia gostosa sensual e quando entra a VOZ da Gal, é êxtase. Caetano no final faz vocal com ela, cantando "oh, please stay by me, Diana", mega sucesso de Paul Anka. Puro tropicalismo. Essa música -Diana- do Anka foi da década de... 50. Eu era menina, tinha o disco 78, e ouvia o dia todo, pensando que poderia ser pra mim. Quando o Caetano saiu cantando o meu nome, tive a certeza:)... detalhe é que ele não me conhecia ainda... e foi assim que gamei.

A oitava é Três Caravelas, que é uma versão "cachonda" de João de Barro -Braguinha- de Las Tres Carabelas (de A.Algueró Jr/G.Moreu). Duprat fez uma salsa quase convencional, e Caetano e Gil cantam misturando a letra em castelhano e em português. Divertidíssimo.

A nona é outra que possivelmente deixa meus parcos cabelinhos em pé. Enquanto Seu Lobo Não Vem. De Caetano, canta Caetano. Extraordinária. Jóia rara. Um hino. Homenagem a nós que participamos das passeatas contra a ditadura. Belíssima. O arranjo é cheeeio de detalhes, primoroso. Começa com um simples agogô. Depois um côco. Violão numa levada andante, constante, forte, denso, ininterrupta. Este violão vai ser a base da música toda, tem apenas dois acordes que se repetem do começo ao fim, obsessivo. Cria tensão, Caetano cantando tranquilo. Percussão leve, dividindo cada tempo em quatro, criando uma espécie de tensão. Flautas, trompetes gorgeando. Ao longe, a voz de Rita, bem ao longe ecoando- "os clarins da banda militar, os clarins da banda militar, os clarins da banda militar..." Entra um bumbo baixinho, (Estação Primeira de Mangueira)... Trompete toca o primeiro verso da "Internacional" ("vamos passear escondidos"). Ouve-se algo como uns tiro, muito misturado, quase imperceptível. Já no final, o bumbo se torna presente até o fim. Conseguiu passar na censura, está totalmente em código. Cê não ficaria com lágrimas nos olhos se fôsse eu???

A décima é outra "bomba" do Caetano e Torquato, canta Gal: Mamãe Coragem. O filho saindo da casa paterna. Eu estava justamente passando por isso na época, e com muito sofrimento, porque NINGUÉM saía assim impunemente da casa dos pais sem ser pra casar. Naquela época. Mulher então, nem se fala. Era deserdada. "E não se pronuncia mais o seu nome nesta casa"...

Começa curto e grosso com uma sirene de polícia (não podia deixar de ter em alguma música, era um ruído aterrador constante no nosso dia-a-dia). Violão marcando um 3-4-1....3-4-1 com baixo.... percussão metálica fazendo chhhhhhhh. Flautas fazendo a melodia com a voz em terças. Um interlúdio com muita flauta interrompe a levada para a letra "ser mãe é desdobrar/fibra por fibra os corações dos filhos/ seja feliz/seja feliz" para que ela esteja em especial evidência. Letra de Torquato, meu ídolo. Um ano depois ficamos amigos.

A penúltima do disco é Bat Macumba, de Gil e Caetano, canta Gil e côro de todos. Uma brincadeira com a letra: enquanto o coro canta a frase (batmacumba iêiê, batmacumba obá), Gil vai brincando com a palavra batmacumba, cada vez tirando uma sílaba (batmacum/batman/bat/batman/batmacum.....). O arranjo é com uma esperta viola caipira de primeiríssima ponteando, tumbadoras, divertidíssimo.

Hino Do Senhor do Bonfim é a última, com a participação de todos. Solenidade apoteótica. Pratos. Trompetes. Côro. E com essa se encerra um dos melhores discos que vivi.

Teria havido o Tropicalismo sem o Rogério Duprat? Teria, pois havia o Caetano e Gil. Mas com certeza, teria sido BEM diferente.

22 October 2006

de pisces


Esse charutão de cobertor que minha mãe está segurando sou eu, saindo do hospital com um dia de nascida. Meu pai do lado. Fazia frio (tenho uma amiga que tem uma tese: se cê nasceu no inverno, cê gosta de frio.... se nasceu no verão, cê gosta de calor....). A foto é pra ilustrar o segundo capítulo da minha eletrizante biografia que sairá no meu site imperdível, e cada dia mais perto do lançamento!!!!!! aguardem aguardem!!!!


DE PISCES
Nasci no dia 10 de março de 1947. Papai já não tocava mais no Bando da Lua, estava agora na Radio NBC, com um programa próprio de música americana de jazz sendo transmitido para o Brasil. E mamãe já não fazia mais teatro (embora nutrisse uma louca paixão por Greta Garbo, a ponto de segui-la pelo parque, a atriz já naquela fase de retiro, tentando passear anonimamente- I want to be alone- oculões escuros, chapéu.... mas mamãe a seguia extasiada), estava agora se ocupando com sua primeira filha, que de tão pequena, cabia num bolso de sobretudo.

E logo minha mãe me levou pra Cambrige, Ohio, na fazenda onde morava sua família. Camponeses russos, mãe e nove irmãos, meu avô não cheguei a conhecer... era violonista e regente de coral da Igreja Ortodoxa. Família muito religiosa. Cantavam muito, e o tempo todo. Por qualquer coisa. Por nada.

Vida no campo em clima temperado é a maior batalha. Quando chega o inverno, vem aquele frio, aquela neve, tudo congela, se não se preparar... Não tinham empregados, eram eles que faziam tudo: desde arar a terra, plantar e colher seus alimentos, tirar o leite, bater a manteiga, fazer queijos e coalhadas, amontoar o feno pro gado, cuidar dos animais- cavalos, vacas, galinhas, cachorros- além de fazer conservas para comer no inverno. horta, pomar, arar, plantar, colher.

E até os meus 3 anos de idade, a gente se dividia entre Nova York (agora morando em Long Island) e a fazenda em Ohio. Meu pai chegava nos fins de semana, depois voltava pra NY. Essa fazenda foi fundamental pro meu entendimento de mundo... Cresci sentindo uma intimidade com a vida no campo, os cheiros, as plantas, a terra, os tatos... acordar com o sol, ir cedinho com a vó recolher os ovos debaixo da galinha no ninho quente... depois da chuva, sair com a tia à cata de cogumelos pra servir no jantar... cachorros, gatos, veados selvagens visitando o meu quintal...

Lembranças musicais as mais remotas: meus pais dançando o charleston, minha mãe recitando Poe e Shakespeare, meu pai me ninando com músicas de seu repertório- Lig-Lig-Lé, Touradas em Madri, Alalaô, N'Aldeia- além de suas próprias, horas e horas no violão, meus tios e avó cantando em russo.

21 October 2006

jaboticabas


Pego uma jaboticaba negra reluzente com o polegar e o indicador. Levo-a à boca. Sem largá-la, mordo delicada mas firmemente sua casca rija lisísssima, ao mesmo tempo expremendo-a com os referidos dedos. Ela explode num suco delicioso que invade meus sentidos e me traz felicidade. Chupo em êxtase. Um suco transparente doce, dulcíssimo. Junto vem suas sementes, podem variar de uma a quatro, do tamanho de grãos de feijão. Elas são revestidas por uma polpa branca (quando são rosas púrpuras não estão boas, azedas já passadas) e dentro, um "gruvo" roxo, mais pro ácido. Às vezes mastigo essas sementes e a casca, mas quase nunca.

Quantas horas passei dentro de uma jaboticabeira... Jaboticaba é muito louca. Ela dá NO TRONCO, e são verdadeiras multidões. E pra colher? ce vai subindo -é uma árvore relativamente fácil de subir- e, por mais que tenha cuidado, muitas vão sendo sacrificadas, pois só de ce colocar a mão, elas desmontam e caem aos montes no chão. Como a casca é grossa, elas não se espatifam, e quem não sobe pode ir colhendo as maiores.

Bolas de boliche de gnomos. Bolhas de pensamento de micos. Balões de festa de bem-te-vis.

Não sei se tem em outros lugares do mundo, se levaram ela daqui e replantaram e vingou. Sei que é 100% brasileira.

Jaboticabas são alegres, simpáticas, divertidas, populares, não gostam de solidão, e desabrocham em tempo frio. Serão afrodisíacas? Ao contrário do que o nome sugere, nada têm a ver etimologicamente com o jabuti, e nem fazem parte de sua dieta, ou fazem? não sei...

O melhor sorvete de jaboticaba da minha vida era na saudosa Sorveteria Moraes, na Visconde de Pirajá. Aaaaai!! só de me lembrar me dá um arrepio na língua!!! Era doce ma non troppo, tinha o acidinho da casca também, e era roxo claro, ou quem sabe, lilás escuro. Eu chegava lá disposta a variar o sabor, eram tantos, mas... não conseguia, pedia sempre o de jaboticaba. Ou então, gulosa do jeito que sou, começava com um tangerina por exemplo, mas o o último era sempre.... de jaboticaba.

Tenho duas maiores e suculentas lembranças: as primeiras em Lagoa das Lontras, onde passei minha infância e adolescência me recheando delas, as jaboticabeiras em cujas copas eu me refugiava; e depois, as melhores de todas, as incrivelmente esplendorosas em Friburgo na casa do Mario Jansen, pianista que tocou comigo por muito tempo, parceiro de várias músicas. Estas tinham o diâmetro de 4 cms!!!! Agora não tenho tido acesso a nenhuma jaboticabeira, e se eu quisesse plantar, dizem que demora 15 anos pra dar fruto. Tudo bem, até plantaria... do jeito que o tempo tá correndo, planto e quando vou ver já to chupando... mas enquanto isso não acontece, vou me satisfazendo com as que vendem em lotes na feira, no camelô das ruas.

A safra esse ano foi boa.

16 October 2006

nota do Big Boy


Big Boy foi um DJ (nos anos 70, DJ era um apresentador de programa musical, e não o que é hoje) que revolucionou a linguagem radiofônica. Tinha um programa Baile da Pesada de rock na Radio Mundial AM e também era repórter no O Globo, e trazia pra gente todas as novidades no panorama roqueiro, garimpando músicas pelo mundo afora. Carismático, corajoso, único, criativo, dinâmico, bem informado, foi uma presença marcante e indispensável numa época que quase nada chegava a nós, não tínhamos acesso aos lançamentos, às vezes saíam notícias no jornal, mas o disco mesmo demorava a chegar aqui, às vezes um, dois e até tres anos... ou seja, quando conseguíamos ouvir, já estava defazado no tempo, a banda já tinha lançado outro... Não havia interesse em rock por parte do mercado, essa máquina que hoje existe por trás (aliás, pela frente e pelos lados tb!!!) e também a censura era severa. Tudo que se produzia e que se escutava tinha que passar pela censura, e o próprio Rock era alvo por ser "um rebelde, selvagem e perigoso grito da juventude contra os bons costumes, contra a tradição, contra a família". Bem, o Big Boy era fã da Equipe Mercado, e colocou essa foto na sua coluna, com a legenda:

A FOTO DO OURIÇO
OS "CARAS" (E A "CARA" TAMBÉM) DA FOTO COMPÕEM A SUPERQUENTE EQUIPE MERCADO, JÁ BALANÇANDO OS CORAÇÕES COM A MELÔ "MARY K NO ESGÔTO DAS MARAVILHAS", UM LANÇAMENTO DA ODEON.

A foto é de Mauro Pamplona, que fazia parte da "equipe": Ricardo, eu, Lemgruber, Stul e atrás, Sagrá (Carlinhos Graça). Foi tirada nos terrenos baldios (agora inexistentes) da Rua Júlio Ottoni, onde morávamos.

14 October 2006

sexta-feira 13


Ontem foi sexta 13. Isto me lembra imediatamente não de gato preto, azar, bruxas, caldeirão, monstros... não. Me lembro de FRIDAY THE 13, de Thelonious Monk. Só ele pra fazer uma melodia dessas numa harmonia dessas. No quinto compasso, a melodia dá uma 3ª Maior- si bequadro (acorde de G), e no tempo seguinte, a harmonia faz Cm7, que tem o si bemol. Aí a melodia faz uma pausa de colcheia, mas na verdade o si bequadro ainda está soando no ouvido, fica muuuuuuuito doido. Eu quando toco gosto de não fazer a pausa, fica essa dissonância tão gritante, é muito bom. E ela se repete, se repete, se repete, é meio obsessiva, meio não, totalmente. Ao mesmo tempo é meio alegre, simples, quase infantil.

Muito difícil achar essa partitura, e mais ainda, de achar a música, não aparece nessas coletâneas. Mas baixando da internet é fácil. Tem uma gravação belíssima dela com o Monk e o Sonny Rollins, demais!

picapau


Por um momento parei. Eram 2:48 da tarde. Parei para escutar. É que estava ouvindo um toc toc toc insistente do lado de fora. Era leve, quase imperceptível, se fosse em algum lugar mais barulhento e movimentado, não daria pra se notar, mas estava um silêncio de algodão. Só pássaros e um gavião fazendo sua ronda. O som vinha do alto de uma árvore. Saí intrigada, imaginando ser uma coisa que depois se confirmou. Um picapau.

Lembro da primeira vez que vi um picapau ao vivo. Estava na Lagoa das Lontras (meu paraíso da infância, adolescência, e um pouco mais) descendo uma trilha, quando de repente, muito perto de mim, aquele bicho ali percutindo no tronco de uma árvore. Virei estátua, imóvel, e ele não se assustou, ficou ali toc toc toc. Tão emocionada fiquei que sempre me lembro deste encontro, mesmo depois de.... mil anos. Picapau pra mim era aquele Woody Woodpecker, dos cartoons de Walter Lantz, um bicho meio mitológico, como um centauro, um dragão... Fiquei até meio taquicardíaca. Depois me disseram que ele faz aquilo para pegar as larvas de insetos que escavam galerias nos troncos pra deixarem ali dentro seus ovos.

Mas como é isto? bate toc toc toc e elas abrem a porta? como é que ele chega nessas galerias? Lendo sobre esse "palpitante" assunto (As Aves, Editora José Olympio), descobri que...

-VOCÊ SABIA?-

para o picapau, perfurar as árvores com o bico é apenas a primeira etapa para chegar às larvas que ali vivem. Depois de perfurá-las, usa a língua (enorme, como um tamanduá) flexível para penetrar profundamente nas galerias. Mas haja língua. Onde guarda ele uma língua tão comprida dentro da pequena cabeça? novamente dou uma lida. Na realidade, a língua dele é curta. Faz parte de um dispositivo de ossos e tecidos elásticos que, passando sob o maxilar, sobe contornando a cabeça e vai prender-se na narina direita, deixando a esquerda livre para a respiraçao. Quando esse dispositivo desliza ao longo da cabeça, a lingua projeta-se à frente.

Trata-se de uma engrenagem muito bem estruturada, muito bem estudada, não é asssim de qualquer jeito... Um projeto de alta complexidade, embutido nesse pequeno pássaro. Quem diria? Bem, a Natureza não é boba, não é simples (e nem é justa...). Tudo é muito complexo. Tem coisa mais sofisticada do que o corpo humano, a noite e o dia, o respirar das plantas, as cores do arco-íris????

O da foto é um carijó (ou verde-barrado). Pode ter sido um destes que parou por aqui...

12 October 2006

Pontos de Cultura


Eu já tinha gostado quando soube desse projeto do Ministério da Cultura- Ministro Gil!- chamado Pontos de Cultura, onde há um intercâmbio, uma troca de conhecimentos entre os artistas das mais variadas regiões do Brasil. Mas vendo o DVD que o Nelson trouxe do Navegar Amazônia (um desses pontos pra onde ele foi junto com Jorge Mautner) fiquei encantada, emocionada. Este projeto é uma verdadeira Revolução!!!!

Conhecemos a cultura de outros países, mas a nossa, muito pouco. Acho que precisamos conhecer mais o Brasil pra saber do que a gente é feito. Conhecendo a nossa cultura, a gente se conhece mais.

O Navegar Amazônia (http://navegaramazonia.org.br) é o seguinte: dentro de uma grande barca, vai navegando pelo Rio Amazonas uma turma de artistas e equipes de direção do projeto com filmadoras, câmeras, instrumentos, computadores. O barco vai parando em vários povoados ribeirinhos, e é intensamente recepcionado pelas habitantes logo ao atracar, com música, cantoria e muita festa. Vão se realizando oficinas em palcos improvisados no chão de barro e com tetos de folha de palmeira; artistas locais se apresentam, os de fora também, tocam uns com os outros, misturando todos os estilos e influências, sempre com a participação intensa da platéia que canta junto, bate palmas, dança. Depois a garotada sobe no barco e vai aprendendo a mexer com o computador, vai navegando pela internet, aprende a fazer filminhos pra depois vê-los na tela. É incrível ver essas pessoas tendo acesso pela primeira vez às ferramentas que fazem parte do dia-a-dia de quem mora na "civilização" das grandes cidades, e ao mesmo tempo, os artistas da "civilização" das grandes cidades ficarem estatelados, de boca aberta, quando descobrem a cultura daqueles lugares distantes, festas danças rituais lendas música, um enorme universo desconhecido, tão perto mas tão longe. E penso comigo mesma- o que será Revolução Cultural, senão isto?

Por coincidência ou não, recebi hoje o email de meu amigo Ricardo Moreno, Mestre de Música Brasileira pela Uni-Rio, que falava justamente destes projetos do Ministério da Cultura. Fala, Ricardo:

Prezados amigos,

No nosso dia a dia temos tantos afazeres que muitas vezes ficamos impossibilitados de tomar conhecimento de coisas importantes que estão acontecendo na nossa sociedade. A essa quantidade de tarefas, soma-se o desinteresse dos meios de comunicação em dar destaque a uma pauta do bem. Cotidianemente esses meios nos brindam (bombardeiam, na verdade) com uma verdadeira "pauta do mal".
O Ministério da Cultura tem desenvolvido um trabalho muito interessante que articula cultura popular e economia solidária. Chama-se "ponto de cultura". Hoje já são em torno de 600 espalhados pelo Brasil. Eles são encontrados tanto nas periferias das grandes cidades, quanto em pequenas cidades. Além de articular cultura e cidadania, está em curso também o reconhecimento do estado brasileiro de que esses fazeres são legítimos do ponto de vista da produção cultural brasileira. Isso quer dizer que tanto a "alta cultura" como a "cultura popular" são reconhecidas e financiadas pelo Estado. Cada ponto de cultura recebe apoio financeiro de até R$ 150.000,00 e um kit de produção multimídia, com computadores, internet banda larga, ilha de edição e estúdio de gravação para registro de seus trabalhos.
A articulação de cultura e cidadania gera importantes ganhos simbólicos e materiais para as comunidades detentoras dos saberes tradicionais. Isso é muito importante e gera inclusão social, pois muitas dessas comunidades estão em situação de risco social.
Para o economista Paul Singer, há muita cultura na economia soildária, e muita economia solidária na cultura. É preciso, no entanto, juntar essas pontas. Para ele, um novo Brasil está surgindo a partir da idealização dos "pontos de cultura".
Penso que só por isso o projeto Lula presidente já mereceria nosso voto. Deixo aqui um link de um artigo publicado na agência Carta Maior, para quem desejar maiores informações sobre os pontos de cultura:
http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=10568
Um abraço a todos!
Ricardo Moreno

07 October 2006

por causa de Carmen Miranda


Este é o comêço do texto que escrevi no meu site que brevemente estará no ar:



POR CAUSA DE CARMEN MIRANDA
O mundo visto de um bolso de sobretudo. Frio, mas a neve já tinha derretido, formando aqueles chancões de lama preta. As árvores solenes sagradas esqueléticas sem folhas, o frio no nariz, porque o resto estava muuito bem embalado, e abraçado. Central Park, Nova York no começo da tímida primavera de 47.

Mas por que a minha história começa em Nova York?

Por causa de Carmen Miranda!!! Meu pai Helio Jordão Pereira, filho de uma baiana de Salvador com um advogado neto de portugueses- foi um dos integrantes do BANDO DA LUA, grupo musical carioca que desde 1931 vinha fazendo sucesso nacional e internacional. Quando Carmen Miranda foi contratada pra estrear nos Estados Unidos, ela bateu o pé e fez questão que o Bando também fosse, ela iria precisar de um acompanhamento à altura, e isso não ia encontrar lá fora, por melhor que fossem os músicos... o ritmo, o molho, e o tempero. Já em Nova York, ele conheceu a minha mãe- Elizabeth Tablak Brill- filha de russos, atriz formada pelo Actor's Studio, e modelo exclusivo da Helena Rubinstein. Os dois jovens, lindos, talentosos, famosos... e apaixonados.

O namoro foi ao som das Big Bands, onde iam dançar (eram grandes pés-de-valsa): Benny Goodman, Cab Calloway, Count Basie, Duke Ellington. Shows de jazz, swing, bebop em cada esquina: Thelonious Monk, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Billie Holiday, Ella Fitzgerald. E foi um casamento "de guerra", como diria a minha mãe: sirenes, black-outs, aquela tensão de ser atacado a qualquer momento pelo inimigo. Um pouco mais de 10 anos depois da Grande Depressão. Fazia-se de tudo para tentar ser feliz.

Politicamente foi uma fase importante: detentores da bomba atômica, os EUA saem vitoriosos da guerra, com uma economia fortíssima, tão ricos que participam da recuperação econômica dos países europeus em crise criando o Plano Marshall. Há uma explosão demográfica, e começa os movimentos dos direitos civis e feministas. E Truman lança a sua doutrina contra o comunismo, iniciando assim a Guerra Fria contra a União Soviética, o que vai provocar outra tensão permanente no mundo, de ser atacado a qualquer momento, só que dessa vez não iria sobrar nada, pois entra em campo a bomba atômica.

E foi neste fundo musical que nasci e passei meus tres primeiros anos de vida.

pro Nelson

















FELIZ ANIVERSÁRIO!!!!

01 October 2006

Cana Caiana em Canet


Em 1980 fui me embora pra Europa, e lá fiquei por tres anos. Com mais o Mário Jansen (teclados), Bida Nascimento (baixo), Walter Guimarães (bateria), e posteriormente, Alfredo Lemos (guitarra) e Foguete (percussão), fizemos o Cana Caiana, um grupo de jazz e música brasileira. Fizemos um tremendo sucesso, Espanha, Portugal, França, Inglaterra, Suiça e até Emirados Árabes, onde fizemos um reveillon num hotel da cadeia Hyatt, nunca tinha entrado num lugar tão moderno e sofisticado assim. O último andar era um restaurante giratório de vista de 360º, de onde se via, sabem o que? areia areia areia.

Mas este é um outro capítulo, agora quem está aqui é o cartaz de um show da gente em Canet, uma localidade perto de Barcelona muito hospitaleira, de onde guardo boas lembranças. Muuuito linda, um teatrinho muuuuito maneiro e aconchegante chamado Café Odeon, foi demais.

Em Barcelona e em toda Catalunha fala-se o catalão, uma língua muito musical e bonita, com seus "Ls"(éles) bem pronunciados, aprendi muitas palavras -claro- e falava uma frases- claro, pois morar numa cidade de língua diferente da sua é a melhor maneira de aprender a falar.

Entenderam o cartaz? é meio parecido com latim, italiano. Dissabte- sábado; diumenge- domingo; vuit- oito (lembra huit, frances); dos quarts de dotze- onze e meia.

Mais palavrinhas: si us plau -por favor; deixeu sortir- deixem sair; mulher- dona; la llum de la lluna- a luz da lua; a casa seva o a la meva?- à sua casa ou à minha? E um texto sobre meu signo, Pisces: últim signe del Zodíac, Piscis representa la fi d'un cicle i l'inici d'un altre, ambdós simbolitzats pels dos peixos, un que s'escapa de la roda zodiacal i l'altre que hi retorna. Signe femení, d'aigua, les seves aigües són les de l'oceà, l'infinit. El seu regente, Neptú, és el planeta de la il-luminació, de la visió de l'ideal, de la fusió amb la totalitat. Així, Piscis tant és el signe del misticisme com el dels moviments populars de tendència socialista.

Deu pra entender tudo né? é parecido, mas não tanto quanto o castelhano. Me amarro no catalão, adoro escutar.

E pra fechar, uma boa noite, até amanhã: BONA NIT, FINS DEMÁ!!!!

29 September 2006

ressonancia schumann


O tempo está correndo demais. Eu estou correndo demais atrás do tempo que está correndo demais, e... onde foi parar esse ano? o semestre passado? esse mes? isso pra não falar do ano passado, dos 5 anos passados etc etc... Acordo pensando: vou fazer isto, isto, isto, aquilo outro e mais aquilo... deito pensando: só consegui fazer isto e a metade daquilo.... Não consigo entender esta sensação: uma coisa que aconteceu há um mes sinto que foi há, no máximo, duas semanas atrás. Por quê??? E meus amigos também sentem algo parecido. Jovens e menos jovens e adolescentes e idosos: não há idade pra sentir esse tempo passando na velocidade da luz... é unanimidade.

Apesar de ser de peixes, e o verbo deste signo ser o verbo "crer", não sou exatamente uma pessoa que se possa chamar de crédula, pelo contrário. Mas também não duvido de nada. Então achei curioso esse email que recebi há um tempo atrás. Não sei, não sei, mas quem sabe? talvez essa coisa de sentir o tempo voando seja por causa dessa tal de "ressonância schumann". Em todo caso, já uso isso aqui nas internas como desculpa quando cometo deslizes temporais, e costumo ser perdoada:))

Recebi o texto exatamente assim, creditado a Leonardo Boff, o que não quer dizer que realmente seja dele...



Ressonância Schumann
(Leonardo Boff)

Não apenas as pessoas mais idosas mas também jovens fazem a
experiência de que tudo está se acelerando excessivamente. Ontem foi
Carnaval, dentro de pouco será Páscoa, mais um pouco, Natal. Esse
sentimento é ilusório ou tem base real?
Pela ressonância Schumann se procura dar uma explicação. O físico
alemão W.O. Schumann constatou em 1952 que a Terra é cercada por uma
campo eletromagnético poderoso que se forma entre o solo e a parte
inferior da ionosfera, cerca de 100km acima de nós. Esse campo possui
uma ressonância (dai chamar-se ressonância Schumann), mais ou menos
constante, da ordem de 7,83 pulsações por segundo. Funciona como uma
espécie de marca-passo, responsável pelo equilíbrio da biosfera,
condição comum de todas as formas de vida. Verificou-se também que
todos os vertebrados e o nosso cérebro são dotados da mesma
frequência de 7,83 hertz.

Empiricamente fez-se a constatação de que não podemos ser saudáveis
fora dessa frequência biológica natural. Sempre que os astronautas,
em razão das viagens espaciais, ficavam fora da ressonância Schumann,
adoeciam. Mas submetidos à ação de um simulador Schumann recuperavam
o equilíbrio e a saúde.

Por milhares de anos as batidas do coração da Terra tinham essa
freqüência de pulsações e a vida se desenrolava em relativo
equilíbrio ecológico. Ocorre que a partir dos anos 80, e de forma
mais acentuada a partir dos anos 90, a freqüência passou de 7,83 para
11 e para 13 hertz por segundo. O coração da Terra disparou.

Coincidentemente, desequilíbrios ecológicos se fizeram sentir:
perturbações climáticas, maior atividade dos vulcões, crescimento de
tensões e conflitos no mundo e aumento geral de comportamentos
desviantes nas pessoas, entre outros. Devido à aceleração geral, a
jornada de 24 horas, na verdade, é somente de 16 horas. Portanto, a
percepção de que tudo está passando rápido demais não é ilusória, mas
teria base real nesse transtorno da ressonância Schumann.

Gaia, esse superorganismo vivo que é a Mãe Terra, deverá estar
buscando formas de retornar a seu equilíbrio natural. E vai consegui-
lo, mas não sabemos a que preço, a ser pago pela biosfera e pelos
seres humanos. Aqui abre-se o espaço para grupos esotéricos e outros
futuristas projetarem cenários, ora dramáticos, com catástrofes
terríveis, ora esperançadores, como a irrupção da quarta dimensão,
pela qual todos seremos mais intuitivos, mais espirituais e mais
sintonizados com o biorritmo da Terra.

Não pretendo reforçar esse tipo de leitura. Apenas enfatizo a tese
recorrente entre grandes cosmólogos e biólogos de que a Terra é,
efetivamente, um superorganismo vivo, de que Terra e humanidade
formamos uma única entidade, como os astronautas testemunham de suas
naves espaciais. Nós, seres humanos, somos Terra que sente, pensa,
ama e venera. Porque somos isso, possuímos a mesma natureza
bioelétrica e estamos envoltos pelas mesmas ondas ressonantes
Schumann.

Se queremos que a Terra reencontre seu equilíbrio, devemos começar
por nós mesmos: fazer tudo sem estresse, com mais serenidade, com
mais amor, que é uma energia essencialmente harmonizadora. Para isso
importa termos coragem de ser anticultura dominante, que nos obriga a
ser cada vez mais competitivos e efetivos. Precisamos respirar juntos
com a Terra, para conspirar com ela pela paz.

lboff@uol.com.br
[JORNAL DO BRASIL - 05/MAR/2004]

24 September 2006

show com Tomas


No primeiro semestre deste ano fizemos uma série de shows, Tomás Improta e eu, com a participação especial em várias músicas de Nelson Jacobina. Foi um repertório selecionadíssimo, que ia de Thelonius Monk a Nelson Cavaquinho, passando por Dorival Caymmi, Cole Porter e Billie Holiday. Teve também músicas que raramente são tocadas, como o Edmundo, versão do Aloysio de Oliveira para o "In The Mood", gravado por Elza Soares há muito tempo atrás. Toquei teclado também com Tomás numa música minha, "Sousse", inspirada numa cidade em que fiquei trabalhando na Tunísia. Mmmmmm... tocar teclado com Tomás do lado me deixa com calafrios, mão tremendo, boca seca, coração descompassado porque... sabe como é... Tomás toca demais!!! mas criei coragem e mandei ver porque, como canta o Gil -cada macado no seu galho!!!

Teve ainda uma inédita do meu pai, Helio Pereira, intitulada "De Déu em Déu".

Agora quero retomar esse trabalho e fechar mais datas. Muito muito bom, adorei.

22 September 2006

1972, o filme

Hoje dia 22 vai passar um filme que promete. Essa eu não perco por nada! Quem fala é o Cláudio Araújo, homeopata e músico, integrante do grupo Faia dos anos 70. Fala, Cláudio:

Pessoal
Nessa sexta, às 21h, tem a estréia do filme "1972" para o qual compus a trilha original, junto com o Renato Ladeira, da Bolha. O filme está no Festival de Cinema e vai passar no Palácio 1, no Centro.
Estarei lá às 17h numa tenda montada no lado de fora, pra discutir o filme, as músicas, etc, com as pessoas interessadas. A primeira sessão é as 15h, depois tem esse papo com o público. Mas só estarei vendo o filme na sessão das 21h, junto com os diretores (Zé Emílio Rondeau e Ana Maria Bahiana) e o restante do elenco.
Eu já assisti uma prévia e o filme está muito legal. É uma recriação daquela época e ficou perfeito. Saí do cinema em estado de choque, parecia que eu tinha voltado 35 anos pra trás!
Quem quiser aparecer pro papo, é às 17h numa tenda armada lá fora. Tb não sei onde vai estar essa tenda, mas ainda vou saber.
A produtora me disse: voce vai achar! Coisas do Brasil...
Mas dá pra encontrar o cinema, lá no Passeio Público.
Abs
Claudio

21 September 2006

entrevista ao Senhor F

Há um tempo atrás, o escritor e biógrafo Nélio Rodrigues, autor do livro "Os Rolling Stones no Brasil", procurou a mim e aos meninos da Equipe Mercado, porque estava levantando dados pro seu próximo livro. Foi ótimo conhecê-lo, viramos amigos, e ele fez uma entrevista comigo na revista virtual de rock Senhor F. Ficou no ar por um tempo, depois foi pro arquivo, nº 22. Agora infelizmente não está mais acessível e acessável, não sei porque. Várias pessoas me perguntam pela entrevista, e resolvi transcrevê-la aqui no blog, onde estará guardadinha e ao mesmo tempo inteiramente legível clicável indeletável para o deleite de todos que aqui entrarem. Ei-la pois:

NR-Como e quando você se tornou cantora da banda que veio a se chamar Equipe Mercado?

DD-Estávamos no ano de 1969, em plena ditadura militar, estava cursando o 2º ano da Faculdade de Arquitetura da UFRJ, depois de ter feito o curso de piano com Nise Obino na Academia Lorenzo Fernandez , teatro com Nelson Xavier e expressão corporal com Klaus Vianna. Achava que -agora sim!- tinha encontrado o que queria. Naqueles corredores compriiiiiiiiiiiiidos da FAU eu vivia passarinhando, cantando, soltando a voz, o eco me dava um timbre danado!! Então num desses vai-e-vens, eles- Marcos Stul, Trajano Lemos, Antonio César Lengruber- me ouviram e me convidaram para fazer parte da sua banda intitulada César, Marcos et Trajanus.
A coisa mais importante que estava acontecendo para mim no momento era o Tropicalismo. Gil e Caetano. Me identifiquei inteiramente. Esse Movimento foi fortíssimo... me virou de ponta-cabeça.... me descompassou o coração... me deu força pra fazer coisas nas quais eu sempre acreditei...mas não ousava... Eu, que estava estudando pra ser arquiteta (tinha jeito, desenhava bem), de repente, com esta explosão estética-moderna-contemporânea-musical, não tive dúvidas: era isso que eu queria: a música popular... o Tropicalismo me fez descobrir a mim mesma, e foi inspirada nele que eu comecei a minha carreira.

Topei fazer parte da banda dos meninos.

Ensaiávamos no Rocha num pátio no último andar da casa da avó do Lemgruber, entre biscoitinhos e refrescos. Instrumentos precários, difícil acesso, mas cheios de ideais utópicos, sonhos, ansiedade, alegria, alegoria, fantasia, trópicos, repertório de Beatles, Stones, Mutantes, e surgindo nossas primeiras composições. Lá fora o pau comendo no Vietnam, Janis e Hendrix nos embriagando, tudo era tão novo, tudo era tão forte, tudo era tão aqui e agora, e o aqui e agora, tudo. Nasceu o Mercado.

NR- Desde sua entrada, a banda sofreu uma rápida transformação. Tanto estética quanto musical. Quais foram os fatores que contribuiram para que a Equipe se tornasse um grupo de vanguarda?
DD- Um dos fatores foi o encontro do Mercado com Ricardo Guinsburg e seu parceiro Ronaldo Periassú, quando vieram nos chamar para participar de sua composição no programa da Dercy Gonçalves na TV , cantando Xaxerú.

Ricardo e Ronaldo faziam umas músicas inteiramente surpreendentes, influenciados pela poesia concreta dos irmãos Campos, Décio Pignatari, música de vanguarda, Stokenhausen, Rogério Duprat, e por aí vai... Deste encontro com a dupla nasceu a Equipe Mercado.

A banda básica era sempre igual: Stul no baixo, Lemgruber na guitarra, Guinsburg no violão acústico microfonado (!), eu cantando, tocando percussão, dançando. O baterista variava... Nascimento... Áureo.... Cláudio Jaguaribe.... Trajano.... Carlinhos Graça... João del Aguila. Às vezes Periassú participava com voz e corpo, e sempre com idéias para happenings.

Era uma equipe mesmo: fora a banda, havia as mulheres, os maridos, os amigos, os parentes, cada um ajudando, dando uma força no que podia... Época das comunidades, de morar junto, de se abraçar, de se entender, de mudar o mundo.... Eu particularmente senti que aí podia acontecer muuuuita coisa, não só pelas composições tão originais de Guinsburg e Periassú, mas também pelo espaço que eu teria para criar criar criar, usar minha voz como instrumento, meu corpo como pássaro e nuvem, meus olhos como janelas para a esfera terra. Me soltar, voar e voltar etérea.

Outro fator (não determinante, mas inspirador) foi o fato de a gente ter se matriculado no Instituto Villa-Lobos, ali na Praia do Flamengo, antiga sede da UNE (hoje virou o estacionamento do velho Cipriano). Essa escola era a vanguarda da época (para se estudar música, só tinha a Escola Nacional de Música, o Conservatório e a Academia Lorenzo Fernandez, todas com aquele ensino tradicional clássico). Dirigido pelo Reginaldo de Carvalho, que fazia música eletro-acústica e aleatória, o Instituto Villa-Lobos era também um ponto de encontro de hippies, de artistas de todos os setores.... Rose Marie Muraro, Cecília Conde, Bohumil Med, J.Lins, entre outros, eram os professores, e Celia Vaz, Paulinho da Viola, Nelson Jacobina, Mauro Senise estavam entre seus alunos.

Outro fator foi o fato de nós do Mercado sermos como éramos, abertos a todos os tipos de música, sem preconceito algum, querendo experimentar, fazer coisas novas, arriscar, nos aprimorar.

E claro, o momento histórico-cultural foi decisivo.

NR- O estilo da Equipe era único, pois misturava o psicodelismo (tanto na melodia quanto nas letras das músicas), a teatralidade, a dança...No palco, era um verdadeiro happening. Essa forma avant-garde de ser surgiu espontaneamente?

DD- Totalmente. Os arranjos eram de Ricardo Guinsburg, que vinha com uma idéia pronta e íamos acrescentando outras idéias e detalhes e a coisa ia tomando forma. Eu cuidava também da parte visual, cenário, figurino, expressão corporal. E muita coisa acontecia na hora, em cena mesmo. Cada show era diferente do outro, dependendo da situação, do local de apresentação etc. Por exemplo, no Teatro Poeira, que era um teatro pequeno e aconchegante situado na rua Jangadeiros, na Praça General Osório,distribuimos ao público presente panelas, tampas, objetos para que pudéssemos em conjunto fazer uma criação coletiva. Foi fantástico, pena que naquela época não havia meios para se gravar ao vivo uma experiência dessas, pelo menos nós não tínhamos.... Já não se podia fazer isso em espaços maiores.... aí fazíamos outros tipos de "happenings"(palavra usada naquela época pra dizer "performances") durante os shows.


NR- Vocês tinham consciência da ousadia e originalidade da banda? Era isso que vocês buscavam?

DD- Tínhamos consciência sim... Claro que antes da nossa primeira apresentação como Equipe Mercado (foi no programa da Dercy Gonçalves na TV), não sabíamos o que estava para acontecer, mas me lembro particularmente de uma reunião em Santa Teresa que se deu um pouco depois, na casa do Guinsburg e Periassú (a primeira vez que andei no estribo do bonde, e desde então me apaixonei pelo bairro onde moro até hoje). Era uma reunião para discutir o sucesso repentino, e traçar estratégias e nos preparar pro que vinha mais pra frente.
Isto foi nas vésperas da apresentação no Festival Universitário de SP, onde fomos tocar "Poesonscópio de Mil Novecentos e Quarenta e Quinze" , de Guinsburg e Periassú (depois gravado no lado B do compacto que saiu pela Odeon, com "Mary K no Esgoto das Maravilhas" no lado A). Teve a participação especialíssima do músico Naná Vasconcellos. Figurinos surreais de Vera Figueiredo. O grupo de teatro Oel, de São Paulo -umas quinze ou mais pessoas- escovando os dentes no palco enquanto a gente se apresentava. Hoje em dia isso pode parecer banal, mas em 69 era motivo de escândalo, com reações as mais imprevisíveis, desde meias-páginas iradas de cronistas no jornal, até.... É bom lembrar que estávamos em plena ditadura militar, sempre bom lembrar isto, porque essa nuvem era constante, pairando sobre a cabeça de todos.

Nosso objetivo, claro, não era fazer escândalo, mas sabíamos que nosso trabalho era de vanguarda, e que iria provocar muita polêmica. Mas como qualquer artista, buscávamos uma aceitação de público e crítica, um reconhecimento pelo nosso talento e ganhar o suficiente para podermos nos sustentar sem precisar trabalhar em outra coisa senão na Equipe Mercado.

NR- Num festival universitário, em São Paulo, vocês ganharam um prêmio de originalidade por conta desse estilo mas, em compensação, passaram maus bocados em Cataguases, de onde foram expulsos. Como é que vocês encararam esses dois fatos antagônicos? Em Cataguases, o público e as autoridades presentes ficaram chocados com a apresentação da banda. Como foi?

DD- Este Festival Universitário em São Paulo foi justamente a apresentação que descrevi acima, com Naná Vasconcellos e o Grupo Oel. Tivemos muito sucesso, com prêmio e muitas apresentações agendadas em vários pontos do país. Mas teve muita crítica contra. O Flávio Cavalcanti, um famoso apresentador da TV, nos chamou pra fazer o programa dele no Rio na TV Tupi não porque tivesse gostado, mas sim pra falar mal, pichar: Só a nossa presença no programa já iria aumentar o ibope dele. Foi assim. E nós fomos porque era uma baita divulgação...

Agora, em Cataguases, foi diferente. Tratava-se de um Festival Audio-Visual de Vanguarda. De Vanguarda, diziam. Fomos defendendo a música de Guinsburg e Periassú "Marina Belair" (depois gravada pela Odeon num disco chamado "Posições", com o Som Imaginário, A Tribo e Módulo Mil). Essa música era sobre uma manicure do "bas-fond" da Lapa. Levamos para o palco montanhas de papel, plásticos, objetos, uma caravana de amigos para fazerem a cena: o halterofilista de sunga, corpo azeitado mostrando seus músculos musculosos, casais em posições e movimentos sugerindo trepadas, baldes de suco de groselha, gente fazendo com que devorava carne crua. Eu vestia um lençól manchado de vermelho, eles, de mendigo. Nossa apresentação tinha a duração de aproximadamente 20 minutos. Quando saímos de cena, sentimos um clima tensíssimo... soubemos pelas pessoas do júri, que o povo da cidade queria nos linchar...neguinho tava doido de ódio. Tínhamos ido além dos limites para Cataguases... Logo a polícia entrou nos bastidores e apreendeu os nossos documentos. Entendimentos, desentendimentos, negociações... Ficamos até o final e fomos os últimos a sair do teatro, junto com o júri nos servindo de escudo, escoltados pela polícia até o alojamento. Passamos a noite em claro, e na manhã seguinte, às seis e meia da manhã, havia duas kombis nos esperando para sair da cidade. E só então os nossos documentos nos foram devolvidos. Fomos sem ao menos tomar um café da manhã. Saimos frustrados, sentindo-nos injustiçados, pois o júri nos informou que íamos tirar o primeiro lugar, e o dinheiro do prêmio, sem dúvida, iria vir em boa hora. Mas por que esta cidade hospedou um Festival Audio-Visual de música de vanguarda? não tinha condição...

A repercussão aqui no Rio foi intensa. Colunas de jornalistas (Luis Carlos Maciel, José Carlos Oliveira, Julio Hungria e mais), falando sobre o assunto dias seguidos. Revistas com a reportagem, com fotos com os dizeres: "A seminudez e a gesticulação erótica dos jovens do Mercado indignaram muitos espectadores"; "A apresentação do grupo Mercado provocou o grande escândalo do festival e causou a expulsão de seus integrantes pelo delegado". Como diria o Luis Carlos Maciel, em um dos seus artigos (foram pelo menos 4) no jornal Última Hora: ".... fazer um festival de vanguarda numa cidade do interior é fogo!!....."

NR- Como é que vocês foram parar num espetáculo com Betty Faria e Leila Diniz?

DD- Chamaram a Equipe Mercado para participar de um espetáculo que ficaria meses em cartaz, na Boite Sucata do Ricardo Amaral (onde ficava o Tívoli Park, por ali). Seria um musical picante, com texto de Luis Carlos Maciel, dirigido por Neville de Almeida (também autor de um filme erótico -super 8- com as duas atrizes, que foi filmado exclusivamente para ser rodado durante o espetáculo). No roteiro de músicas, canções de compositores conhecidos (por exemplo, Betty cantaria, dentre outras, "As Curvas da Estrada de Santos" de Roberto e Erasmo Carlos) e nós, além de apresentar o nosso repertório, tocaríamos, por exemplo, o "Cérebro Eletrônico" de Gil, etc.
Os ensaios foram divertidíssimos, a gente se deu super-bem com as duas, e o espetáculo saiu divulgado em jornais, outdoors e panfletos. Na estréia a casa estava super-lotada, muita loucura, muita confusão e aconteceu o que ninguém esperava: roubaram o tal filme delas, que mostrava, entre outras coisas, elas devorando, sugestivamente, um farto abacaxi. No dia seguinte, o "grude" estava formado. Elas se recusaram a participar, rescindiram contrato, e nós seguramos sòzinhos a peteca.

NR- O sucesso de "Mary K No Esgoto das Maravilhas" chegou a surpreender a banda?

DD- Sabíamos que tínhamos em mãos uma coisa boa, e que, com um pouco de sorte, seríamos recompensados. Não deu outra!!! Tirou o 6º lugar, com direito a contrato na gravadora Odeon (logo gravamos um compacto com Mary K no Esgoto das Maravilhas no lado A, e Poesonscópio de Mil Novecentos e Quarenta e Quinze no lado B, esta terrìvelmente mutilada para que durasse no máximo 3 minutos, exigência da gravadora...). E estourou!!! Por meses, 1º lugar no "Show dos Bairros" da Radio Mundial, Radio JB. Me lembro tão bem da sensação inenarrável que eu sentia ao escutar minha voz saindo ali no rádio. Primeira vez!!!!

NR- Que lembranças você tem daquela vida de hippie em Santa Teresa? Dá pra descrever um pouco?

DD- Vai ser difícil descrever "pouco"! São bilhares de lembranças devidamente guardadas em gavetinhas do inconsciente, que vou abrir, sacudir a poeira, pra poder responder a essa pergunta. Aquela "vida de hippie em Santa Teresa" citada, nem sei quando acabou, nem sei SE acabou.... Vou falar primeiro da chamada "casa da Equipe Mercado".
Bem, a primeira lembrança é do perfume que um cacho de bananas deixou pela casa toda ao amadurecer.

A casa de que falo é a mítica enorme casa na Rua Julio Otoni (Santa Teresa), de 2 andares, um vasto quintal, 5 quartos, que alugamos e fomos morar em comunidade. Os primeiros moradores fixos oficiais foram 3 meninos da Arquitetura e eu. Junto havia dezenas de "agregados", irmãos, namoradas, namorados, irmãs, amigos, primos, artistas em geral, produtores, que ocasionalmente passavam... e dormiam por lá. Fomos os primeiros da nossa turma de conhecidos a fazer isso, uma atitude mais que ousada, revolucionária. Difícil encontrar um proprietário que quisesse nos alugar algo, mas conseguimos depois de muito bater perna. Pra mim foi uma saída dramática, meu pai era contra -e olha que ele era músico, foi do Bando da Lua, tocou com a Carmem Miranda, foi com ela pros States filmar e se apresentar, conheceu minha mãe atriz, eu nasci (digo que foi por causa da Carmem que eu nasci!!!). Tudo isso pra dizer que ele era artista, tinha tudo pra ser mais aberto, mas que nada... foi uma barra, fiquei anos sem pisar os pés em sua casa... Agora, se ele era assim, imagina como eram os pais convencionais...

Bem, então afinal saimos da casa dos pais. E agora? agora era fazer tudo diferente deles, mudar a nossa vida, mudar o mundo... Mas como?? não sabíamos... mas isso não importava. Nos reuníamos semanalmente pra discutir "como". Tudo era posto em pauta, desde a posição do papel higiênico na parede, até o revesamento dos quartos (os da frente tinham uma vista pra baía de Guanabara, e chegamos à conclusão que seria justo que todos pudessem usufruir disso), passando pelo cardápio , atividades comunitárias e indo pra estudos esotéricos, e claro, era o local de ensaio da Equipe Mercado, onde recebíamos outros músicos, produtores, artistas. Tudo era feito em comunidade, em conjunto. Hoje em dia, com esse individualismo reinante, é difícil de imaginar, mas na época tinha tudo a ver... as filosofias orientais sendo descobertas... yoga, macrobiótica, tai-chi-chuan, Maharishi, Ravi Shankar, os beatniks, as drogas, Marcuse e MacLuhan, leitura dinâmica, Julian Beck e o Living Theatre, José Agripino de Paula, Zé Celso Martinez Correa, livros como O Despertar dos Mágicos e os de Carlos Castañeda, Ordens Místicas secretas, W. Reich, viagens de corpo astral, sexo grupal, amor livre, ninguém é de ninguém, feminismo, feminismo, feminismo, jogar fora o sutiã...uma verdadeira avalanche de novos conceitos estético-filosófico-culturais me dando a sensação de que eu tava nascendo, tinha estado até então na barriga da minha mãe. Como consegui chegar até essa idade (22 anos) sem conhecer o arroz integral? sem saber o que era uma mandala???? sem ter acampado em Arembepe???

E repetindo: não esquecer jamais que estávamos em plena ditadura militar. Amigos desaparecendo assim.

E lá fora a Guerra do Vietnam...

Quem viveu os anos 70 sabe.

Na mítica casa, passávamos o dia a compor, tocar, cozinhar nossas refeições macrobióticas, estudar, fazer artesanato, pintar, cuidar dos afazeres domésticos, ensaiar... Na decoração, nada de camas, dormíamos em esteiras no chão, caixas de alho eram transformadas em prateleiras, tampas de goiabada coloridas em quadros, costurávamos, tingíamos, bordávamos nossa própria roupa, criando a nossa própria moda... Fazíamos nossas sandálias de pneu, nossa bijuteria, que também vendíamos na Feira Hippie na General Osório (era MESMO uma feira hippie quando começou.... vendi muito colar e sandália lá feitos por mim).

Aliás, era muuuuuito difícil ganhar dinheiro com música naquela época. Não havia essa profusão de lugares pra se apresentar como hoje, nem os instrumentos, nem os equipamentos, nem a infra-estrutura, nem as facilidades de uma gravação de cd em casa, nem os livros de música, nem os songbooks, nem os cursos que existem hoje em dia, nenhum investimento em arte... e às vezes topávamos com alguém que achava que a gente tinha que tocar de graça... que era "feio" ganhar dinheiro com música... aquela idéia idiota que o artista tem que viver duro, esfarrapado: esse é o "verdadeiro" artista.... porque quem ganha dinheiro com música é vendido, comercializado, não tem valor, e a música é um "dom divino" a qual não se pode vender bla bla bla...


NR- Apesar do relativo sucesso da bonita "Campos de Arroz", em 1971, a Equipe não teve fôlego para emplacar 1972. Por que a banda se desfez?

DD- Foi um sucesso mesmo, a canção (minha letra com música do Guinsburg) foi gravada na Phillips, com a direção musical de Nelson Motta, com uma verdadeira orquestra atrás, arranjo maravilhoso, com aqueles scattia pensere abrindo a introdução, uma beleza mesmo. Mas, fazer parte da Equipe Mercado, como aliás de qualquer banda, era muita entrega, a dedicação era total, e a gratificação monetária pouca, o sacrifício era muito, e a vida de artista pop acabou sendo inviável para uns... Lengruber foi se formar como arquiteto, Guinsburg foi trabalhar em produção de jingles e música para propaganda em geral. Foi assim que Equipe Mercado se dissolveu. Os que ficaram -eu e Stul- decidimos sair da casa na Júlio Otoni -grande demais, recordações demais- e fomos morar por pouco tempo num ap., também em Santa Teresa, para um pequeno período tranquilo de reciclagem de baterias. Nascia o Diana & Stul.

NR- Com o fim da Equipe, você e Stul seguiram como dupla (Diana & Stul) e gravaram um compacto pela RCA. Você pode sintetizar esse período na sua carreira?

DD- Fiizemos vários shows como dupla (na boite Flag, com Edson Frederico e Juarez Araújo, por exemplo), e gravamos na RCA esse compacto maravilhoso que tem a participação de Paulo Moura e Maurício Einhorn na ótima música do Stul "Não é Preciso Correr"... Mas naquela época NADA estava fadado a ser um "período tranquilo" por muito tempo: aos poucos fomos morar com toda a banda do Diana & Stul: Mario Jansen (piano e teclados), Afonso Correa (bateria, substituindo João del Aguila), Barroco (guitarra), num castelo monumental na Rua Joaquim Murtinho, também em Santa Teresa, onde já tinham morado o Luís Sá (do Sá e Guarabira) e as nossas amigas, a dupla Luli e Lucinha.

Que castelo!!!

Ali continuou tudo, com a diferença de que, como os moradores oficiais eram todos músicos, e músicos da mesma banda, só se falava de música, respirava-se música, ensaiava-se música, comia-se música de dia e....de noite!!! Muitos agregados, hippies, hare-krishnas, artistas (hospedamos Zé Celso por um tempo), produtores passavam por ali. Carregávamos um piano de armário nos shows, estávamos trabalhando razoàvelmente bem, compondo bastante, ensaiando diàriamente, aparecendo na midia, fotos, tijolinhos de shows, reportagens de meia página, entrevistas, e conseguindo pagar o aluguel do castelo só com o dinheiro dos shows. Que nem na época da Equipe Mercado, não tínhamos carro, não tínhamos telefone, era tudo de orelhão e boca-a-boca, fazendo cola de farinha para colar pela cidade nossos cartazes de shows, que claro, eram feitos por nós. Mimeógrafo. mala direta. Chegou uma hora que não dava mais. A precariedade cansa... Apareceram outras ofertas e convites irrecusáveis de trabalho para cada um de nós, e cada um foi trilhar seu caminho.

NR- Depois, você encarou uma série de musicais, entre eles o "Rock Horror Show" que ficou em cartaz, no Rio, de fevereiro a junho de 1975. Como foi sua participação?

DD- O musical sempre foi o meu gênero preferido de filme, de teatro, de tudo. Desde criança eu achava que a vida deveria ser assim -cantada e dançada!... Era mais profundo... era mais leve... era mais solto... era mais completo... eu via (vivia!) aquelas operetas com a Jeanette Macdonald, depois as chanchadas da Atlântida, depois os musicais americanos -Gene Kelly, Leslie Caron, Cid Charisse, Fred Astaire- e filmes como South Pacific, Um Americano em Paris, Dançando na Chuva, 7 Noivas para 7 Irmãos, West Side Story (que perdi a conta de quantas vezes eu vi, umas 25...e continuo vendo)... Como eu desde os 8 anos de idade estudava dança (e meu trabalho posterior ter sido muito baseado em dança e expressão corporal), fiquei extasiada quando fui chamada pra participar do "O Casamento do Pequeno Burgues" de Brecht/Weill, dirigido pelo saudoso Luis Antonio Martinez Correa. Eu era uma das coristas, meu nome era Mameley Dan-Dan. Começava a peça tocando ao piano a Ave Maria de Gounod. Marieta Severo, Thelma Reston, tinha muita gente incrível no elenco. E a banda? Barrozinho, Tomás Improta....

Depois fiz um musical infantil de Paulinho Machado e Fernando Pinto (dos Dzi Croquettes), uma incrível fantástica fábula cibernética chamada "Roboneta, o Planeta dos Robôs", toda cantada e dançada, com um figurino belíssimo do Fernando Pinto, coreografia belíssima de Fernando, músicas belíssimas de Paulinho, belíssima peça, belíssimas pessoas, belíssimo trabalho!!!

E finalmente, o Rock Horror Show, que fez um tremendo sucesso, com direito a gravação pela Som Livre da trilha e tudo! Vivi, com essa peça, uma época de super-exposição na mídia: minha foto saía 3 vezes por semana em jornais, meu aniversário com repórteres e fotógrafos, fofocas, reconhecida na rua, esse clima... Dirigido pelo -nem sei que adjetivo dar, era uma pessoa tão tão especial, tão única- Rubens Correa. Eu era a protagonista, a noivinha que seria "corrompida" pelo vampirão. Os ensaios eram puxadíssimos, o dia inteiro varando a noite, mas... que prazer era trabalhar com o Rubens! O elenco, super-divertido. Quase toda dançada, com rodopios, sapateados, altas coreografias (hoje em dia é comum, naquela época os musicais estavam começando aqui)- a peça exigia um preparo físico perfeito... A voz tinham que alcançar a última fila da platéia, sem microfone... Sábado e domingo, fazíamos duas sessões... Só sei que quando acabou a temporada, eu estava precisando de umas férias... resolvi dar um tempo, uma reciclada, e fui passar uns meses no mato, em Lagoa das Lontras, Miguel Pereira, pra onde, claro, levei tinta, pincéis, papel de desenho, máquina de escrever, instrumentos, discos, fitas k7 e um gravador. Sem TV ou telefone.

NR- O Bando da Santa foi outro projeto efêmero, não é?

DD- Antes do Bando da Santa uma coisa importantíssima aconteceu na minha vida profissional: tive a oportunidade de conhecer e trabalhar com Walter Smetak, músico, filósofo, escritor, poeta, criador de instrumentos-esculturas. Smetak trabalhava com microtons (a primeira vez que ouvi falar dele foi naquela música do Gil "Língua do P": smetak tak tak tak. Depois saiu o LP dele produzido por Caetano). Foi num curso de Criação Espontânea que ele estava dando no MAM, e de noite era encenada a peça dele, A Caverna. No dia em que entrei, sentei na sala e nós nos olhamos, foi uma empatia muito forte, uma identificação total, como se nos conhecéssemos há muito. Pediu pra eu cantar. Assim... sem nada ...sem acompanhamento... sem letra... improvisar... Fiz o que ele pediu. Resultado: de noite já estreei como cantora na peça, e desde aquele dia mantivemos um relacionamento muito profundo, muito forte, me identifiquei inteiramente com o seu trabalho, e a participar com a maior paixão. Como ele morava em Salvador, eu "me mudava" pra lá a cada chamado seu. Eu passava de manhã à noite, todos os dias, no seu estúdio-oficina num subsolo dos Seminários de Música da UFBA. Tenho muito material gravado inédito que passei pra cd recentemente, é um trabalho do qual me orgulho demais, e que pouca gente conhece.

A verdade é que depois disso, senti que nada mais me restava a fazer aqui, e fui armando aos poucos a minha transferência para Europa (onde vim a trabalhar com Smetak de novo, no evento Horizonte 82, em Berlim, 1982). O Bando da Santa estava nesse meio entre uma coisa e a outra. Esse nome representava o conjunto de várias bandas, que juntaram seus trabalhos num verdadeiro "mutirão musical" . Gente que morava em Santa Teresa, que se conhecia e trocava figurinhas há muito tempo, se esbarrando no bonde, no colégio, nas esquinas do bairro. Na época não existia essa coisa de música ao vivo nos bares: o que fazíamos era ensaiar cada grupo no seu canto e íamos nos apresentar lá embaixo, na cidade. Resolvemos então nos juntar, conseguimos através da Região Administrativa de Santa Teresa, um bom espaço bucólico, cheio de mangueiras, bem no Largo dos Guimarães (ex-Colégio Brentano) pra ensaiar, e neste espaço - fato inédito- conseguimos realizar vários shows históricos. Mas como isso era incomum, em pouco tempo começou-se a ter um movimento contra o Movimento que estávamos criando (que considero precursor do Arte de Portas Abertas, um festival de música, teatro, artes plásticas que se realizou em 97, com shows ao vivo por todo o bairro), e tiraram a gente de lá. Cada um então seguiu o seu rumo. Fui pra Europa.


NR- Nos anos 80 você passou uma boa temporada na Europa se apresentando com o grupo Cana Caiana. Quem participava do grupo? Conte um pouco dessa sua aventura.
DD- Acho que a "vida de hippie" acabou quando eu fui pra Europa. Em país que não é seu não se pode vacilar, você vai estar competindo com gente dalí, você sempre vai ser estrangeiro, não vai ter a família e os amigos pra darem uma força, então tem que procurar ser o "melhor"... se vestir bem, fazer bons contatos, falar a língua do país, ganhar mais dinheiro pois tudo é mais caro, os invernos são frios, e é loooonge pra caramba...

Mario Jansen (tecladista do Diana & Stul e do Bando da Santa) tinha se mudado pra lá havia 2 anos, e sempre me chamava pra montarmos um grupo, que daria o maior pé, que teria muito trabalho, que tava um momento ótimo pra música brasileira... Quando senti que era a hora certa, lá fui eu, pela Royal Air Marroc (existe ainda?) com escalas em Casablanca (opiástica!) e Tânger (fantástica!) rumo a Madrid (de putísima madre!!!!!). Um mes depois chegou o Bida Nascimento (baixo do Bando da Santa), seguido de Walter Guimarães (bateria do Bando da Santa). Nascia o grupo Cana Caiana. Meu repertório mudou completamente: sai o rock and roll e músicas autorais, entra a bossa nova e o samba. Foi quando aprendi a letra de Garota de Ipanema, entre muitas outras.... Claro, porque o que nos diferenciava do resto, era o fato de sermos músicos brasileiros, e naquela época, ainda não havia muito músico brasileiro lá.

Mario estava certo, o momento era excelente, de Madrid fomos pra Paris, onde fizemos uma boa temporada no Via Brasil, além de turnês por toda a França (Biarritz, Rouen, Montpellier e Algerès-Sur-Mer na Riviera Francesa, etc), fomos fazer o reveillon de 80-81 no Hyatt Regency Hotel em Dubai (Emirados Árabes), nesta ocasião participando de um show turístico de mulatas chamado "Tangas of Brazil", além de shows na Suiça e em Londres. De lá, para Barcelona, onde resolvemos estacionar nossa carroça e criar uma base por um bom tempo. A cidade catalã de Gaudi, Dalí, Miró nos recebeu de braços abertos...era deslumbrante, acolhedora, gostosa, alegre, fizemos amizades que duram até hoje.... e havia muita oferta de trabalho... em relativamente pouco tempo o Cana Caiana juntou um público fiel que ia onde quer que a gente fosse... De lá conseguimos agendar show por toda a Espanha, de ponta a ponta, uma maravilha.... Foram mais de 30 cidades diferentes!!!

Nessa fase o Cana Caiana contava com o guitarrista brasileiro Alfredo Lemos (também do Bando da Santa), que veio do Brasil especialmente pra tocar conosco. De Barcelona fizemos contato também para uma temporada em Porto, Portugal, e pegamos 24 horas de trem não parador, com uma cesta cheia de "bocadillos de tortilla" (enormes sanduíches de omelete) que eu havia feito na véspera.

Portugal foi sucesso total, ficamos 2 meses tocando de segunda a segunda no Chico´s Bar, com a maior mordomia, casa cheia, um verdadeiro barato, e de quebra, um show de hora e meia na TV Portuguesa!!! De volta a Barcelona, Alfredo precisou voltar pro Brasil, Mario foi convidado pra fazer um trabalho solo, eu fui chamada pelo diretor do "Tangas" pra fazer uma temporada de 3 meses na........TUNÍSIA, ganhando muito dinheiro, oferta que não dava pra recusar.

Hospedada num hotel 5 estrelas (Diar-Al-Andaluz)em Sousse, à beira-mar, de dia na praia com camelos passando, de tarde na piscina, onde de noite estaria cantando à sua beira, a lua, o cheiro de jasmim, tudo foi tão perfeito que parecia um filme... por 3 meses eu conheci o Paraíso. Cenário enebriante. Romance no ar. Quando terminou a temporada, fui morar em Munchen (Alemanha). Mas, como Munchen não é Sousse, e o cheiro de linguiça com chucrute é bem diferente do de jasmim, a coisa não vingou... Voltei pra velha e querida Barcelona, que me acolheu de braços abertos.

Mas tinha um problema... como eu sou americana, com carteira de estrangeiro, tinha expirado o meu visto permanente no Brasil, pois fiquei mais tempo fora do que o permitido por lei. Fiquei em pânico, doente, entrei em depressão, havia me esquecido completamente desse detalhe. Fui no Consulado e soube que havia uma maneira de conseguir a permanência de volta, mas tinha que voltar ali e naquele momento. Passagem de ida e volta pela Varig. Mas chegando aqui, aqui fiquei. Foi o fim de uma coisa, renascimento de outra, nova fase, nova casa, nova gente... mudanças... o eterno deus mu....dança!!!!

NR- Seu primeiro (e único) disco solo (Fome de Javali), saiu em 1990. De lá pra cá o que é que você tem feito? Tem planos de lançar outro disco?

DD- Antes do lançamento do Fome de Javali (que foi em 1992), é interessante falar sobre o recheio do sanduíche (minha volta da Europa e o disco). Apesar de eu ter passado relativamente pouco tempo fora (um pouco mais de 3 anos), as coisas aqui tinham mudado muito! Pessoas que eu conhecia não trabalhavam nos mesmos lugares de antes (nas gravadoras, nos teatros, na produção), minha agenda telefônica ficou desatualizada, amigos casaram e se mudaram. O rock estava no auge: enquanto eu estava na Europa, houve um interêsse das gravadoras em investir no rock nacional, promovendo diversas apresentações para um público grande em praças, praias etc. Disto se beneficiaram diversas bandas jovens (Kid Abelha, Paralamas), e alguns músicos da minha geração, que então tiveram a oportunidade de divulgação do seu trabalho e a formação de um público (Lobão, Ritchie, Lulu Santos).

Fiquei meio sem saber como recomeçar. Antes de entrar em parafuso, resolvi estudar. Soube de um curso de Harmonia e Composição que Antonio Adolfo estava dando no Calouste Gulbenkian (na Praça Onze; naquele tempo ele ainda não tinha sua famosa e renomada e bem sucedida Escola. Hoje ele fala brincando que nós éramos suas cobaias!!!). Antonio é um professor fantástico, um grande músico, uma pessoa simplesmente maravilhosa. Ficamos amicíssimos e foi naquele curso (que pulou pra Copacabana, depois pra casa dele mesmo, e finalmente pro Leblon e que durou 4 anos), que eu compuz no piano mais de cem músicas (5 delas estão no meu LP), a maioria só instrumentais.

Continuando o recheio: em 1989 Mario Jansen voltou da Europa e reiniciamos nosso trabalho, compondo um bom número de músicas. Em 1990 eu e Nelson Jacobina iniciamos uma parceria, com shows com músicas nossas e de outros autores, como Maysa, Jorge Mautner, Luis Melodia, Thelonius Monk etc. Em 1992 produzimos o disco Fome de Javali (título de uma composição nossa), shows de lançamento... Paralelamente fiz uma pesquisa com o Nelson de repertório de sambas antigos para montarmos um show chamado Cachorro Vagabundo, com participação especial de Ignez Perdigão (flauta, cavaquinho) e Rubinho (cavaquinho), com músicas de Assis Valente, Wilson Baptista, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho entre outros. No ano seguinte, eu e Mario Jansen montamos um show de blues (Noites de Blues), com participação especial de Barroco, repertório de Bessie Smith, Leadbelly, Chuck Berry, Jimi Hendrix, Muddy Waters, B.B. King, Robert Cray etc. Ainda participei de mais 3 trabalhos: um sexteto de bossa nova (Encontros com a Bossa); uma "big band" de covers dançantes (Itaipava Band), com músicas de Stevie Wonder, Marvin Gaye, Stones etc; e um trio de jazz (Jazzy Hours), com Bida Nascimento (baixo), Alfredo Lemos (guitarra), e eu no piano e cantando aqueles "clássicos" de jazz. Estes trabalhos todos estão gravados ao vivo, e umas músicas também em estúdio, o que já é material para novos cds. Há pouco tempo atrás me formei em Bacharelado de MPB pela UNI-Rio, e com isso surgem novos caminhos, novas possibilidades.

E vem aí um CD de inéditas.

Um leque de 360º de portas se abrindo e estou no meio disso tudo... epa!!! sinto que está tudo começando outra vez...

19 September 2006

pra Eloa


Flores para Eloá, que no céu comemora hoje o seu aniversário, imagino que mui animadamente, como sempre foi aqui na Terra.

17 September 2006

proverbios





Adoro provérbios. Eis um que vi numa vitrine em Toledo, Espanha. Foi numa lojinha de milhares de lembrancinhas, mas ela estava fechada, assim como todo o comércio: de 14:00 às 17:00 fecha TUDO para a siesta!!!
Que maravilha. Este eu não conhecia, e fiquei encantada.
Por experiência própria, aprendi que:
- pra baixo todo santo ajuda
- quando um não quer, dois não brigam
- cada louco com a sua mania
- de grão em grão a galinha enche o papo
- o que é do homem o gato não come
- águas passadas nao movem moinhos
- cada louco com a sua mania
- melhor prevenir que remediar
- há males que vem pra bem
- mãos frias, coracão quente
- o diabo não é tao feio quanto parece
- nunca diga desta agua não beberei
- não há regra sem exceção
- o que os olhos não vêem, o coração não sente
- quem canta, seus males espanta
- quem não arrisca, não petisca
- santo de casa não faz milagre
- tamanho não é documento
- é mais fácil acender uma vela do que reclamar da escuridão
- nada como um dia depois do outro

Alguns eu modifico, como "dos males, o nenhum", "falar é fácil, dizer é que são elas", "Deus dá nozes a quem tem dentes", "viver para comer e não comer para viver".

Com muitas não concordo, como "a justiça tarda, mas não falha", "cão que late, não morde", "com fogo não se brinca", "querer é poder", "pau que nasce torto morre torto".

Tem uns que não gosto, como "olho por olho, dente por dente", "de graça só se dá bom dia", "quem quer vencer, aprenda a sofrer", "tempo é dinheiro".

Mas todos contêm uma visão do mundo, uma filosofia, uma sacação de quem os inventou e resumiu aquela experiência numa só frase, um poder de síntese fantástico!!!

Esta é uma que fiz neste instante: "fala-me um provérbio, e te direi quem és", porque um provérbio pode revelar coisas muito interessantes sobre a pessoa que o citou...

Este provérbio árabe da foto é ainda mais complexo, é um verdadeiro poema. Fala da sabedoria, do equilíbrio, do controle das emoções, dos desejos, do "caminho do meio". Hmmm... há quem consiga, cada macaco no seu galho. É ver pra crer. Pela boca morre-se o peixe. Boi que dorme de touca vira sapato. Mas... coração que suspira não tem o que deseja...

E pra acabar, um genial de Luiz Melodia:
"Quem quer morrer de amor se engana
O corpo é natural da cama"

E não é que o moço tem razão?

linguas




Línguas são fascinantes. Além de nos darem, com o auxílio do olfato, o gosto da vida, elas lambem. Pros bichos são vitais pra beber água, lamber as crias, uma ferida... E pro bicho-homem, a língua é o órgão da fala, vai traduzir em palavras o que se passa, em milímetros de segundos, na nossa cabeça. Tão importante, tão fundamental, sem elas não haveria cultura e civilização.

Em português a palavra língua é sinônimo de idioma. E são milhares de línguas, milhares de idiomas no planeta. No post anterior, falei um pouco do castellano (se pronuncia castelhano, deveria escrever com lh mas adoro esse ll, da ortografia deles. Assim como o ñ... um charme. E o ponto de interrogação de cabeça pra baixo no começo de uma pergunta? demais). Cada língua tem seus jeitos e trejeitos: o inglês, com sua conjugação dos verbos facílima, tudo igual, tem o russo e alemão, com suas declinações (quem estudou 7 anos de latim no colégio: no curso ginasial e no curso clássico, acaba ligando o piloto automático e sai falando. Eu fui uma dessas alunas, mas aviso- não lembro mais nada!!!). O russo é difícil (um colega meu de russo disse que ele estudava grego também, e que russo é infinitamente mais difícil que grego), não pela escrita (que uma vez sabida, jamais esquecida), mas pela complexidade e sutileza do seu pensamento. Por exemplo, tem mais de 10 palavras pra exprimir o verbo ser (estar). Não há acentos, então cê tem que ler e ouvir muito pra saber ao certo onde está a sílaba tônica. Mas é das mais lindas, tão musical. Como o italiano, que língua linda. Dizem que o chinês é a mais difícil; dependendo da pronúncia e entonação crescente ou decrescente, por exemplo, de um "a" mais aberto ou fechado, a palavra muda inteiramente de sentido. O castelhano é a mais fonética: se pronuncia o que se lê. E o basco, cheio de "x" e "k"? o alemão, com suas palavras quilométricas? e o polonês, com aquelas consoantes todas juntas grudadas umas nas outras? e o japones? é mais fácil pronunciarmos o japones do que eles o português, porque nós temos todos os seus fonemas, mas eles não tem todos os nossos. Línguas são fascinantes. Nada como ler um livro em sua versão original. Por melhor que seja a tradução, por mais fiel e inspirada que seja, bom mesmo é ler no original, sempre que possível.

Mas não dá pra tirar fotos de línguas-idiomas. Então pra ilustrar, aí estão umas de línguas-línguas. Tentei tirar da minha própria, ficou parecendo uma pastel de tomate. Tentei de novo, me lembrou aqueles livros médicos. Então pedi ajuda aos meus queridos modelos Mia, Ping-Ling e Emilinha, que gentilmente mostraram-se solícitos e pacientes com o meu pedido. Eu também tive que ser paciente. Não foi fácil e nem rápido eu conseguir esses instantâneos, mas valeu a pena.

Língua. Tongue. Langue. Lengua. Zunge. Limbá. Tong. Tunga. Jezyk. Jazyk. Jezik. Nyelv. Kieli. Dil. Lidah. Lango. Yazik. Glo'ssa. Lougha. Laschon. Tsung. Shita. Ulimi.

14 September 2006

hay churros y.....


Se estiverem alguma vez andando por Madrid e derem de cara com um cartaz deste, não hesitem, não se espantem, não desconfiem, não entendam mal... entrem, peçam o anunciado, comam lá ou, como sugere o dito cartaz, levem-nos e comam no conforto do seu hotel.

Churros todo mundo sabe o que são, temos aqui aos montes nas carrocinhas pela cidade, tem até um apetrecho que os fura, recheando-os de leite condensado. Nunca provei, mas sei que não gosto, só de olhar me dá uma aflição na língua.

Mas os churros espanhóis acompanhando aquele chocolate espesso do qual falei em outro post, cai muitíssimo bem, foram feitos um pro outro. Estes são mais finos e bem compridos, finos como a grossura de um dedo humano e compridos como algo de 30 cms. E bem sequinhos, crocantes.

Agora vem a pergunta que todos queriam fazer: e que diabos são "porras"??????

Porra é um churro grossão, mais do que os daqui. Mas não acreditei quando me disseram pela primeira vez, achei que estavam curtindo com a minha cara.

O Castellano é uma língua que nós brasileiros pensamos saber falar, porque na verdade é muito parecido com o português, mais do que o italiano por exemplo, e muuuito mais do que o inglês. Mas a gente pode acabar pagando o maior mico se não tivermos cuidado, se acharmos que é só dar um sotaquinho "porteño" à frase, e hora de pedir uma coca, jogar um "cueca-cuela". Não vai dar certo.

Logo no primeiro mes que lá cheguei, em 1980, o jornal vinha trazendo na primeira página: "El presunto asasino ha hecho una huida espetacular, pero le han alcanzado". Traduzindo ao pé da letra: o presunto assassino realizou uma fuga espetacular, mas alcançaram-no.


Como pode um presunto matar alguém e fugir? matar alguém até pode, é só esse alguém comer um presunto estragado. Mas, e fugir? como pode um presunto assassino fugir, correndo pela rua com suas perninhas cor-de-presunto, todo esbaforido, e ninguém conseguir pegar?

É que o presunto em questão traduz-se como "presumido", "suspeito"!!!

Quando cê quiser elogiar um prato que provou e gostou, diga-"tiene un sabor tan esquisito"!!! Esquisito é diferente, especial, raro.

E "raro" em castellano? significa esquisito. "La chica es mui rara": a menina é muito estranha, esquisita...

E quando quis comprar uma escova de dentes? pedi na maior, crente que tava abafando, uma "escoba" (tendo o cuidado de pronunciar o b em vez de v. Ha! viajei!!! escova é "cepillo"!!! e linha pra costura? "linea"??? Nada a ver. O certo é "hilo".

Então acaba que o Castellano, apesar de ser uma língua latina, às vezes fica mais difícil pro brasileiro falar corretamente do que uma língua anglo-saxônica, justamente por ser tão parecido, mas nem tanto...

13 September 2006

meu site


Estamos em contagem regressiva, assim esperemos todos!!!!

Desde abril, umas semanas mais, outras menos, mergulho no passado resgatando preciosidades para o meu site, que deverá entrar no ar no meio de outubro. Aprendi formatar imagem, editar vídeos, editar loops, mas isto é a parte técnica da coisa, exige empenho, inteligência, praticidade, clareza, lógica e discernimento. Só? hehehe... isso a gente arruma aqui e ali... Mas a parte da escolha do material é que consome, e consome... milhares de critérios pessoas passam pela cabeça (e coração) na hora de escolher esta ou aquela foto, este ou aquele recorte de jornal. Isto, acreditem, não é fácil. Escolher. Claro que só dá vontade de colocar tudo tudo tudo, primeiro porque é mais fácil, segundo porque não iria faltar nadinha. Mas, e cabe??

E tem mais: ao mesmo tempo que tem a mente que trabalha objetiva, tem o inconsciente vivendo tudo aquilo de novo. Tenho tido sonhos surreais, inteiramenta surreais!!!

Dissecando com o bisturi da lembrança, recortando colando, copiando, escurecendo, clariando, inventando títulos, escolhendo cor, dimensionando, medindo, relatando... para colocar no site, para divulgar o meu trabalho, para trabalhar no futuro. Fins profissionais. Não pensem que fico tristonha num canto sombrio a lembrar dos "velhos tempos bons"... nada disso. Na verdade são velhos, mas não foram tão bons assim pra querer voltar. Bom é agora. Como diz o Gil, o melhor lugar do mundo é aqui e AGORA. Não tenho saudades do que ficou pra trás, não tenho vontade de voltar no tempo.

HOJE é vivo, tem cheiro, se mexe, e posso mudar.

Agora me lembrei de um haikai do Leminski: HAJA HOJE PARA TANTO HONTEM.

A foto aí é de 1973, do show do Diana & Stul no Teatro João Caetano em prol do Teatro Oficina, do Zé Celso, que estava passando maus bocados. Diana encima do piano, Mario Jansen tocando-o.

11 September 2006

vontade de viver


Fiquei estatelada. Li no jornal sábado passado. Os suicídios superam mortes em guerra e crimes: cerca de um milhão de pessoas se matam a cada ano!!!!!! 90% sofrem de problemas mentais (quem serão os outros 10%????)

Continuando o artigo: "Especialistas dizem que a grande maioria das mortes poderia ser evitada, já que 90% dos suicidas são pessoas que sofrem de doença mental não diagnosticada nem tratada" (insisto: e os outros 10???)

De 20 milhões a 60 milhões de pessoas tentam se matar a cada ano. Dessas, aproximadamente um milhão morre.

E ainda: um terço dos suicídios em todo o mundo é causado por..... pesticidas!!!! Médicos, dentistas e veterinários são especcialmente vulneráveis, porque têm acesso a drogas letaais e sabem como manuseá-las!!!!

Nunca tinha pensado nisso. Sempre pensei em armas, desespero de se atirar na frente de um carro, gas..

Os especialistas diseram ainda que as pessoas que perdem o emprego abruptamente são mais suscetíveis a tentar se matar do que aquelas que já vivem há muitos anos em situação de pobreza.

Será?

Pessoas que vivem em países onde o suicídio é ilegal, como o Líbano e Índia, têm mais dificuldade de buscar ajuda se começam a ter pensamentos suicidas temendo punições por parte do governo...

Se você se matar, vai preso, heim:)

Mas agora falando sério... claro que pensamentos auto-destrutivos podem e vão brotar na cabeça de qualquer um a um momento qualquer da vida, aliás é até normal, fácil fácil... com a pressão toda em que a gente vive, a piração, o desequilíbrio, a carência afetiva, o rolar para o abismo, o absurdo que se planta diante da gente, a confusão, enfim... Sei muito bem como é isso... Mas é também normal a luta pela vida, a vontade de viver, pensar que vai melhorar amanhã... e o medo de morrer também pesa, né... o que será que vem depois, se é que vem, e se não vem, vai ser muito chato morrer... ce tem que estar muito muito muito desesperado fora de si. Bem, na verdade, a linha entre a calma e o desespero é muito tênue, uma bobagem. Pra morrer, basta estar vivo...

Estava pensando nisso tudo, e de repente olhei pra fora da janela. Essa plantinha ali no muro. Com que força e determinação conseguiu furar o cimento, e sem nenhuma terrinha, uma poeirinha sequer pra se nutrir, ali mesmo no concreto foi germinando, brotando ufa ufa ufa saindo, levantando, respirando, se colorindo de verde clorofila, com umas frutinhas vermelhíssimas... e agora tá ali, me olha gloriosa e brilhante.

Isto é que é vontade de viver. Acho que também sou um pouco assim. Quantas vezes já "furei um cimento"...

06 September 2006

Assis Valente


A primeira música de Assis Valente que ouvi foi Maria Boa, cantada por meu pai em casa e na gravação do Bando da Lua. Eu tinha menos de tres anos, e é bem possível de ter escutado bem antes, só que a minha memória -hehe- não chega até lá. Claro, eu não sabia que era dele, e nem tinha noção de quem ele era, mas ele já me encantava. E no Natal? por mais que Jingle Bells zoava por todos os cantos, era de Boas Festas, de Assis Valente, que eu gostava mais. A letra é tão triste, tão triste quanto o Natal... tão contundente... tão profunda.... tão complexa... tão verdadeiro... eu chorava e chorava... Lançada pelo Carlos Galhardo em 1933, virou o nosso "hino" natalino. E escolhida por Caetano no programa "Divino Maravilhoso", na TV de São Paulo, cantando apontando um revólver pra sua própria cabeça, isso em 1968, em plena ditadura militar, pouco antes de ser preso, quando tudo que se fazia era cifrado... em código... Boas Festas, de Assis Valente:

Anoiteceu
O sino gemeu
E a gente ficou
Feliz a rezar
Papai Noel
Vê se você tem
A felicidade
pra você me dar
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Já faz tempo que pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem

Essa é uma das músicas mais lindas que eu conheço.

Assis Valente nasceu na Bahia no dia 19 de março de 1911. Sua vida pessoal foi marcada por sentimentos trágicos, mas isso em nada afetou a sua música. Suas dores íntimas foram reprimidas para dar lugar a melodias esfuziantes de rara sensibilidade, que falam sobre cenas da vida com humor, inteligência, sátira, alegria, transmitindo uma visão extremamente pessoal. Originalidade. Simplicidade e sofisticação. Verdadeiras crônicas, retratos musicais de sua época.

Ainda criança foi roubado dos pais e levado para trabalhar em regime de semi-escravidão na casa de uma família, e de noite estudava. Trabalhou como farmacêutico e teve uma breve passagem pelo circo, como comediante e declamador- dos bons!!! Mais tarde se mudou pra Salvador, onde estudou no Liceu de Artes e Ofício, exercendo um de seus muitos talentos, o desenho. Também estudou odontologia, especializando-se em prótese dentária. Era um excelente protético, e por toda sua vida exerceu esta profissão.

Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1927 e conseguiu publicar desenhos seus em várias revistas cariocas. Em 1930 ele conheceu Heitor dos Prazeres, que o incentivou a compor e rapidamente foi tendo reconhecimento no meio musical. Seu primeiro samba gravado foi cantado por Araci Cortes, em 1932 -Tem Francesa no Morro- sátira muito divertida sobre o modo elegante de se falar o frances, língua muito em moda na época. Bonito, inteligente, bem falante, vistoso, era uma pessoa muito interessante, e foi ficando cada vez mais popular, e dá-lhe fotos, notícias, retratinhos distribuídos com autógrafo, participações em palcos, circos... um autêntico animador cultural de nossos dias. Casou e teve uma filha em 1941, mas o casamento não durou muito.

Um detalhe muito importante, que é mais que um detalhe, e mais que muito importante: foi um compositor que teve a ousadia de, num Rio de Janeiro repressor e censurante como o dos anos 30, abordar problemas do ponto de vista feminino, como em Fez Bobagem (1942), Camisa Listrada- (1937), Recenseamento (1949), entre outras.

Meu pai foi muito amigo dele, e contou que por uma época eles se viam diariamente, junto com o resto do Bando da Lua, que por sinal foi o intérprete que gravou mais músicas de Assis. E que ele era muito alegre, inteligente, simpático, tinha uma criatividade absurda, sua produção musical era copiosa, no mínimo uma música por dia, quando não duas ou tres... ele cantava a música já pronta -não tocava instrumento algum!... papai e os outros iam harmonizando.

Quando conheceu a Carmen Miranda ficou apaixonado, viraram grandes amigos e ele passou a fazer muitas músicas exclusivamente para ela. Foi uma fase muito boa: sucessos um atrás do outro na voz de Carmen: Good-bye Boy, Uva de Caminhão, Camisa Listrada, E o Mundo Não se Acabou... Quando Carmen se mudou pros Estados Unidos- 1939- ele se sentiu abandonado, mas já era bastante famoso, gravado por Orlando Silva, Araci de Almeida.. todos queriam gravar as suas músicas. Um ano depois, quando ele soube que ela viria ao Brasil, logo compos duas músicas pra sua musa: Brasil Pandeiro e Recenseamento, mas ela só gostou da segunda, ele ficou magoadíssimo... Mas foi assim que Carmen perdeu a oportunidade de gravar uma de suas obras primas, que foi logo gravada pelos Anjos do Inferno naquele mesmo ano, com extraordinário sucesso.

Mas as coisas não iam bem em sua vida pessoal. Tentou o suicídio em 1941 pulando do alto do Corcovado, sendo salvo por umas árvores e retirado pelo Corpo de Bombeiros. Tentou de novo uns anos depois, cortando os pulsos com uma lâmina de barbear. Mais uma vez conseguiu sobreviver, e mesmo passando por todo esses momentos difíceis, continuou compondo músicas lindíssimas, que viravam logo sucesso. Gastador, generoso, endividado, dividido e vivendo dramas pessoais profundos, pela terceira vez tentou o suicídio, e desta vez conseguiu: foi pra Praça Paris, aquela na Glória indo pro Flamengo... sentou-se num banco da praça... e no meio da criançada brincando ali na terra... ingeriu formicida com guaraná...

Isto foi em 1958, com apenas 47 anos...

Sua música está aí em shows, eventos, peças de teatro, cinema. Brasil Pandeiro teve várias outras regravações, sendo a mais marcante a dos Novos Baianos, em 1973. Voltou a ser extremamente popular em 1994, graças à uma campanha publicitária relacionada à Copa do Mundo. Outras regravações de suas músicas: Nara Leão- Fez Bobagem, Bethânia -Camisa Listada, Eduardo Dusek- Camisa Listada e Goodbye Boy, Clara Sandroni- Uva de Caminhão, Ney Matogrosso- E O Mundo Não Se Acabou- e tantos tantos outros... Na década de 90 estreou o musical "O Samba Valente de Assis" no CCBB, RJ. Suas músicas continuam atuais nos dias de hoje. Lembro por exemplo, que em 1999 correu um boato que o mundo iria acabar, tinha até o dia certo: 11 de agosto. Tarólogos, astrólogos, esotéricos, seitas diversas anunciaram o fim. Até mesmo quem não acreditava nessas coisas ficou cabreiro, porque a previsão era unânime, e foi muito divulgado, jornal, TV. Pois não é que a música de Assis Valente foi lembrada mais uma vez? E O Mundo Não Se Acabou (... e fui tratando de me despedir/e fui tratando logo de aproveitar/beijei a boca de quem não devia/peguei na mão de quem não conhecia/dancei um samba em traje de maiô/e o tal do mundo não se acabou...). E 'tamos nos aqui...

Adoro Assis, me identifico com suas músicas, muito por meu passado de filha do Helio, do Bando da Lua, isso tá no sangue, e tanto porque ele é simplesmente ge-ni-al!!! Canto várias dele, e nos shows de samba, canto o Cansado de Sambar, Amanhã eu Dou, Bis, Mangueira, Recenseamento, E O Mundo Não Se Acabou...

E aí vai a letra de Recenseamento. Viram quanta coisa que temos pra nos orgulhar???? Parem de reclamar da vida:)

Recenseamento
Em 1940
lá no morro começaram o recenseamento
E o agente recenseador
esmiuçou a minha vida
que foi um horror
E quando viu a minha mão sem aliança
encarou para a criança
que no chão dormia
E perguntou se meu moreno era decente
se era do batente ou se era da folia

Obediente como a tudo que é da lei
fiquei logo sossegada e falei então:
O meu moreno é brasileiro, é fuzileiro,
é o que sai com a bandeira do seu batalhão!
A nossa casa não tem nada de grandeza
nós vivemos na fartura sem dever tostão
Tem um pandeiro, um cavaquinho, um tamborim
um reco-reco, uma cuíca e um violão

Fiquei pensando e comecei a descrever
tudo, tudo de valor
que meu Brasil me deu
Um céu azul, um Pão de Açúcar sem farelo
um pano verde e amarelo
Tudo isso é meu!
Tem feriado que pra mim vale fortuna
a Retirada da Laguna vale um cabedal!
Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia
um conjunto de harmonia que não tem rival
Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia
um conjunto de harmonia que não tem rival

chocolate


Atenção!!! parem tudo que estiverem fazendo!!! com esse frio bendito que tá no Rio -ontem fez 10º no Alto da Boa Vista- parem, vão até à cozinha e preparem um chocolate quente. Ou melhor, se tiverem dispostos e animados, dêem um passeio até o Centro e tomem um chocolate quente cremoooooso tipo europeu, conheço dois lugares onde podem encontrá-lo: na R. da Carioca e na R. Senador Dantas. Mmmmmmmm, um chocolate quente cremoso desses bem quase pretos aquecem até os ossos. Você vai sentindo ele agir aos pouquinhos... as mãos e os pés antes gelados, vão ficando morninhos... e dá uma felicidade tamanha na mente...

A primeira vez que provei uma delícia tresloucada dessas foi em Madrid. Tinha chegado de um show fora da cidade, era um outono invernal, e estava amanhecendo. Deixei as malas no Hostal, mas tava frio demais pra dormir (não tinha calefação, aliás, foi na Espanha, na França e em Portugal que mais senti frio em minha vida, mais do que na Suiça, na Alemanha, nos EUA, porque nestes países onde neva, com aquele frio de geleira, existe calefação em absolutamente toooodos os lugares, você só sente frio mesmo andando na rua). Mas no quarto estava um frio incontrolável, impensável, insustentável... e embaixo na rua tinha um quiosquezinho. Fui até lá e pedi um chocolate com churros (na Espanha eles fazem esta combinação, parece estranho, mas depois de provar, cê vê que foram feitos um pro outro).

Nunca esqueço daquela caneca pelando, esquentando meu corpo. Como diria a Suzy, minha irmã, como é bom uma coisa quentinha entrando... O primeiro a gente nunca esquece, depois tomei incontáveis copos, trouxe pro Brasil pacotes daquele chocolate cremoso. O da foto foi um chocolate com churros que tomei com Nuria e Walter em Madrid, em 2005, numa chocolateria que faz seu próprio chocolate, o San Gines.

A palavra chocolate vem do asteca cacauatl, e seu nome científico é Teobroma- que em grego quer dizer, comida de deus.

Mmmmmmmmmm.....

02 September 2006

Festival Universitario 69


A fantástica foto aí foi scanneada do jornal e mostra a Equipe Mercado em plena ação no Festival Universitário de 1969 em São Paulo, na TV Tupi. Atrás, o Grupo Oel fazendo sua performance de escovação dentária (o patrocinador era a pasta de dente Ultrabrite), na frente temos a participação de Naná Vasconcellos na tumbadora, depois Ronaldo Periassú na pose de Tarzan Urbano, Ricardo Guinsburg no violão e voz, Diana na voz e percussão, Lemgruber e Stul na guitarra e baixo e vozes.

A música apresentada era "Poesonscópio de Mil Novecentos e Quarenta e Quinze", da dupla Guinsburg/Periassú.

Apesar de termos nos apresentado antes, pra mim essa foi a verdadeira estréia. Essa foi o ponto de partida, o número um, foi onde tudo começou.

As reuniões foram na casa de Ronaldo e Ricardo, em Santa Teresa. Foi a primeira vez que andei de estribo, me lembro tanto da sensação, aquele vento veloz e fresco na cara, me senti tão livre... também senti um pouco de medo, principalmente quando o bonde desandou a correr, tive que me agarrar muito bem... dava cada rabada... não acertei bem a posição, e foi um esforço tremendo. Depois virei bamba no esporte, dando aulas aos neófitos. Tem uma exata posição que permite o usuário relaxar e curtir a paisagem, mas naquela noite ufa!

Voltando ao festival. Já tinha se formado uma estrutura de produção em nossa volta, que cuidou do transporte, estadia e alimentação. Tudo era novidade, e eu estava me sentindo num sonho. Viajar com a banda. Conhecer São Paulo. Pegar o trem de noite (não dormi um pingo, inteiramente ansiosa e excitada com aquilo tudo). Amanhecer em outra cidade. Um hotel. Tudo já no esquema, uma kombi nos esperando pra levar à TV, na Brigadeiro Luiz Antônio. A platéia. A gravação ao vivo do Festival. Os imprevistos durante a apresentação (a platéia jogava coisas na gente... não foi exatamente uma reação favorável...). E depois veio o resultado: prêmio de originalidade. Não ganhamos o Festival, mas ganhamos espaço pela primeira vez para mostrarmos o nosso som. E dali foi acontecendo tudo, mais festivais, gravações, shows. Nossa música tocando na rádio, nossa música tocando na rádio, nossa música tocando na rádio!!! Agora ninguém mais segura!!!

Sonhos, sonhos e sonhos. Que nos ajudaram a passar por aqueles anos funestos em que o Brasil adentrava um fosso tenebroso sem luz no fim, gosmento, fétido, horrendo, apavorante. Sonhos, sonhos e sonhos. Que seria de mim sem eles???

frio e sol


Que dia lindo ontem, que dia lindo. Um céu tão azul, um azul tão profundo, tão forte... na sombra tava até frio, mas no sol.... aquele sol tão gostoso que amorna. A paisagem tão nítida, as fachadas das casas, folhas, pedras, meio-fio, carros... como se eu tivesse passado uma flanela no vidro do meu globo ocular e de repente desembaçou tudo. As cores tão fortes. Me deu vontade de ligar pra todos os meus amigos e dizer pra sairem pra rua e olharem como o dia estava lindo. É raro ter um dia assim, tão especial. A Serra do Mar inteiramente visível no horizonte, aquela linha subindo e descendo desenhando as montanhas... Tinguá, Dedo-de-Deus, dava pra ver tudo.

E a outra coisa boa foi que de ontem pra hoje ganhamos a noite mais fria do ano, 10º!!!!!! começo de setembro. Estamos quase na primavera, e no entanto...

Tirei uma foto desse céu de anil, que aliás foi eleito (li no jornal há pouco tempo que existe um concurso, plebiscito, sei lá.. não é incrível haver uma coisa dessas? acho que na Europa. Ou será nos EUA?) o céu mais azul do mundo!!!! E olha que visitaram lugares paradisíacos -Caribe, Polinésia- e quem ganhou foi o céu do Brasil!!!

Somos os campeões mundiais de CÉU!!!!!!